DeLillo e a qualidade narrativa do dinheiro

Literatura

05.09.12

Não é difí­cil ima­gi­nar o que levou David Cronenberg a adap­tar o roman­ce Cosmópolis (2003), de Don DeLillo. Talvez o cine­as­ta cana­den­se tenha se iden­ti­fi­ca­do com o tom hiper­bó­li­co da nar­ra­ti­va e com a sua recu­sa em inves­tir numa leva­da rea­lis­ta para dar con­ta de um mun­do anco­ra­do qua­se que exclu­si­va­men­te na vir­tu­a­li­da­de ? o sis­te­ma finan­cei­ro glo­bal, que está ao mes­mo tem­po em todo lugar e em lugar algum. É um mun­do no qual “os seres huma­nos e os com­pu­ta­do­res se fun­dem” e as pes­so­as dei­xam de mor­rer para ser “absor­vi­das em flu­xos de infor­ma­ções”. Esse tipo de coi­sa deve ter soa­do como músi­ca para o dire­tor de eXis­tenZ (1999).

O fil­me, estre­la­do por Robert Pattinson, che­ga às telas bra­si­lei­ras por esses dias, res­sig­ni­fi­can­do, à luz tre­vo­sa dos even­tos de 2008 e da cri­se econô­mi­ca que gras­sa des­de então (e não dá sinais de arre­fe­cer), um livro que, ao ser lan­ça­do em 2003, foi tido por mui­tos como exa­ge­ra­do, absur­do e até mes­mo iden­ti­fi­ca­do com algu­ma subes­pé­cie de “rea­lis­mo fan­tás­ti­co”. É ver­da­de que Cosmópolis está dis­tan­te da exce­lên­cia de Ruído Branco (1985) ou da monu­men­ta­li­da­de de Submundo (1997), as obras mais fes­te­ja­das do autor, mas mere­ce ser lido ou reli­do, den­tre outros moti­vos, por­que pare­ce ter mais a nos dizer hoje do que há nove anos. Como se sabe, a que­bra­dei­ra em cur­so trans­for­mou o estou­ro da bolha pon­to-com numa maro­li­nha.

O pro­ta­go­nis­ta, Eric Packer, é um bili­o­ná­rio de vin­te e oito anos, espe­cu­la­dor maiús­cu­lo que cru­za Nova York em uma limu­si­ne num dia em abril de 2000 para cor­tar o cabe­lo. Não é um dia qual­quer: a cida­de está em pol­vo­ro­sa com a visi­ta do pre­si­den­te, o fune­ral de um rap­per, um pro­tes­to anti­glo­ba­li­za­ção (ou coi­sa que o valha) e, aci­ma de tudo, com um pâni­co finan­cei­ro galo­pan­te que, logo vere­mos, é cau­sa­do pela tei­mo­sia (sui­ci­da?) de Packer em espe­cu­lar com a moe­da japo­ne­sa. Em seu tra­je­to, e mui­tas vezes sem dei­xar a limu­si­ne, ele faz uma con­sul­ta médi­ca roti­nei­ra (ou nem tan­to), encon­tra-se com a espo­sa, com asses­so­res, é infor­ma­do de uma pos­sí­vel ame­a­ça à sua vida e, aos pou­cos, ausen­ta-se da his­te­ria cir­cun­dan­te ao mes­mo tem­po em que a incre­men­ta. Ele vê o mun­do em que vive e sabe que não esca­pa­rá dele. Logo, só pode­ria mes­mo ten­tar des­truí-lo.

Nesse per­cur­so, DeLillo bus­ca res­ga­tar o que uma per­so­na­gem cha­ma de “qua­li­da­de nar­ra­ti­va do dinhei­ro”, per­di­da numa épo­ca em que “a rique­za virou seu pró­prio obje­to”. O dinhei­ro não tem mais his­tó­ria, vem de lugar algum e vai para lugar algum. Sua “qua­li­da­de nar­ra­ti­va” desa­pa­re­ceu em fun­ção da ine­xo­rá­vel ima­te­ri­a­li­da­de do sis­te­ma finan­cei­ro, que domi­na tudo e em rela­ção ao qual não há “lado de fora”. Como dei­xar de “espe­cu­lar no vazio” e recu­pe­rar aque­la mate­ri­a­li­da­de?

