Cronenberg: a escrita e a carne

No cinema

27.04.12

Meu sen­ti­men­to é o de que o pri­mei­ro fato da exis­tên­cia huma­na é o cor­po”, dis­se David Cronenberg numa entre­vis­ta que me con­ce­deu em 1999. E expli­cou: “Tudo o que faze­mos e expe­ri­men­ta­mos é medi­a­do pelo cor­po. Somos nos­so cor­po, embo­ra às vezes esque­ça­mos dis­so. (…) Mesmo quan­do acha­mos que esta­mos sen­do mui­to cere­brais ou inte­lec­tu­ais, sepa­ra­dos das coi­sas físi­cas e orgâ­ni­cas, tra­ta-se de uma ilu­são. O cére­bro tam­bém é um órgão, não? Para mim, a arte é sem­pre uma expe­ri­ên­cia car­nal”.

Essas pala­vras me vie­ram à memó­ria enquan­to eu assis­tia ao extra­or­di­ná­rio Um méto­do peri­go­so. O fil­me me pare­ceu a rea­li­za­ção cabal das idei­as de Cronenberg. O dire­tor cana­den­se che­gou a seu cen­tro, por assim dizer, colo­can­do em cena os dois prin­ci­pais pio­nei­ros da psi­ca­ná­li­se, Freud (Viggo Mortensen) e Jung (Michael Fassbender), com uma mulher no meio: Sabina Spielrein (Keira Knightley).

O cor­po como cam­po de bata­lha

As ima­gens ini­ci­ais do fil­me, ain­da na sequên­cia dos cré­di­tos, são elo­quen­tes, e bali­zam tudo o que virá a seguir. No prin­cí­pio, o ver­bo: pala­vras manus­cri­tas e dati­lo­gra­fa­das sobre o papel. Depois, o cor­po con­vul­so de uma mulher que se bate con­tra o vidro de uma car­ru­a­gem. Primeiro a escri­ta, a ten­ta­ti­va de expres­sar o inte­lec­to e orde­nar o caos. Em segui­da, o pró­prio caos, o indo­má­vel, o incom­pre­en­sí­vel.

Todo o fil­me será um des­do­bra­men­to des­se emba­te: de um lado, as for­ças vivas e por vezes obs­cu­ras da car­ne; de outro, a bus­ca pela com­pre­en­são e con­tro­le des­sas for­ças pelo dis­cur­so lógi­co, em últi­ma aná­li­se pela escri­ta.

Freud e Jung são as men­tes em bus­ca da res­pos­ta. Sabina é a per­gun­ta. Claro que, a par­tir de cer­to momen­to, tam­bém ela bus­ca o escla­re­ci­men­to, mas seu cor­po — incluin­do o cére­bro, órgão mais nobre — segue sen­do o cam­po de bata­lha cen­tral des­se dra­ma ter­rí­vel.

Um dra­ma que se desen­ro­la qua­se em sur­di­na, em salas impe­ca­vel­men­te lim­pas, entre mulhe­res de ves­ti­dos ima­cu­la­dos e homens de bar­bas apa­ra­das com esme­ro. Nesse cená­rio de ordem e assep­sia, em que os pró­pri­os lagos, bos­ques e jar­dins pare­cem tra­ça­dos com ele­gân­cia e dis­cri­ção, a fúria do cor­po, quan­do emer­ge — em espas­mo, em san­gue, em lágri­ma -, assu­me um efei­to tre­men­do.

Caminhos opos­tos

Se, dian­te dos impas­ses da psi­ca­ná­li­se, Freud e Jung tri­lham cami­nhos opos­tos — o pri­mei­ro se afer­ran­do a um rígi­do parâ­me­tro “cien­tí­fi­co”, o segun­do bus­can­do outras fon­tes menos orto­do­xas de saber -, Cronenberg e seu rotei­ris­ta, Christopher Hampton, não che­gam a tomar par­ti­do. Ambos, mes­tre e dis­cí­pu­lo, pare­cem des­ti­na­dos à frus­tra­ção. Ao expor as fra­que­zas de cada um — o dese­jo de con­tro­le de Freud, a pusi­la­ni­mi­da­de de Jung -, o fil­me não os con­de­na, ape­nas os mos­tra como dema­si­a­do huma­nos. Não exis­tem indi­ví­du­os aci­ma das con­tra­di­ções da espé­cie. “Só o médi­co feri­do pode curar”, diz Jung a cer­ta altu­ra. Na cena a seguir, a (im)paciente Sabina pare­ce cor­ro­bo­rar esse pon­to de vis­ta:

http://www.youtube.com/watch?v=X9eQwKAXVIs

Transformar a bus­ca inte­lec­tu­al num dra­ma ele­tri­zan­te, qua­se um épi­co entre qua­tro pare­des, não é tare­fa fácil, e nes­se aspec­to Um méto­do peri­go­so reme­te a outro fil­me igual­men­te notá­vel, embo­ra total­men­te dife­ren­te, acer­ca dos iní­ci­os da psi­ca­ná­li­se: Freud, além da alma (1962), em que Montgomery Clift encar­na com brio o jovem Sigmund. Aliás, seria mui­to opor­tu­no rever ago­ra, à luz de Cronenberg, essa obra subes­ti­ma­da de John Huston, que está dis­po­ní­vel em DVD. Aqui, para ter­mi­nar sem catar­se, a angus­ti­an­te sequên­cia do pesa­de­lo de Freud:

http://www.youtube.com/watch?v=du8F1NzBiXU

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: Viggo Mortensen e Michael Fassbender em Um méto­do peri­go­so.

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