Deus não sabe rir de si

Colunistas

11.11.15

Vim a Portugal falar de João César Monteiro (1939–2003). O dire­tor será home­na­ge­a­do no Festival de Cinema de Lisboa e Estoril. Passei o últi­mo mês reven­do seus fil­mes. Há coi­sas incrí­veis neles, tra­ta­das com um humor que, de tão inte­li­gen­te, faz rir de feli­ci­da­de. Me pedi­ram que esco­lhes­se um de seus fil­mes para comen­tar depois da pro­je­ção. E aos pou­cos, Branca de Neve (2000), o polê­mi­co “fil­me cego”, adap­ta­ção pra­ti­ca­men­te sem ima­gens do tex­to homô­ni­mo de Robert Walser, foi se impon­do como um bura­co negro que ao mes­mo tem­po engo­le e expli­ca tudo.

Cena de Branca de Neve (2000), de João César Monteiro

Branca de Neve ser­ve de coda para a obra de João César Monteiro. Em uma entre­vis­ta incluí­da entre os extras de sua obra reu­ni­da em DVDs, o dire­tor jus­ti­fi­ca a esco­lha do tex­to pela admi­ra­ção que sen­tia pelo autor suí­ço. E quan­do lhe pedem para defi­nir o fil­me (que nar­ra a his­tó­ria de Branca de Neve a par­tir do momen­to onde o con­to de fadas ter­mi­na), o cine­as­ta diz que é sobre “o fra­cas­so do ser indi­vi­du­al con­tra o ser soci­al”.

A fra­se não expli­ca mui­ta coi­sa. Ou melhor, ela mais con­fun­de e escon­de. Branca de Neve real­men­te acor­da para con­fron­tar a madras­ta com o cri­me do qual foi víti­ma (isso já acon­te­cia no con­to), mas aqui, ao con­trá­rio do con­to, ela ter­mi­na sen­do obri­ga­da a se resig­nar à ver­são (em prin­cí­pio, hipó­cri­ta) que a Rainha lhe apre­sen­ta como con­di­ção para que todos vol­tem à paz do con­ví­vio soci­al.

Na entre­vis­ta, João Cesar Monteiro com­pa­ra Branca de Neve a Susana, a per­so­na­gem de Buñuel, que sai da cadeia para infli­gir seu poder de per­ver­são à ordem fami­li­ar bur­gue­sa. A Branca de Neve do tex­to de Walser é de fato uma per­so­na­gem per­ver­sa. Mas as con­sequên­ci­as des­sa per­ver­são vão mui­to além da sub­ver­são da ordem bur­gue­sa – e tal­vez até lhe sejam de algum auxí­lio.

João César Monteiro deci­diu fil­mar o tex­to de Walser logo depois de com­ple­tar sua obra-pri­ma, a tri­lo­gia de João de Deus, per­so­na­gem encar­na­do pelo pró­prio cine­as­ta como uma cari­ca­tu­ra do per­ver­so (cole­ci­o­na pelos pubi­a­nos femi­ni­nos em um “livro de pen­sa­men­tos”, ao mes­mo tem­po que se pre­o­cu­pa obce­ca­da­men­te com a higi­e­ne das empre­ga­das da sor­ve­te­ria que diri­ge; pro­põe banhos de lei­te à jovem dia­ris­ta que vem tra­ba­lhar em sua casa etc.) . Branca de Neve é o arre­ma­te que fal­ta­va à tri­lo­gia (for­ma­da por Recordações da Casa Amarela, de 1989; A Comédia de Deus, de 1995, e As Bodas de Deus, de 1998) para fazer com­pre­en­der de uma vez por todas, e por opo­si­ção, quem é João de Deus.

Pode ser que a um por­tu­guês a obses­são de João César Monteiro por Deus pare­ça nor­mal. A um estran­gei­ro, entre­tan­to, essa obses­são ganha ime­di­a­ta­men­te um cará­ter extra­or­di­ná­rio. O cine­as­ta cri­ou para si um alter ego que é a cari­ca­tu­ra do per­ver­so e que se cha­ma João de Deus. A pia­da aí é dupla. Quem é o per­ver­so, se tomar­mos como mode­lo máxi­mo o Marquês de Sade, a quem o dire­tor agra­de­ce em algum de seus fil­mes, tal­vez no pró­prio Branca de Neve?

