Cultura fragmentada, mapas e sobreposição de visualidades

Artes

29.05.13

Claun

Quando uma ideia/vontade cine­ma­to­grá­fi­ca dei­xa de se bas­tar enquan­to um úni­co fil­me e pas­sa a pedir novas faces esté­ti­cas? Fora a ques­tão de mer­ca­do e con­su­mo em dife­ren­te pla­ta­for­mas, que cami­nhos con­cei­tu­ais me leva­ram a uma aven­tu­ra para além do ritu­al cine­ma­to­grá­fi­co mais tra­di­ci­o­nal, me arris­can­do numa série de web e pro­je­to trans­mí­dia? São as per­gun­tas que ten­to res­pon­der aqui — ain­da no meio do fura­cão. Começando pelo come­ço:

Sou cine­as­ta de for­ma­ção, e aos 32 anos vivo o lim­bo de quem não é nem um gar­bo­so exem­plar da gera­ção inter­net do sécu­lo XXI, nem um lím­pi­do repre­sen­tan­te do sécu­lo XX. Meu pri­mei­ro cur­ta, em 2002, mon­tei em movi­o­la 16 mm numa sala da uni­ver­si­da­de e car­re­guei as cópi­as debai­xo do bra­ço para fes­ti­vais e mos­tras. O ter­cei­ro, em 2005, já mon­tei em Final Cut no quar­to de casa e podia man­dar para fes­ti­vais em DVDs ou fitas HD. Hoje, um peque­no cur­ta pode ser colo­ca­do em HD na web e bai­xa­do do outro lado do mun­do para exi­bi­ção ime­di­a­ta.

Se o espan­to ini­ci­al diz res­pei­to à rapi­dez do pro­ces­so de pro­du­ção e trans­por­te das ima­gens, o que come­ça a se mos­trar evi­den­te é que tam­bém novas for­mas de nar­rar e orga­ni­zar nos­sas ima­gi­na­ções vão se tor­nan­do pos­sí­veis den­tro des­sas dinâ­mi­cas e acú­mu­los nar­ra­ti­vos.

Minha his­tó­ria com o pro­je­to Claun come­çou em 2010, logo após as exi­bi­ções de A ale­gria em Cannes. Entre os que elo­gi­a­vam e os que viam fra­gi­li­da­des no fil­me, pare­cia haver uma coi­sa em comum: a impres­são de que o fil­me mui­to mais pro­pu­nha a ins­ta­la­ção de um uni­ver­so do que exa­ta­men­te nar­ra­va uma tra­je­tó­ria den­tro dele. Que o mais con­sis­ten­te em nos­so tra­ba­lho era o encon­tro com o ima­gi­ná­rio e a atmos­fe­ra fan­tás­ti­ca daque­les per­so­na­gens, mais do que a frui­ção por uma tra­ma ali deter­mi­na­da.

Tateando essas impres­sões, come­cei a ir adi­an­te: tal­vez o que eu esta­va desen­vol­ven­do com Marina Meliande pas­sas­se jus­ta­men­te por ser mes­mo mais uma car­to­gra­fia visu­al, mági­ca e sim­bó­li­ca do Rio de Janeiro do que uma “crô­ni­ca con­tem­po­râ­nea” da cida­de. A apre­sen­ta­ção de um uni­ver­so e suas vári­as pos­si­bi­li­da­des de ence­na­ção, sem que neces­sa­ri­a­men­te che­gás­se­mos a um arco dra­má­ti­co defi­ni­ti­vo, come­çou a me apa­re­cer como meu ges­to mais natu­ral como o rea­li­za­dor de cine­ma que eu come­ço a ser, o que nos levou ao for­ma­to frag­men­ta­do e cole­ti­vo vis­to em Desassossego (2011).

Ainda com isso na cabe­ça, enquan­to lan­çá­va­mos o fil­me-cole­ti­vo em Rotterdam 2011, come­cei então a bis­bi­lho­tar os esbo­ços tan­to de A fuga da mulher gori­la, nos­so pri­mei­ro lon­ga, quan­to de A ale­gria, inves­ti­gan­do se have­ria mate­ri­al no entor­no dos fil­mes que pudes­se seguir se des­do­bran­do para além da Trilogia Coração no Fogo — num for­ma­to epi­só­di­co, tal­vez?

