De 2001 a Gravidade, o universo encolheu

No cinema

01.11.13
Stanley Kubrick e equipe no set de 2001

Stanley Kubrick e equipe no set de 2001 [clique na imagem para ver em tamanho maior]

Na saí­da da glo­ri­o­sa ses­são de 2001, uma odis­seia no espa­ço na tela gran­de do CineSESC, duran­te a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, um cole­ga crí­ti­co brin­cou: “Não é nenhum Gravidade, mas…” A bou­ta­de me fez pen­sar no fil­me de Alfonso Cuarón à luz do clás­si­co de Kubrick, e vice-ver­sa.

Comecemos por Gravidade. O fil­me é, antes de tudo, um pro­dí­gio de tec­no­lo­gia, tal­vez nem tan­to pelo 3D, mas pela vir­tu­al abo­li­ção das refe­rên­ci­as de espa­ço habi­tu­ais (em cima, embai­xo, direi­ta, esquer­da). Cabeça para bai­xo, cabe­ça para cima, é tudo pra­ti­ca­men­te a mes­ma coi­sa, como nas sen­sa­ções mais malu­cas expe­ri­men­ta­das nos sonhos.

http://www.youtube.com/watch?v=nLtjGN2KMyA

Com essa qua­li­da­de de sor­ti­lé­gio e pres­ti­di­gi­ta­ção, pode­ria ser uma atra­ção de par­que de diver­sões — e não vai aqui nenhum demé­ri­to. Afinal, o que era o cine­ma em seus pri­mór­di­os senão um espe­tá­cu­lo de fei­ra?

Formato con­ven­ci­o­nal

Ocorre que, no atu­al está­gio da indús­tria cul­tu­ral e da orga­ni­za­ção glo­bal do entre­te­ni­men­to, esse espe­tá­cu­lo pre­ci­sa ser for­ma­ta­do segun­do deter­mi­na­dos parâ­me­tros, que inclu­em a dura­ção (uma hora e meia), a pre­sen­ça de astros de suces­so (Sandra Bullock e George Clooney), a cri­a­ção de um entre­cho anco­ra­do em cli­chês melo­dra­má­ti­cos (a heroí­na que per­deu a filhi­nha num aci­den­te), o herói cool que não per­de o bom humor nem à bei­ra da mor­te, a músi­ca redun­dan­te e enfa­ti­ca­men­te con­ven­ci­o­nal, o final feliz.

Claro que seria pos­sí­vel espe­cu­lar sobre um even­tu­al comen­tá­rio do fil­me acer­ca da geo­po­lí­ti­ca atu­al, pois não dei­xa de ser irô­ni­co que a pro­ta­go­nis­ta nor­te-ame­ri­ca­na se sir­va de equi­pa­men­tos rus­sos e chi­ne­ses para vol­tar para casa. Também se falou do per­cur­so da heroí­na pelos qua­tro ele­men­tos: ar, fogo, água e ter­ra, nes­ta ordem.

Mas tudo isso fica em segun­do pla­no dian­te da mon­ta­nha-rus­sa de sen­sa­ções (olha o cli­chê aí — essas coi­sas são con­ta­gi­o­sas) desen­ca­de­a­da pelo fil­me, com sua suces­são de sus­tos, trom­ba­das e rodo­pi­os.

Já em 2001, tudo foge à ideia de um for­ma­to con­ven­ci­o­nal pré-esta­be­le­ci­do, a come­çar por sua dura­ção: duas horas e qua­ren­ta minu­tos, com um inter­va­lo pre­en­chi­do por músi­ca para não per­der o “cli­ma”. Começa com vári­os minu­tos de tela pre­ta, sem ima­gem nem pala­vras, só com silên­cio e uma músi­ca (“Atmospheres”, de Ligeti) que pare­ce sur­gir aos pou­cos da caco­fo­nia, como a ordem a par­tir do caos, até que entram os acor­des bom­bás­ti­cos de “Also spra­ch Zarathustra”, de Richard Strauss, des­de então asso­ci­a­dos inde­le­vel­men­te ao fil­me. Estamos já no ter­re­no do gran­di­o­so.

Dimensão meta­fí­si­ca

A estru­tu­ra nar­ra­ti­va é insó­li­ta, sal­tan­do os milê­ni­os, alter­nan­do cenas de dra­ma­tur­gia natu­ra­lis­ta a lon­gos momen­tos sem diá­lo­gos, em que maca­cos con­tra­ce­nam com maca­cos, homens con­tra­ce­nam com máqui­nas ou máqui­nas con­tra­ce­nam com o cos­mo, cul­mi­nan­do em ima­gens pura­men­te abs­tra­tas. Há bura­cos, elip­ses, zonas de som­bra, enig­mas não resol­vi­dos, pon­tos sem nó.

http://www.youtube.com/watch?v=Ok32VyEQYYc

Há mara­vi­lha visu­al tam­bém em 2001 (o fil­me ganhou o Oscar de efei­tos espe­ci­ais), mas sua tec­no­lo­gia ain­da é, basi­ca­men­te, da ordem do arte­sa­nal, dos recur­sos mecâ­ni­cos e foto­grá­fi­cos pré-ele­trô­ni­cos ou rudi­men­tar­men­te ele­trô­ni­cos. Parece até irô­ni­co hoje que um de seus encan­tos, o com­pu­ta­dor inte­li­gen­te Hal 9000, tenha o tama­nho de um sótão, no qual o pro­ta­go­nis­ta huma­no (Keir Dullea) entra con­for­ta­vel­men­te.

Por mais que Kubrick fos­se fas­ci­na­do pela ciên­cia, em 2001 a tec­no­lo­gia não está pre­sen­te como mero feti­che ou espe­tá­cu­lo, mas é, ela pró­pria, obje­to de ques­ti­o­na­men­to, como pro­du­to huma­no que aspi­ra ao sobre-huma­no, à supe­ra­ção dos limi­tes. Toca-se, assim, no meta­fí­si­co, que para alguns tem o nome de sagra­do.

Os per­so­na­gens de Gravidade estão sol­tos na ionos­fe­ra. Os de 2001 estão sozi­nhos no infi­ni­to, per­di­dos na eter­ni­da­de. Se Gravidade ape­la aos sen­ti­dos do espec­ta­dor, 2001 ape­la ao espí­ri­to. Nisso resi­de sua pere­ne gran­de­za.

Para encer­rar, aqui vai o ápi­ce da sequên­cia da “auro­ra do homem”, uma das mais céle­bres e elo­quen­tes da his­tó­ria do cine­ma:

http://www.youtube.com/watch?v=U2iiPpcwfCA

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