O per­ver­so quer pôr sua lei no lugar da lei de Deus. Compete com Deus, por­que reco­nhe­ce que há um pro­ble­ma bási­co, uma hipo­cri­sia, na lei que os homens atri­bu­em a Deus. Se Deus cri­ou os ins­tin­tos, se os ins­tin­tos são natu­rais como todas as cri­a­ções divi­nas e se os ins­tin­tos con­tra­di­zem o que a lei de Deus nos pro­põe, é por­que essa lei é fal­sa. A lei que o per­ver­so pro­põe no lugar da lei de Deus é a lei dos ins­tin­tos, que é a úni­ca coi­sa na qual se pode con­fi­ar como sen­do real­men­te divi­na e ver­da­dei­ra, já que os pre­cei­tos divi­nos foram redi­gi­dos pelos homens e os ins­tin­tos foram cri­a­dos por Deus.

O que o per­ver­so está dizen­do é que ele está mais pró­xi­mo de Deus do que dos homens, a ver­da­de está com ele, pois só obe­de­ce aos seus ins­tin­tos. Acontece que, como na lei de Deus, tam­bém há uma con­tra­di­ção de base na lei dos ins­tin­tos e é essa con­tra­di­ção que a obra de Sade escan­ca­ra, de modo a tor­nar-se trá­gi­ca: se o meu ins­tin­to diz que devo seguir meu pra­zer para além de todos os limi­tes, até o assas­si­na­to, por exem­plo, tam­bém tenho que pres­su­por que os outros ao meu redor, seguin­do seus pró­pri­os ins­tin­tos, tam­bém pode­rão me matar por pra­zer.

Ou seja, se for para seguir ape­nas os ins­tin­tos, tenho que pres­su­por que pos­so ser assas­si­na­do a qual­quer ins­tan­te pelo pra­zer do outro, o que dimi­nui bas­tan­te as minhas chan­ces de frui­ção do meu pró­prio pra­zer assas­si­no. Como resol­ver essa ques­tão? Eliminando o outro. Ou seja, no mun­do do meu pra­zer e da minha lei, o outro não exis­te pro­pri­a­men­te em pé de igual­da­de comi­go; o outro tem de ser redu­zi­do a obje­to do meu dese­jo e do meu gozo. O real pas­sa a ser então uma fan­ta­sia que o per­ver­so põe no lugar da fan­ta­sia de Deus. A fan­ta­sia de Deus é pas­sar-se pelo real (a lei de Deus quer con­fun­dir Deus com o real, quer dar uma ordem ao real). O per­ver­so se colo­ca no lugar de Deus, pon­do uma fan­ta­sia no lugar da outra.

A Branca de Neve de Walser é uma per­ver­sa nar­ci­sis­ta. Portugal nun­ca foi uma ter­ra fér­til para a psi­ca­ná­li­se (tal­vez pela pró­pria pre­sen­ça de Deus na vida coti­di­a­na e soci­al), mas é difí­cil negar a influên­cia de Freud, ain­da que seja implí­ci­ta, na obra de quem escre­via em ale­mão no iní­cio do sécu­lo vin­te. Branca de Neve apa­re­ce em 1901, mes­mo ano em que Freud publi­ca A Psicopatologia da Vida Cotidiana, depois de A Interpretação dos Sonhos no ano ante­ri­or.

No tex­to de Walser, Branca de Neve se irri­ta com o prín­ci­pe que a tirou do sono eter­no onde sua bele­za esta­va expos­ta, num cai­xão de vidro, ao encan­to de todos os que a vis­sem e a trou­xe de vol­ta a esse mun­do impu­ro, de con­tra­di­ções e ódi­os, para con­fron­tar o ciú­me da Rainha e a volu­bi­li­da­de dos sen­ti­men­tos e dos dese­jos (o pró­prio prín­ci­pe a cada hora está inte­res­sa­do em uma mulher dife­ren­te, osci­lan­do entre Branca de Neve e a Rainha).

O cineasta português João César Monteiro (1939–2003)

Quando Branca de Neve joga na cara da Rainha que entre os anões não havia ódio, a Rainha lhe res­pon­de sabi­a­men­te: “Onde não há ódio, tam­pou­co pode haver amor”, o que des­mon­ta a fan­ta­sia nar­ci­sis­ta da pro­ta­go­nis­ta. O que a Rainha lhe pro­põe não é adap­tar-se às nor­mas hipó­cri­tas do con­ví­vio soci­al, como pode pare­cer à pri­mei­ra vis­ta, mas sair de sua fan­ta­sia nar­ci­sis­ta (do mun­do dos anões e do sono eter­no no cai­xão de vidro) e enca­rar as con­tra­di­ções, as ambi­gui­da­des e os ris­cos do real, enca­rar o outro.

