De menor e a fábula de João e Maria

No cinema

05.09.14

Há em De menor um fres­cor que vem de vári­as fon­tes. A mais evi­den­te é o tema can­den­te e atu­a­lís­si­mo – o cal­vá­rio vici­o­so dos ado­les­cen­tes infra­to­res –, mas há outras: a juven­tu­de do elen­co prin­ci­pal e da pró­pria dire­to­ra Caru Alves de Souza, estre­an­te em lon­ga; as loca­ções pou­co usu­ais em Santos, com suas prai­as, fave­las e bair­ros de clas­se média; e por fim, mas não menos impor­tan­te, uma ela­bo­ra­ção audi­o­vi­su­al híbri­da, na fron­tei­ra entre o docu­men­tá­rio e a fic­ção, entre o dra­ma fami­li­ar e o pai­nel soci­al.

No cen­tro da tra­ma, dois irmãos: Helena (Rita Batata), advo­ga­da recém-for­ma­da, e Caio (Giovanni Gallo), ado­les­cen­te que fler­ta com a delinquên­cia. O fil­me os apre­sen­ta ini­ci­al­men­te como um par de jovens cúm­pli­ces, numa con­vi­vên­cia qua­se eró­ti­ca, como um casal de namo­ra­dos. Demora um pou­co para per­ce­ber­mos que se tra­ta de dois irmãos que fica­ram órfãos há pou­co tem­po.

Perdidos na sel­va urba­na

Dois meni­nos meio per­di­dos, como João e Maria, numa flo­res­ta ame­a­ça­do­ra, a cida­de fra­tu­ra­da pelas con­tra­di­ções soci­ais, cul­tu­rais, morais. É da fra­gi­li­da­de des­se par que o fil­me extrai a sua for­ça.

Helena pare­ce ima­tu­ra demais para enfren­tar o cipo­al de leis e arti­ma­nhas da Justiça, numa soci­e­da­de que empur­ra os meni­nos pobres para o desam­pa­ro e o cri­me. Também Caio pare­ce dema­si­a­do vul­ne­rá­vel aos ape­los do con­su­mo e à neces­si­da­de de auto­a­fir­ma­ção juve­nil que cos­tu­mam levar a ata­lhos peri­go­sos. Nesse con­tex­to, sua irmã assu­me pre­co­ce­men­te o papel de mãe pro­te­to­ra.

Os arau­tos intran­si­gen­tes da veros­si­mi­lhan­ça podem obje­tar que a atriz Rita Batata não con­ven­ce como defen­so­ra públi­ca atu­an­te, por ser pou­co mais que uma meni­na. Mas é jus­ta­men­te essa apa­ren­te incon­gruên­cia que real­ça duas idei­as for­tes. Primeiro, a de que só uma garo­ta em iní­cio de car­rei­ra pode­ria ter a pure­za de inten­ções e a dis­po­ni­bi­li­da­de de ener­gia neces­sá­ri­as para entre­gar-se de cor­po e alma à cau­sa de seus pive­tes. Segundo, a de que seu empe­nho é uma luta qui­xo­tes­ca con­tra um mun­do bru­to, imper­meá­vel ao afe­to.

Drama indi­vi­du­al e tra­gé­dia cole­ti­va

A arti­cu­la­ção entre o dra­ma ínti­mo dos dois pro­ta­go­nis­tas com o qua­dro soci­al mais amplo é o gran­de trun­fo do fil­me. Seu recur­so visu­al mais efi­caz é a câme­ra na mão que pers­cru­ta em lon­gos pla­nos con­tí­nu­os um espa­ço cheio de sig­ni­fi­ca­dos. Dois exem­plos: o lon­go pla­no sem cor­tes que acom­pa­nha a che­ga­da de Helena à sua casa e a explo­ra­ção de vári­os apo­sen­tos; o per­cur­so da pro­ta­go­nis­ta por um labi­rin­to de casas, bar­ra­cos, lajes e puxa­di­nhos numa fave­la pau­lis­ta­na, à pro­cu­ra da mãe de um menor infra­tor.

No pri­mei­ro caso, há um mer­gu­lho na vida ínti­ma da per­so­na­gem; no segun­do, a des­ci­da ao for­mi­guei­ro huma­no de onde bro­tam seus peque­nos cli­en­tes. O dra­ma indi­vi­du­al e a tra­gé­dia cole­ti­va, ambos inves­ti­ga­dos com o mes­mo inte­res­se e a mes­ma hones­ti­da­de do olhar.

Mas há tam­bém uma sutil orques­tra­ção dos olha­res nas audi­ên­ci­as no tri­bu­nal: advo­ga­da, pro­mo­tor, juiz, acu­sa­do e víti­ma, cada um com seus medos e dese­jos, seus fan­tas­mas e demô­ni­os. A câme­ra de Jacob Solitrenick (e a mon­ta­gem de Willem Dias) dá a cada um o mes­mo espa­ço, a mes­ma espes­su­ra, a mes­ma dig­ni­da­de. Nada a ver, aqui, com o sim­plis­mo mani­queís­ta dos fil­mes ame­ri­ca­nos de tri­bu­nal.

Cabe des­ta­car, por fim, a óti­ma tri­lha sono­ra de Tatá Aeroplano, alter­nan­do pul­sa­ção e liris­mo, e a coe­são do elen­co, que vai de ato­res tarim­ba­dos como Caco Ciocler (no papel de um juiz de meno­res) a meni­nos que pare­cem saí­dos da Febem, ou melhor, da Fundação Casa, que, como o fil­me dei­xa cla­ro, é um eufe­mis­mo para peni­ten­ciá­ria de cri­an­ças e ado­les­cen­tes.

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