David Drew Zingg

Fotografia

24.02.13

David Drew Zingg (1923–2000) já era um fotó­gra­fo con­cei­tu­a­do nos Estados Unidos quan­do conhe­ceu o Brasil. Trabalhara para revis­tas como LookEsquireVogue, e já tinha foto­gra­fa­do per­so­na­li­da­des como John Kennedy. Em 1959, desem­bar­cou no Rio de Janeiro como inte­gran­te da equi­pe do velei­ro Ondine na cor­ri­da oceâ­ni­ca Buenos Aires-Rio, que tam­bém esta­va cobrin­do para LifeSports Illustrated. Iniciou ali uma pai­xão que logo se tor­na­ria exclu­si­va, com sua mudan­ça defi­ni­ti­va para o país no iní­cio da déca­da de 1960.

Registrou momen­tos fun­da­men­tais da bos­sa nova, como a estreia do show “O encon­tro”, que reu­niu em 1962, na boa­te Au Bon Gourmet, no Rio, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Gilberto e Os Cariocas. Foi nes­te show que “Garota de Ipanema” veio ao mun­do.

Zingg retra­tou gran­des nomes da cul­tu­ra e da vida bra­si­lei­ras: Pixinguinha, Dorival Caymmi, Tom, Vinicius, Chico Buarque, Caetano Veloso, Leila Diniz, Guimarães Rosa, Oscar Niemeyer, Juscelino Kubitschek e mui­tos outros.

É como se, ao ten­tar fla­grar a alma pri­va­da de gran­des bra­si­lei­ros (…), ele retra­tas­se uma espé­cie de alma cole­ti­va do bra­si­lei­ro ou da bra­si­li­da­de”, escre­veu o jor­na­lis­ta Matinas Suzuki Jr., um de seus gran­des ami­gos, no pro­gra­ma da últi­ma expo­si­ção rea­li­za­da por Zingg, em 1999, no Senac-SP.

Nas mui­tas via­gens que fez pelo país, foto­gra­fou pes­so­as anô­ni­mas, cos­tu­mes e luga­res, docu­men­tan­do um Brasil que rara­men­te apa­re­cia na TV ou che­ga­va ao gran­de públi­co. Da Brasília ain­da em cons­tru­ção às biros­cas do inte­ri­or, pas­san­do pela Passeata dos Cem Mil e por cenas coti­di­a­nas de peque­nas e gran­des cida­des, Zingg mon­tou ao lon­go de qua­tro déca­das um pai­nel pecu­li­ar e pre­ci­o­so do país que ama­va — sem, tam­bém, dei­xar de cri­ti­car.

Por meio do exer­cí­cio obs­ti­na­do de uma pai­xão por essa mul­ti­pli­ci­da­de com­ple­xa que se cha­ma ?um país’, ele ten­tou dar exis­tên­cia para sem­pre a uma gra­ça, uma viva­ci­da­de, uma ele­gân­cia, um char­me par­ti­cu­la­rís­si­mo de cer­tos per­so­na­gens do país cha­ma­do Brasil”, escre­veu Matinas no mes­mo tex­to de 1999.

Esse riquís­si­mo pai­nel che­gou ao Instituto Moreira Salles em 2012, atra­vés de como­da­to rea­li­za­do com seus des­cen­den­tes. Está pas­san­do por um cui­da­do­so inven­tá­rio que se esten­de­rá ao lon­go des­te ano. São mais de 150 mil ima­gens, entre cro­mos, nega­ti­vos e cópi­as em papel, pre­do­mi­nan­do as fotos em cor.

Estavam em 40 cai­xas. Outras 40 abri­gam obje­tos, recor­tes e sua bibli­o­te­ca, mate­ri­al que tam­bém será inven­ta­ri­a­do. Zingg não foi ape­nas fotó­gra­fo, mas tam­bém con­sul­tor e cro­nis­ta do jor­nal Folha de S. Paulo, escre­ven­do, de 1987 a 2000, a colu­na “Tio Dave”, e ain­da par­ti­ci­pou da ban­da Joelho de Porco.