A prin­cí­pio, mes­mo o pra­zer sexu­al está ali­cer­ça­do em um “pac­to de into­ca­bi­li­da­de”: Packer e sua geren­te finan­cei­ra gozam sem se tocar, enquan­to ele pas­sa por um ani­ma­do exa­me de toque retal. Elementos cor­pó­re­os como suor, esper­ma e san­gue come­çam a apa­re­cer com insis­tên­cia no decor­rer do livro, e os con­ta­tos físi­cos vão aumen­tan­do até cul­mi­nar na “exten­são lógi­ca dos negó­ci­os”, isto é, no assas­si­na­to. A vio­lên­cia está pre­sen­te des­de o come­ço, mas não a huma­ni­da­de que lhe é ou deve­ria ser ine­ren­te. A huma­ni­da­de é, diga­mos, reen­gen­dra­da por meio da expres­são mais pri­mi­ti­va ou pro­pri­a­men­te físi­ca da vio­lên­cia. Óbvio que DeLillo não ela­bo­ra um elo­gio da vio­lên­cia, qual­quer que seja, mas ela é intrín­se­ca ao per­so­na­gem, des­de a sua for­ma mais impes­so­al e “civi­li­za­da”, no dis­tan­ci­a­men­to dele em rela­ção ao mun­do e às outras pes­so­as, até os emba­tes físi­cos, de natu­re­za sexu­al ou não, aos quais ele pas­sa a se entre­gar. Despersonalizado, Packer só recu­pe­ra algo de si a par­tir do momen­to em que é con­fron­ta­do por alguém dis­pos­to a matá-lo: “(…) Mas era a ame­a­ça da mor­te ao cair da noi­te que lhe fala­va de modo mais deci­si­vo sobre algum prin­cí­pio do des­ti­no que ele sem­pre sou­be­ra que um dia have­ria de se escla­re­cer”. É só a par­tir dis­so que ele pode “dar iní­cio à ati­vi­da­de de viver”.

A recu­pe­ra­ção da “qua­li­da­de nar­ra­ti­va do dinhei­ro” está, por­tan­to, liga­da à pos­si­bi­li­da­de de res­ga­tar o cor­po e suas deman­das: comer, tran­sar, san­grar, mor­rer. É a vida nutri­ti­va de que nos fala Aristóteles no De Anima ao dis­tin­guir os seres ani­ma­dos dos ina­ni­ma­dos. Packer é (re)animado à medi­da em que come, tran­sa, san­gra, ou seja, quan­do vol­ta a se per­ce­ber lan­ça­do para a mor­te. Roubando o títu­lo de um roman­ce pos­te­ri­or de DeLillo, ele se redes­co­bre vivo jus­ta­men­te ao tomar cons­ci­ên­cia, reas­su­mir e acen­tu­ar sua posi­ção de homem em que­da.

No fim das con­tas, Cosmópolis é um roman­ce nar­ra­do não do pon­to de vis­ta do espe­cu­la­dor, daque­les que o cer­cam ou de quem dese­ja ir à for­ra con­tra ele, mas pelo pró­prio dinhei­ro que Packer, em seu ímpe­to auto­des­tru­ti­vo (e por isso mes­mo cri­a­dor, pos­to que a “von­ta­de de des­truir é um impul­so cri­a­ti­vo”), tra­ta de espa­lhar de “modo metó­di­co pelas fuma­ças dos mer­ca­dos des­tro­ça­dos”. O homem é vis­to pela enti­da­de que, vir­tu­a­li­za­da ao extre­mo, tra­ta de pul­ve­ri­zar enquan­to pas­seia pela cida­de. Packer desu­ma­ni­zou o dinhei­ro. O dinhei­ro, então, numa rea­ção de for­ça igual e em sen­ti­do con­trá­rio, re-huma­ni­za Packer. Temos, em suma, uma his­tó­ria con­ta­da do pon­to de vis­ta do ina­ni­ma­do. O que pode ser mais con­tem­po­râ­neo do que isso?

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