O diretor filipino Lav Diaz

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O diretor filipino Lav Diaz

Crime, castigo e compaixão nas Filipinas

No cinema

05.05.17

Assistir a um fil­me do fili­pi­no Lav Diaz é uma expe­ri­ên­cia tan­to sen­so­ri­al como espi­ri­tu­al. Quem esti­ver atrás ape­nas de um entre­te­ni­men­to agra­dá­vel por um par de horas deve esco­lher outro pro­gra­ma, até por­que seus fil­mes cos­tu­mam durar seis, oito, nove horas. Por sua pró­pria dura­ção, mas tam­bém pela com­po­si­ção das ima­gens e pelo rit­mo do seu enca­de­a­men­to, esses fil­mes impõem ao espec­ta­dor a imer­são numa outra tem­po­ra­li­da­de, o agu­ça­men­to de outro tipo de per­cep­ção.

A mulher que se foi, ganha­dor do Leão de Ouro no últi­mo fes­ti­val de Veneza, é uma obra com­pa­ra­ti­va­men­te cur­ta na fil­mo­gra­fia do dire­tor: não che­ga a qua­tro horas de dura­ção. E cada minu­to delas vale a aten­ção.

Rodado em pre­to e bran­co, com os lon­gos e belos pla­nos fixos carac­te­rís­ti­cos de Diaz (que tam­bém assi­na o rotei­ro, a foto­gra­fia e a mon­ta­gem), o fil­me nar­ra, em linhas gerais, a sin­gu­lar his­tó­ria de uma mulher, Horacia (a extra­or­di­ná­ria Charo Santos-Concio), que cum­pre pena de pri­são por um assas­si­na­to que não come­teu.

Reinvenção da iden­ti­da­de

Acompanhamos os últi­mos dias de Horacia na pri­são e, depois de sol­ta, a ten­ta­ti­va de recons­tru­ção de sua vida em liber­da­de. Mais que recons­tru­ção, tra­ta-se da rein­ven­ção de uma iden­ti­da­de, trin­ta anos depois. E é nis­so que resi­de, tal­vez, a prin­ci­pal ori­gi­na­li­da­de de A mulher que se foi, mes­mo den­tro da obra do cine­as­ta: a par­tir de sua sol­tu­ra, a tra­je­tó­ria de Horacia é como uma pági­na em bran­co, em que ela pode escre­ver uma nova bio­gra­fia – ain­da que sua moti­va­ção cen­tral seja o acer­to de con­tas com o pas­sa­do. Lembra, nis­so, o per­so­na­gem Locke de O pas­sa­gei­ro, pro­fis­são: repór­ter, de Antonioni.

Mas aqui a pro­ta­go­nis­ta se frag­men­ta em vári­as iden­ti­da­des, inclu­si­ve assu­min­do outros nomes: Renata, Leticia. É, em cer­tas horas, dona de um peque­no res­tau­ran­te popu­lar e, em outras, mora­do­ra de rua que con­vi­ve com ambu­lan­tes, fave­la­dos e tra­ves­tis. Embora não expli­ci­ta­do, seu desíg­nio, tudo indi­ca, é vin­gar-se de algum modo do homem que arqui­te­tou sua des­gra­ça.

Muito já se falou da pro­xi­mi­da­de de Lav Diaz com o uni­ver­so psi­co­ló­gi­co e moral dos gran­des escri­to­res rus­sos do sécu­lo 19, com sua dila­ce­ran­te huma­ni­da­de. No caso de A mulher que se foi, é como se ele tives­se mis­tu­ra­do o con­to de Tolstói “Deus vê a ver­da­de, mas cus­ta a reve­lar” (pra­ti­ca­men­te come­çan­do onde este ter­mi­na, e tro­can­do o gêne­ro dos per­so­na­gens) e o roman­ce Humilhados e ofen­di­dos, de Dostoiévski.

Os gran­des temas dos­toi­evs­ki­a­nos da cul­pa, do remor­so, do cas­ti­go e da vin­gan­ça estão, mais do que nun­ca, pre­sen­tes. Uma espé­cie de cris­ti­a­nis­mo ima­nen­te, sem Deus, reple­to de com­pai­xão, mas des­pro­vi­do de sen­ti­men­ta­lis­mo, impreg­na cada cena.

