Despachando minha biblioteca

Miscelânea

26.03.13

Numa mes­ma sema­na, resol­vi esva­zi­ar estan­tes e encher o Kindle. Não foi pre­me­di­ta­do, mas na medi­da em que desen­tu­lha­va pra­te­lei­ras e chão, mui­to chão, fui ali­men­tan­do a maqui­ni­nha como se ela fos­se um tama­got­chi famin­to. Não me pas­sa pela cabe­ça uma casa sem livros, mas é cada vez mais sedu­to­ra a ideia de uma casa com menos livros de papel e mais daque­les outros, que não viram play­ground de áca­ros e não ocu­pam espa­ço.

É difí­cil acre­di­tar, como os cyber­cre­ti­nos, que o hori­zon­te vir­tu­al seja o ter­cei­ro segre­do de Fátima do mun­do edi­to­ri­al. Tão ruim ou pior só mes­mo o sau­do­sis­mo feti­chis­ta do papel, a con­ver­sa mole sobre a “magia” dos livros e o fas­cí­nio até pelo seu chei­ro. É jus­ta­men­te por­que gos­to dema­si­a­do de livros que, se con­se­guir, que­ro ficar com os que con­si­de­ro real­men­te essen­ci­ais, por um moti­vo ou outro.

Entre a poei­ra­ma e a ascé­ti­ca lis­ta de títu­los arma­ze­na­dos no Kindle, me des­co­bri uma espé­cie de biblió­fi­lo de ara­que, já que nun­ca me impor­tou uma pri­mei­ra edi­ção ou um exem­plar auto­gra­fa­do por quem quer que seja. O que me faz esto­car flo­res­tas e mais flo­res­tas der­ru­ba­das e pro­ces­sa­das é a pre­ten­são bes­ta de que um dia aque­le volu­me com­pra­do em 1985 e jamais lido pode­ria ser útil e essen­ci­al — hipó­te­se difí­cil de jus­ti­fi­car quan­do mui­tas vezes não tenho a menor sus­pei­ta de por­que dia­bos este calha­ma­ço ou aque­le folhe­to foram parar ali.

Há quem sus­ten­te que livros, como coe­lhos, repro­du­zem-se rápi­do. Mas dife­ren­te­men­te dos lepo­rí­de­os, afa­ma­dos por serem bre­ves porém ani­ma­dos, os livros são movi­dos pela nos­sa libi­do. Pois não é de outro lugar senão de nos­so errá­ti­co dese­jo, do súbi­to inte­res­se por temas e auto­res, que eles nas­cem e vão che­gan­do em casa, ins­ta­lan­do-se em mesa de cabe­cei­ra, chão, cozi­nha e até em estan­tes. Se Montaigne que era Montaigne tinha pou­co mais de mil livros, por­que eu, que não escre­vi nada per­to de uma ano­ta­ção à mar­gem dos Ensaios, have­ria de ter o quín­tu­plo dis­so?

A pas­si­o­nal rela­ção entre homens e livros é qua­se um sub­gê­ne­ro lite­rá­rio, que tem como peque­na obra-pri­ma “Desempacotando minha bibli­o­te­ca”. Neste ensaio de 1931, Walter Benjamin con­tem­pla seus livros desor­ga­ni­za­dos em mais uma para­da de sua vida erran­te, logo depois da sepa­ra­ção defi­ni­ti­va da mulher, Dora. Em cada volu­me, uma cida­de em que viveu, um momen­to de sua aci­den­ta­da bio­gra­fia.

Reflexão sobre a fun­ção do cole­ci­o­na­dor, per­so­na­gem tão pre­sen­te em seus escri­tos, o ensaio faz a dife­ren­ça fun­da­men­tal entre livro e exem­plar: o pri­mei­ro é a obra, imu­tá­vel; o segun­do, o que a faz via­jar e, nes­sa via­gem, vai car­re­gan­do-a de sen­ti­dos par­ti­cu­la­rís­si­mos. Condenado à “ten­são dia­lé­ti­ca entre os polos da ordem e da desor­dem”, o cole­ci­o­na­dor esta­be­le­ce “uma rela­ção com as coi­sas que não põe em des­ta­que seu valor fun­ci­o­nal ou uti­li­tá­rio, a sua ser­ven­tia, mas que as estu­da e as ama como o pal­co, o cená­rio de seu des­ti­no”.