O per­ver­so não vê o outro. A Rainha, ao con­trá­rio, quan­do olha no espe­lho, em bus­ca da con­fir­ma­ção de sua bele­za, vê a bele­za da outra, toma cons­ci­ên­cia de que a bele­za de Branca de Neve é mai­or do que a sua. Ela vê o real no espe­lho. E quan­do Branca de Neve vem lhe jogar na cara o cri­me que ela come­teu, a Rainha ten­ta sim­ples­men­te lhe expli­car que assim são os homens (nada a ver com essa fan­ta­sia de anões que a baju­la­vam e a ado­ra­vam, cada um repre­sen­tan­do um sen­ti­men­to estan­que que nun­ca se fun­dia ou se mis­tu­ra­va com outro, na con­tra­di­ção de uma pes­soa com­ple­ta e real). A Rainha lhe diz que a man­dou matar, sim, mas que isso tam­pou­co a impe­de de amá-la, o que é incom­pre­en­sí­vel para a cabe­ci­nha nar­ci­sis­ta de Branca de Neve.

João César Monteiro brin­ca de per­ver­so, mas está obvi­a­men­te mui­to inte­res­sa­do no outro, no pra­zer do outro, no gozo do outro. Seu pro­ble­ma é com Deus. E como no fun­do não é per­ver­so, não é a sua fan­ta­sia que ele quer pôr no lugar da fan­ta­sia de Deus. Quer, antes, pôr o real de vol­ta no seu lugar, como a Rainha, no lugar que lhe cabe e que foi usur­pa­do por uma fan­ta­sia cri­a­da pelos homens em nome de Deus. Sabe que não pode abo­lir o real com uma fan­ta­sia e mos­tra isso o tem­po intei­ro, pelos con­tra­tem­pos que sofre João de Deus nas mãos dos outros, à mer­cê da sor­te que o sur­pre­en­de e o con­tra­diz con­for­me ele vai ten­tan­do cons­truir e recons­truir seu mun­do, em vão.

Por que João César Monteiro quis fil­mar esse tex­to de Walser? E por que quis fil­má-lo jus­ta­men­te depois da tri­lo­gia onde esse emba­te com Deus está mais evi­den­te? Não são pou­cos os pon­tos de con­ta­to entre Walser e João de Deus. Para come­çar, há a tei­mo­sia de fazer um sonho de infân­cia sobre­vi­ver num mun­do que não o aco­lhe. Como João de Deus, o escri­tor suí­ço não ces­sa de ser con­tra­ri­a­do pelo real. E não é for­tui­to que ambos tenham ter­mi­na­do reco­lhi­dos em hos­pí­ci­os.

No iní­cio do fil­me, um letrei­ro anun­cia que o espe­tá­cu­lo ago­ra é o espec­ta­dor. A tela opa­ca, negra, que­bra o jogo espe­cu­lar que o espec­ta­dor esta­be­le­cia com a ima­gem e o reme­te de vol­ta à sala, ao mun­do, ao real. A tela opa­ca, sem ima­gens, o obri­ga a olhar para o lado. O espe­tá­cu­lo já não exis­te como trans­pa­rên­cia e o espec­ta­dor é obri­ga­do a olhar para a sala, para o outro. A tela recu­sa a iden­ti­fi­ca­ção e a absor­ção da fan­ta­sia nar­ci­sis­ta.

Nem Deus nem o per­ver­so nem o nar­ci­sis­ta têm a capa­ci­da­de de rir de si mes­mos. João César Monteiro está rin­do de si o tem­po intei­ro. Por inter­mé­dio da figu­ra de João de Deus, o dire­tor ava­ca­lha tan­to o lugar de Deus quan­to o do per­ver­so. Só vale a pena viver num mun­do onde há ris­cos. E nem Deus nem o per­ver­so podem supor­tar a ideia de ris­co ou de con­tra­di­ção. Nem um nem outro podem ser con­tra­ri­a­dos. Ambos são medi­das con­tra o ris­co, con­tra o ines­pe­ra­do, con­tra o real, con­tra a mor­te. Exposta e con­ser­va­da no sono eter­no de seu cai­xão de vidro, para o fas­cí­nio e o encan­ta­men­to de quem a vis­se, Branca de Neve não mor­re­ria nun­ca.

Em As Bodas de Deus, um prín­ci­pe ára­be que João de Deus desa­fia no jogo lhe diz: “Quem joga con­tra Deus está con­de­na­do a per­der sem remis­são”. Ao que João de Deus res­pon­de com mais uma de suas tan­tas máxi­mas popu­la­res: “Quem não arris­ca não petis­ca”. Fica a dica.

Robert Walser (1878–1956)

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