Dia de chuva, Machado e Pixinguinha

IMS na FLIP

05.07.15

O sábado foi repleto de atividades na Casa do IMS na FLIP. Começamos mais cedo, às 15h, com uma conversa com o jornalista Roberto Pompeu de Toledo (clique aqui para escutar), convidado a falar de dois livros que leu recentemente adorou: O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura (convidado do dia anterior), e Vida e destino, do soviético Vassili Grossman, autor muitas vezes comparado a Tolstói.

Roberto Pompeu de Toledo em conversa com Marília Scalzo

Ambos os livros são longos e, como Roberto Pompeu destaca, não é nada fácil amarrar uma narrativa extensa. São dois livros com Stalin como uma espécie de vilão e ambos tratam de acontecimentos que de fato ocorreram (a morte de Trótski, a Segunda Guerra Mundial). Ao ser transformada em ficção, “a história fica mais viva. Na ficção está presente a vida tomada no seu plano mais vital. Apesar de ficcional, a realidade parece muito maior”.

Reinaldo Moraes, cerveja, cachaça e Paulo Roberto Pires

Às 16h, acompanhado de cerveja e cachaça, Reinaldo Moraes, autor do hilário Pornopopeia, conversou com Paulo Roberto Pires sobre Memórias póstumas de Brás Cubas e Jogo da amarelinha (clique aqui para escutar). Reinaldo disse que o livro de Machado foi o primeiro romance que leu e achou realmente legal. É adulto na estrutura, quase aleatório, cheio de capítulos sem relações diretas, fragmentado e unificado ao mesmo tempo. E Jogo da amarelinha, por sua vez, tem esse lado fragmentado levado a um patamar muito mais radical. Os encontros aleatórios de Oliveira e Maga foram descritos por Moraes como “descabeladamente românticos, até enjoativamente românticos”.

O clima boêmio-jazzístico do livro de Cortázar inspirou a geração de Moraes, que tentaram imitar o estilo de vida regado a vinho e literatura, algo de um “pedantismo atroz”. Os dois livros se destacam pela ludicidade que acabou inspirando a própria obra de Reinaldo. E então, Reinaldo divertiu a plateia contando em detalhes a história de seu encontro ao vivo com Cortázar em Paris, repleto de desvios, desencontros, drinques no café e trocas de palavras em um francês incompreensível.

Alexandra Lucas Coelho e sua obsessão por Machado de Assis

A terceira convidada foi a portuguesa Alexandra Lucas Coelho, que se dispôs a falar de Machado de Assis, sua mulher Carolina e o Cosme Velho, em mesa novamente mediada por Paulo Roberto Pires (clique aqui para escutar). Alexandra morava no Cosme Velho, o Rio de Janeiro do mato, com cobras e tucanos, longe da praia e da orla. “Machado era o maior mito do bairro, o fantasma que estava ali”. Ela chegou ao bairro só tendo lido os contos do mestre, e a descoberta dos grandes romances foi feita enquanto morava lá. A jornalista portuguesa recontou a história de Machado de Assis e o irmão doente Faustino, através do qual conheceu a portuguesa Carolina, que veio ao Brasil para cuidar de Faustino. Voltando ao tema do bairro, Alexandra disse que “o Cosme Velho era uma espécie de refúgio de Machado e é um mistério por que não está mais presente na sua obra, já que ele vivia lá e foi tão importante para ele.” Todos esses temas convergirão no romance que Alexandra está escrevendo, que é a maneira dela de tentar apreender o Rio de Janeiro – uma cidade que ela vê permanentemente alterada pelas manifestações de junho de 2013. “O Rio foi muito o centro dessa batalha, dessa luta”, ela contou, refletindo em como isso destruiu o estereótipo do carioca relaxado e praieiro.

Xerxenesky apresenta o quadrinista Rafa Campos

Encerrando o ciclo de conversas, o quadrinista Rafa Campos, conhecido pela graphic novel Deus, essa gostosa, optou por falar da tirinha Krazy Kat (clique aqui para escutar). O assunto logo desandou para vários outros quadrinhos e formas de arte. Campos defende uma arte sem concessões, sem lição de moral, e atacou aquilo que percebe como uma decadência nas HQs. Elogiou, ainda, o formato repetitivo de artistas como Caymmi e o desenhista de Krazy Kat, que trabalham com mínimas variações do mesmo tema. No restante da conversa, Rafa destilou comentários ácidos sobre a atual onda moralista e conservadora do Brasil e o estado da arte contemporânea.

Terminando a programação da casa do IMS, Anna e Pedro Paes deram uma aula show sobre Pixinguinha (clique aqui para ver o vídeo de um trecho). O sábado gélido e chuvoso ficou muito mais aconchegante com o calor humano de uma casa lotada para escutar canções do mestre da música brasileira.

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