Mais de qua­ren­ta anos depois, o obses­si­vo Georges Perec pena­va para con­se­guir arru­mar sua cole­ção. “Toda bibli­o­te­ca aten­de a uma dupla neces­si­da­de que fre­quen­te­men­te é uma dupla mania: a de con­ser­var deter­mi­na­das coi­sas (os livros) e a de orga­ni­zá-las de acor­do com cer­tas for­mas”, escre­veu em “Breves notas sobre a arte e a for­ma de orga­ni­zar seus livros”. No ensai­nho, que faz par­te do livro Penser/Classer, o autor de A vida modo de usar defen­de a “desor­dem sim­pá­ti­ca” sobre uma ordem que se pre­ten­da uni­ver­sal e a ideia de bibli­o­te­ca como “um con­jun­to de livros cons­ti­tuí­do por um lei­tor não-pro­fis­si­o­nal para seu pra­zer e uso coti­di­a­nos”.

Na últi­ma edi­ção da ser­ro­ti­nha, lan­ça­da na Flip de 2012, Rodrigo Fresán com­pa­ra­va a mudan­ça de casa a um trau­ma tão ter­rí­vel quan­to a mor­te de um ser que­ri­do ou um divór­cio — só que ten­do as cai­xas reple­tas de livros para pio­rar tudo. “A vida encai­xo­ta­da”, títu­lo que dei ao diá­rio do escri­tor argen­ti­no, tinha mui­to do meu trau­ma de uma mudan­ça então recen­te, quan­do um dos car­re­ga­do­res, exas­pe­ra­dos, res­mun­gou para si mes­mo (mas alto o sufi­ci­en­te para ter cer­te­za que eu ouvi­ria): “É isso aí, quem sabe lê. Quem não sabe car­re­ga”.

Ao lon­go de seu diá­rio, Fresán com­pra mais e mais livros, alguns repe­ti­dos pelo sim­ples gos­to de uma nova edi­ção, o que, con­fes­so, tor­nou sua relei­tu­ra nes­te momen­to par­ti­cu­lar­men­te per­ni­ci­o­sa para o pro­ces­so de desin­to­xi­ca­ção a que ten­to me sub­me­ter.

Prefiro, por­tan­to, me ins­pi­rar em Joseph Epstein, que numa refor­ma de casa impôs sua bibli­o­te­ca a um expur­go dra­co­ni­a­no — redu­zi-la de dois mil para cer­ca de qua­tro­cen­tos volu­mes — rela­ta­do no ensaio pes­so­al “Livros não mobi­li­a­ri­am um cômo­do”. Epstein diver­te-se, na ver­da­de, de fazer com os livros, con­cre­ta­men­te, o que faz com auto­res ao lon­go de sua car­rei­ra: rei­te­rar suas devo­ções mais fer­vo­ro­sas — Proust, Henry James, Max Beerbohm, Edward Gibbon e George Santayana, caben­do todos em uma pra­te­lei­ra — e, com o mes­mo fer­vor, des­truir una­ni­mi­da­des, ou melhor, expul­sar de casa livros dos quais mui­ta gen­te só abri­ria mão com difi­cul­da­de.

Bernard Shaw, por exem­plo, foi pos­to no olho da rua. De tea­tro, res­ta­ram as peças “dos três caras de Atenas” e as do “cama­ra­da cal­vo e de tes­ta alta daque­la cida­de­zi­nha à bei­ra do rio na Inglaterra”. Epstein diz não ter sen­ti­do a “míni­ma fibri­la­ção” quan­do man­dou pas­se­ar Walter Benjamin e Robert Musil. Assim como ao des­pa­char Isaiah Berlin. Lamenta, inclu­si­ve, não ter em casa os teó­ri­cos fran­ce­ses da lite­ra­tu­ra e, por isso, ser pri­va­do do pra­zer de jogá-los fora.

Mas eis que relen­do o ensaio de Epstein, cheio de cora­gem e deci­são, des­co­bri que ele deci­diu reter uma bio­gra­fia de Montaigne por Donald Frame. Um clás­si­co. Que eu não conhe­cia. E que não exis­te em digi­tal. Foi só uma con­sul­ta à Amazon. A um sebo inglês. Que já botou no cor­reio o livro. Mas até ele cru­zar o Atlântico, tenho o fir­me com­pro­mis­so de doar mais uns dez livros. Ou qua­tro.

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