De Woody Allen a Francisgleydisson

No cinema

21.11.13

Blue Jasmine cer­ta­men­te não é o melhor Woody Allen. Mas está lon­ge de ser o pior. Na his­tó­ria das duas irmãs de tra­je­tó­ri­as con­tras­tan­tes o dire­tor reci­cla algu­mas de suas idei­as sobre a moral con­ti­da nas rela­ções soci­ais, situ­an­do-as no con­tex­to mui­to con­tem­po­râ­neo do capi­ta­lis­mo finan­cei­ro glo­bal. Para isso, inter­rom­peu sua tur­nê turís­ti­co-cine­ma­to­grá­fi­ca euro­peia e vol­tou à matriz.

A soci­a­li­te Jasmine (Cate Blanchett) per­de o dinhei­ro, mas não a pose, quan­do o mari­do rica­ço (Alec Baldwin) é pre­so por con­ta de tene­bro­sas fal­ca­tru­as com o dinhei­ro alheio. Com uma mala Vuitton na fren­te e outra atrás, via­ja de Nova York a San Francisco para se ins­ta­lar na casa da irmã pobre­to­na Ginger (Sally Hawkins), que tem dois filhos e um namo­ra­do tos­co e fol­ga­zão (Bobby Cannavale).

http://www.youtube.com/watch?v=H-WSLM6D2ME

Instaura-se assim, como já se obser­vou, uma situ­a­ção cômi­co-dra­má­ti­ca aná­lo­ga à da peça Um bon­de cha­ma­do dese­jo, de Tennessee Williams, leva­da às telas por Elia Kazan em 1951. Até aí, nada de mais. Woody Allen sem­pre viu a tra­di­ção lite­rá­ria, tea­tral e cine­ma­to­grá­fi­ca como um patrimô­nio a ser explo­ra­do livre­men­te. Tolstói, Tchekhov, Bergman e Fellini já foram devi­da­men­te saque­a­dos por ele, com resul­ta­dos vari­a­dos.

Da sáti­ra à tra­gé­dia

Aqui, um cer­to esque­ma­tis­mo no con­tras­te entre a high soci­ety de Manhattan e o ambi­en­te pro­le­tá­rio-alter­na­ti­vo de San Francisco, bem como entre a chi­que Jasmine e a bre­ga Ginger, é essen­ci­al para a cons­ti­tui­ção de um cer­to tom de pará­bo­la: sobre as revi­ra­vol­tas irô­ni­cas do des­ti­no, cla­ro, mas tam­bém sobre o cará­ter incon­sis­ten­te e volá­til da rique­za na soci­e­da­de atu­al, em que pare­ce­mos viver den­tro de uma bolha espe­cu­la­ti­va: o pode­ro­so mili­o­ná­rio de hoje pode ser o fali­do e humi­lha­do de ama­nhã.

Além do mais, ao brin­car com os este­reó­ti­pos, Allen aca­ba por mati­zá-los, reve­lan­do des­vãos insus­pei­ta­dos tan­to na irmã ex-rica como na eter­na­men­te pobre. Alguém dis­se que “o fil­me é Cate Blanchett”. Talvez seja exa­ge­ro. Mas o fato é que o que ele­va Blue Jasmine da sáti­ra ligei­ra à tra­gé­dia é a per­so­na­gem Jasmine, com sua fra­gi­li­da­de e sua fúria de prin­ce­sa des­tro­na­da, no limi­ar da lou­cu­ra. É um mag­ní­fi­co tra­ba­lho con­jun­to de rotei­ro, dire­ção e atu­a­ção.

Cine Holliúdy e o cine­ma popu­lar

Informações pre­li­mi­na­res indi­cam que, depois de se tor­nar um fenô­me­no de públi­co no Nordeste, Cine Holliúdy, de Halder Gomes, tam­bém está se sain­do bem, embo­ra sem o mes­mo ímpe­to, nas bilhe­te­ri­as do Sudeste.

O caso mere­ce estu­do e refle­xão. Assumidamente pri­mi­ti­vo e vis­ce­ral­men­te popu­lar, o lon­ga cea­ren­se vem na con­tra­mão do cine­mão padrão Globo que impe­ra no nos­so cir­cui­to exi­bi­dor vici­a­do e eli­ti­za­do.