Apesar do entu­si­as­mo ini­ci­al, algu­ma coi­sa na incom­ple­tu­de daque­las nar­ra­ti­vas pare­cia me pedir para per­ma­ne­cer daque­le jei­to: into­ca­da, em fal­ta. E desis­ti do ata­lho. Em janei­ro de 2011 come­cei a esbo­çar o que viria a ser o pro­je­to trans­mí­dia Claun. Era anti­go (des­de os tem­pos da facul­da­de e mis­tu­ran­do minhas memó­ri­as infan­tis nas ruas da Baixada) o meu dese­jo de inves­ti­gar o uni­ver­so dos bate-bolas cari­o­cas — cons­truin­do em tor­no deles algum tipo de nar­ra­ti­va épi­ca e míti­ca a par­tir da for­ma como mis­tu­ra­vam reli­gião, car­na­val e cul­tu­ra pop em suas refe­rên­ci­as e ges­tos.

Ao come­çar a mover essas peças na cabe­ça numa tar­de, via­jan­do pela Via Dutra a cami­nho de Queimados para visi­tar a famí­lia, me veio a impres­são de que ao invés de que­rer nar­rar algo cujo ciclo ritu­a­lís­ti­co fos­se o da sala de cine­ma tra­di­ci­o­nal (onde sen­ta­mos por cer­ca de duas horas e saí­mos com algo pron­to e deter­mi­na­do para dige­rir), minha von­ta­de era ampli­ar a cons­tru­ção do sen­ti­do do ina­ca­ba­do, do infi­ni­to das ruas da cida­de e de sua eter­na trans­for­ma­ção, e tam­bém sua cir­cu­la­ção pelas telas, casas e espa­ços da cida­de. “Cinema para lan hou­ses”, eu brin­ca­va com os ami­gos.

Indo um pou­co além do que tes­ta­mos em A ale­gria nes­se sen­ti­do, eu que­ria par­tir para uma cos­mo­lo­gia cari­o­ca tão cheia de cama­das e ritu­ais quan­to as tur­mas e gru­pos de bate-bolas da “vida real” me con­vi­da­vam a tes­te­mu­nhar em sua roti­na mági­ca. Quanto mais eu pen­sa­va, mais se ampli­a­va esse tabu­lei­ro amplo de ima­gi­na­ção. Não foi um sal­to con­cei­tu­al dos mais difí­ceis: esta­va na pró­pria base da cul­tu­ra dos gru­pos de bate-bolas (cul­tu­ra em rede dos subúr­bi­os cari­o­cas, base­a­da no entre­me­ar de ruas, linhas de trem, con­ta­tos, ami­za­des e cir­cu­la­ções por todas as dire­ções) a gêne­se de um pro­je­to trans­mí­dia e mul­ti­fa­ce­ta­do. Se a zona sul cari­o­ca me soa­va como uma linha reta a cos­tu­rar mar e mon­ta­nha, a zona nor­te e a zona oes­te me con­vi­da­vam para esse exer­cí­cio mul­ti­di­re­ci­o­nal de visu­a­li­da­des cuja tênue tri­lha a seguir eram os tri­lhos do trem.

Comecei a ten­tar mape­ar essa mito­lo­gia intrin­se­ca­men­te cari­o­ca em encon­tros com diver­sos líde­res dos mas­ca­ra­dos da “vida real”, e fui em bus­ca das cama­das de suas refe­rên­ci­as mais silen­ci­o­sas: fábu­las euro­pei­as, mito­lo­gia afri­ca­na e indí­ge­na, ani­mes japo­ne­ses e per­so­na­gens dos qua­dri­nhos nor­te-ame­ri­ca­nos. Como as cores, reta­lhos e refe­rên­ci­as da cul­tu­ra dos mas­ca­ra­dos, fui per­ce­ben­do que per­so­na­gens, tra­mas e cone­xões nar­ra­ti­vas pode­ri­am ir e vir, se des­do­brar, se deta­lhar e se copi­ar, como num jogo de sam­ples, frag­men­tos e imi­ta­ções. Um oce­a­no sim­bó­li­co se abria. Seria pre­ci­so, a par­tir dali, um farol — um per­so­na­gem que nos gui­as­se.

Claun

Foi aí que, reven­do alguns fil­mes do rea­lis­mo fan­tás­ti­co tche­co dos anos 1960 e seri­a­dos japo­ne­ses dos anos 1980, tive a intui­ção de uma per­so­na­gem femi­ni­na de tra­ços infan­tis, na fai­xa dos 13 anos, que como num roman­ce de for­ma­ção clás­si­co pudes­se me aju­dar a ilu­mi­nar os pri­mei­ros pas­sos des­sa tare­fa de inves­ti­ga­ção. Nascia a per­so­na­gem Ayana, que no pró­prio ros­to sim­bo­li­za­ria o enig­ma des­se uni­ver­so atra­vés de um tapa-olho que escon­de par­te de sua face qua­se infan­til (o lim­bo da pré-ado­les­cên­cia tam­bém com­bi­na­va com a ideia de des­do­bra­men­to de uni­ver­so em expan­são).