O inven­tá­rio nos per­mi­ti­rá esta­be­le­cer uma cro­no­lo­gia das ima­gens, além de enxer­gar os vári­os aspec­tos de seu tra­ba­lho, que era mui­to vari­a­do. Ele ficou famo­so por seus retra­tos, mas pro­du­ziu uma impor­tan­te ico­no­gra­fia da cul­tu­ra popu­lar”, afir­ma Sergio Burgi, coor­de­na­dor de foto­gra­fia do IMS.

O pró­prio Zingg escre­veu: “Fotografia é his­tó­ria, e é essa sua fun­ção fun­da­men­tal. A máqui­na mos­tra os dias de hoje àque­les que quei­ram ver os dias de hoje. Mas a máqui­na tam­bém mos­tra o ontem àque­les que quei­ram apren­der. (…) O dever de um fotó­gra­fo no Brasil, me pare­ce, é insis­tir no regis­tro do sofri­men­to e do pra­zer, do belo e do irô­ni­co. Só o tem­po e o públi­co deci­di­rão o sig­ni­fi­ca­do que as foto­gra­fi­as real­men­te têm”.

Como acon­te­ce com todos os acer­vos sob a guar­da do ins­ti­tu­to, have­rá um rigo­ro­so tra­ba­lho de higi­e­ni­za­ção do mate­ri­al, para que ele fique em per­fei­to esta­do. Mas, para­le­la­men­te a tudo o que é pre­ci­so fazer den­tro da reser­va téc­ni­ca, a obra de Zingg come­ça­rá a ser mos­tra­da ao públi­co. Projetos de enver­ga­du­ra serão cri­a­dos e o site do IMS apre­sen­ta­rá, em deter­mi­na­dos momen­tos, par­tes des­se acer­vo pre­ci­o­so.

Abaixo estão 20 fotos, sen­do 19 fei­tas no Brasil e uma, a de Kennedy, nos EUA, antes da mudan­ça de país. Servem como amos­tra da impor­tân­cia esté­ti­ca e docu­men­tal da pro­du­ção de Zingg, um nome deci­si­vo na his­tó­ria visu­al do país. O Instituto Moreira Salles come­ça a apre­sen­tar com mui­to orgu­lho esse mate­ri­al.

 

Pixinguinha e João da Bahiana, 1967, Rio de Janeiro

 

 

Ataulfo Alves, 1967, Rio de Janeiro

 

 

Gonzaguinha e Ivan Lins, 1970

 

 

Edu Lobo

 

 

Chico Buarque em um bar, entre as déca­das de 1960 e 1970 (Rio de Janeiro — RJ)

 

 

Jaguar

 

 

Elke Maravilha, 1975

 

 

John F. Kennedy, 1960 (Hyannis port — EUA)

 

 

Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Lima Jr„ Zelito Viana, Luiz Carlos Barreto, Glauber Rocha e Leon Hirszman, entre as déca­das de 1960e 1970

 

 

Guimarães Rosa no Itamaraty, na déca­da de 1960

 

 

Bairro da Penha, 1980 (Rio de Janeiro — RJ)

 

 

Rodoviária do Plano-Piloto, entre as déca­das de 1960 e 1970 (Brasília — DF)

 

 

Cardápio escri­to no vidro e refle­xo do fotó­gra­fo em segun­do pla­no, s/d

 

 

Vila Itororó, 1986 (São Paulo — SP)

 

 

Lambe-lam­be, 1960 (Brasília — DF)

 

 

Adesivos com slo­gan duran­te gover­no Médici, 1970

 

 

Palacete Pinto, 1979 (Belém — PA)

 

 

Ala das bai­a­nas da Estação Primeira de Mangueira, em 1978

 

 

Vista aérea da Cidade de São Paulo, com o edi­fí­cio Copan à esquer­da, entre déca­das de 1970 e 1980

 

 

Autorretrato, déca­da de 1980

 

Veja outras ima­gens de David Drew Zingg no acer­vo foto­grá­fi­co do IMS.

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