Para quem não sabe, tra­ta-se da his­tó­ria de um empre­en­de­dor qui­xo­tes­co (Edmilson Filho) que ten­ta cri­ar e man­ter vivo um cine­ma numa cida­de­zi­nha do Nordeste na déca­da de 1970, momen­to em que a tele­vi­são está des­ban­can­do o cine­ma como prin­ci­pal entre­te­ni­men­to popu­lar. Só a sinop­se já faz pen­sar em uma mis­tu­ra de Cinema Paradiso com Bye bye Brasil.

http://www.youtube.com/watch?v=7allekyiCY8

O humor do fil­me vem um tan­to da autoi­ro­nia em face de suas pre­ca­ri­e­da­des e outro tan­to da exa­cer­ba­ção de tra­ços regi­o­nais, a pon­to de os per­so­na­gens fala­rem uma lin­gua­gem tão pecu­li­ar que supos­ta­men­te exi­ge legen­das em por­tu­guês.

É uma cele­bra­ção do cine­ma de matiz popu­lar, que a hege­mo­nia das tele­no­ve­las e a eli­ti­za­ção do cir­cui­to exi­bi­dor (com o fim dos cine­mas do inte­ri­or e das salas “de rua” das gran­des cida­des) vie­ram liqui­dar: as chan­cha­das, Mazzaroppi, faro­es­te espa­gue­te etc., ain­da que os fil­mes que Francisgleydisson exi­be, dubla e remon­ta em seu arre­me­do de Cine Paradiso sejam pre­do­mi­nan­te­men­te de kung fu, outro gêne­ro popu­la­rís­si­mo.

Ou seja, uma exal­ta­ção de todas aque­las pro­du­ções exe­cra­das como “mal­fei­tas” ou de “mau gos­to” pelo cida­dão colo­ni­za­do de clas­se média que pre­do­mi­na hoje nos mul­ti­ple­xes de nos­sas metró­po­les.

Como, então, Cine Holliúdy está con­quis­tan­do esse públi­co tão defor­ma­do pelas tele­no­ve­las, pelas sit­coms e pelos block­bus­ters ame­ri­ca­nos ou glo­bais?

Desmontando resis­tên­ci­as

Tenho duas hipó­te­ses que se com­ple­men­tam. Primeira: o argu­to lan­ça­men­to de Cine Holliúdy, ini­ci­al­men­te no Ceará, em segui­da no res­tan­te do Nordeste, ape­lan­do cla­ra­men­te para o orgu­lho regi­o­nal, cri­ou um fenô­me­no de públi­co e de mídia espon­tâ­nea que pre­ce­deu sua che­ga­da ao Sudeste, cri­an­do o “peque­no mila­gre” que, segun­do o crí­ti­co Pedro Butcher, é neces­sá­rio hoje para levar um cida­dão a sair de casa para ver um fil­me bra­si­lei­ro que não seja da Globo Filmes.

Segunda hipó­te­se: a auto­go­za­ção do fil­me, cari­ca­tu­ran­do tra­ços nor­des­ti­nos dos quais os pau­lis­tas e cari­o­cas ado­ram zom­bar (não é por aca­so que o pro­ta­go­nis­ta se cha­ma Francisgleydisson), cria uma comu­ni­ca­ção fácil com as pla­tei­as des­sas pra­ças. É como se Cine Holliúdy ino­cu­las­se no espec­ta­dor do Sudeste o antí­do­to con­tra o seu pre­con­cei­to, des­mon­tan­do resis­tên­ci­as.

Tudo isso seria inú­til se o fil­me não fos­se, de fato, engra­ça­do, se não con­ti­ves­se pia­das inven­ti­vas e bons come­di­an­tes — e pare­ce que no Ceará eles pro­li­fe­ram como na Itália e em outros luga­res pri­vi­le­gi­a­dos do mun­do. Irregular e pre­cá­rio, Cine Holliúdy sabe fazer dis­so uma van­ta­gem, uma fon­te de ins­pi­ra­ção, humor e fes­ta. O cine­ma ain­da pode ser, con­tra todas as expec­ta­ti­vas, uma diver­são popu­lar.

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