Tivemos a ale­gria de apre­sen­tar os três capí­tu­los-pilo­to de for­ma con­jun­ta em ses­sões espe­ci­ais den­tro do Festival de Rotterdam 2013 (numa mos­tra espe­ci­al que reu­nia séri­es de TV e web­sé­ri­es de nomes como Kore-Eda e Kioshi Kurosawa). Na vol­ta ao Brasil, quan­do per­gun­ta­do por um crí­ti­co de cine­ma se minha inten­ção era mes­mo con­fun­dir a per­cep­ção de com­ple­tu­de das nar­ra­ti­vas a que me pro­pu­nha e, com isso, “difi­cul­tar seu tra­ba­lho”, só pude abrir um peque­no sor­ri­so.

Porque acho que esse é o meu esfor­ço quan­do lan­ço no mun­do (jun­to com meus par­cei­ros cri­a­ti­vos) essa car­to­gra­fia mági­ca do Rio de Janeiro: con­vi­dar para um encan­ta­men­to urba­no à mar­gem das von­ta­des de for­ma­tar, con­tro­lar e deter­mi­nar o que seja uma cida­da­nia ide­al e har­mo­ni­o­sa no Brasil de hoje — e tal­vez tam­bém a ideia de uma arte ide­a­li­za­da enquan­to ges­to har­mo­ni­o­so e deter­mi­nan­te.

Preciso rea­fir­mar que devo todo esse dese­jo de ima­gi­na­ção e ins­pi­ra­ção polí­ti­ca aos bate-bolas da vida real e sua cul­tu­ra (con­tro­ver­sa e mui­tas vezes vio­len­ta, mas nun­ca menos que mara­vi­lho­sa). Ao con­trá­rio de algu­mas outras mani­fes­ta­ções popu­la­res mais domes­ti­ca­das, eles não andam em linhas reta — des­vi­am, se escon­dem, pulam, mudam de rumo, se dis­far­çam, debo­cham. Não acei­tam uma úni­ca ver­da­de soci­o­cul­tu­ral e polí­ti­ca como o cami­nho a ser segui­do. Como dis­se Hermano Vianna em colu­na sobre o pro­je­to Claun no jor­nal O Globo: “a opção pelo pro­je­to trans­mí­dia é, de cer­ta for­ma, em si mes­mo um elo­gio do caos e da poro­si­da­de des­sa cul­tu­ra”.

Claun, por­tan­to, se fará nos pró­xi­mos anos (e espe­ro que por déca­das, já que é um pro­je­to para a vida em para­le­lo aos demais fil­mes que vie­rem no cami­nho) como um mapa sim­bó­li­co e mul­ti­nar­ra­ti­vo, antes de tudo. E, como um mapa, pode­rá ser explo­ra­do para todos os lados e em diver­sas esca­las. Porque Claun não é um fil­me ape­nas “lan­ça­do” na inter­net — não se tra­ta ape­nas de expe­ri­men­tar uma for­ma de difu­são. Claun é, des­de sua gêne­se, um obje­to sujo e mis­tu­ra­do de cine­ma, seri­a­do, Facebook e HQ. Um ros­to que se sobre­põe a outro sob a for­ma de uma fina rede ema­ra­nha­da.

O pró­xi­mo pas­so de Claun, além de bus­car finan­ci­ar mais capí­tu­los da série para TV e web, é desen­vol­ver um livro em qua­dri­nhos que venha ao mun­do já em 2014. cri­an­do outras cama­das para este uni­ver­so e mos­tran­do des­ven­tu­ras de per­so­na­gens dos quais vemos ape­nas cama­das ini­ci­ais nos capí­tu­los-pilo­to que serão mos­tra­dos em con­jun­to na tela do IMS-RJ nos dias 7, 8 e 9 de junho. Além dis­so, um com­pên­dio de docu­men­ta­ções sobre as tur­mas reais e sua mito­lo­gia urba­na tam­bém deve­rá ser cri­a­do em bre­ve no nos­so site.

Ainda me sin­to come­çan­do, a cada eta­pa, esse ges­to e admi­ra­ção, nar­ra­ti­va e ima­gi­na­ção. Filme de arte ver­sus seri­a­do pop? Sofisticação ver­sus cli­chês? Artesanato ver­sus com­pu­ta­ção grá­fi­ca? Todos esses limi­tes serão inves­ti­ga­dos (o pro­fes­sor Hernani Heffner tem o cos­tu­me de com­pa­rar o ges­to do cine­as­ta ao de um dete­ti­ve) em Claun — com toda paci­ên­cia e dedi­ca­ção que puder­mos. E como me dis­se um líder de tur­ma numa madru­ga­da de car­na­val em Marechal Hermes: “Isso aqui é um mun­do!”

* Felipe Bragança é cine­as­ta.