Tudo é mos­tra­do de modo cla­ro e ao mes­mo tem­po não osten­si­vo. As pri­mei­ras ima­gens – um pla­no aber­to de mulhe­res tra­ba­lhan­do numa colô­nia penal, vigi­a­das por sol­da­dos for­te­men­te arma­dos – apre­sen­tam o con­tex­to sócio-polí­ti­co e, ao mes­mo tem­po, colo­cam em cena, num diá­lo­go apa­ren­te­men­te banal, duas per­so­na­gens que, con­for­me sabe­re­mos depois, têm uma cone­xão trá­gi­ca uma com a outra: Horacia e sua cole­ga de pri­são Petra (Shamaine Buencamino).

Transferência de cul­pa

Essa manei­ra de nar­rar de modo elíp­ti­co e indi­re­to, pou­co a pou­co, em pla­nos geral­men­te aber­tos e com foco pro­fun­do, em vez de diri­gir o olhar do espec­ta­dor, soli­ci­ta uma aten­ção ati­va por par­te des­te, que deve bus­car na rique­za do qua­dro as infor­ma­ções rele­van­tes para a com­pre­en­são e per­cep­ção do todo. Soma-se a isso a sutil inter­ven­ção da tri­lha sono­ra (sem­pre des­pro­vi­da de músi­ca) – por exem­plo, na cena em que duas mulhe­res con­ver­sam sobre algo pro­sai­co enquan­to, no rádio, ouvi­mos um comen­tá­rio sobre as mor­tes então recen­tes (1997) de Gianni Versace, da prin­ce­sa Diana e de Madre Teresa de Calcutá, com o con­jun­to per­fa­zen­do uma refle­xão sobre a mor­te da pie­da­de no mun­do con­tem­po­râ­neo.

Dentro do rigor com que o cine­as­ta des­do­bra sua nar­ra­ti­va, é curi­o­so notar que as duas úni­cas pas­sa­gens em que a pro­ta­go­nis­ta está ausen­te da cena são bre­ves momen­tos de con­fis­são de outros per­so­na­gens, um deles a um padre, o outro à polí­cia. Mas é ela, Horacia/Renata/Leticia, o moti­vo ocul­to de ambas as con­fis­sões. Transferência de cul­pa, trans­fe­rên­cia de cas­ti­go, trans­fe­rên­cia de vin­gan­ça – é em tor­no des­ses eixos que gira todo o fil­me.

Cabe uma últi­ma pala­vra sobre a com­po­si­ção dos pla­nos nes­te e em outros tra­ba­lhos de Lav Diaz. Há qua­se sem­pre, mais ou menos no cen­tro da tela, uma linha ver­ti­cal (pos­te, árvo­re, pare­de, muro, cor­po huma­no) divi­din­do o qua­dro em qua­dri­lá­te­ros irre­gu­la­res, blo­cos de cla­ri­da­de e escu­ri­dão, sobre­tu­do nas cenas notur­nas exter­nas, mas tam­bém nas de inte­ri­or, gra­ças à inter­ven­ção de jane­las, cor­re­do­res, qua­dros den­tro do qua­dro, luz que vem de fora e ilu­mi­na ape­nas par­te do espa­ço etc.

Além de acen­tu­ar a sen­sa­ção de volu­me e pro­fun­di­da­de, tal pro­ce­di­men­to cha­ma a aten­ção para o jogo de luz e som­bra como um con­fron­to assi­mé­tri­co, em dese­qui­lí­brio, como a mos­trar que, tan­to no mun­do soci­al como no inte­ri­or dos indi­ví­du­os, há um emba­te per­ma­nen­te e desi­gual entre as tre­vas e o escla­re­ci­men­to (ou a ilu­mi­na­ção, num sen­ti­do mais meta­fí­si­co). Pode ser uma des­ca­bi­da “via­gem” de espec­ta­dor, mas é jus­ta­men­te a esse tipo de espe­cu­la­ção que o cine­ma de Lav Diaz nos con­vi­da. Quem esti­ver dis­pos­to a embar­car verá que a expe­di­ção vale a pena.

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