Diálogo com taxista parisiense — por Bernardo Carvalho

Colunistas

28.11.11

O pas­sa­gei­ro desem­bar­ca na Gare du Nord, em Paris, e se diri­ge ao pon­to de táxi. Quando che­ga a sua vez, cabe-lhe o car­ro de um moto­ris­ta jovem, gor­do e care­ca, com cara redon­da, que fala fran­cês com o sota­que car­re­ga­do da peri­fe­ria, como o mar­gi­nal de uma série poli­ci­al de tele­vi­são. É uma cari­ca­tu­ra ambu­lan­te. O moto­ris­ta dá a par­ti­da.

Passageiro: vou para a rua du Bourg Tibourg, no Marais, por favor.

(o moto­ris­ta digi­ta o nome da rua erra­do no GPS, enquan­to diri­ge)

Motorista: Rua do quê?

Passageiro: Do Bourg Tibourg.

Motorista: Onde fica?

Passageiro: No Marais.

Motorista: Não estou achan­do.

Passageiro: (sole­tra o nome da rua; o GPS loca­li­za a rua) Você não é daqui? Não conhe­ce Paris?

Motorista: Conheço, mas o Marais não é o meu negó­cio. Você tra­ba­lha com moda?

Passageiro: Não. Por quê?

Motorista: Você sabe que o Marais é um bair­ro de gays?

Passageiro: É?

Motorista: Você é gay?

Passageiro: Sou.

(Mantendo uma das mãos no volan­te, o moto­ris­ta se vira para trás e olha para o pas­sa­gei­ro, com uma expres­são de feli­ci­da­de e escár­nio.)

Motorista: E, se não tra­ba­lha com moda, tra­ba­lha com o quê?

Passageiro: Sou jor­na­lis­ta.

Motorista: Nunca vi jor­na­lis­ta gay.

Passageiro: Nem todo hete­ros­se­xu­al é moto­ris­ta de táxi.

Motorista: Pego mui­to jor­na­lis­ta. Ninguém vai pro Marais. Vão todos pra Défense.

Passageiro: Lá só tem escri­tó­rio. Então, devem ser jor­na­lis­tas de eco­no­mia.

Motorista: E você é jor­na­lis­ta de quê? De moda?

Passageiro: Não. Depende da situ­a­ção. Se você for cor­res­pon­den­te, por exem­plo, vai ter que cobrir tudo, eco­no­mia, polí­ti­ca.

Motorista: Você enten­de de eco­no­mia?

Passageiro: Não.

Motorista: E como é que pode escre­ver sobre eco­no­mia?

Passageiro: Não escre­vo. Mas, numa situ­a­ção extra­or­di­ná­ria, quan­do você está tra­ba­lhan­do sozi­nho para um jor­nal, em outro país, por exem­plo, tem que escre­ver.

Motorista: Você é de onde?

Passageiro: Brasil.

Motorista: Aqui, cada jor­na­lis­ta faz uma coi­sa.

Passageiro: É o ide­al.

Motorista: Se você qui­ser, eu te levo a luga­res mui­to pio­res que qual­quer fave­la bra­si­lei­ra, aqui mes­mo, em Paris. Nada a ver com Marais, Saint-Germain.

Passageiro: Obrigado. Eu conhe­ço.

Motorista: Paris tá cheia de fave­la. É só cor­rup­ção, na eco­no­mia, na polí­ti­ca. Veja só as revo­lu­ções no Magreb [nor­te da África]. Agora, a França quer ensi­nar como é que se faz demo­cra­cia. Querem impor o mode­lo deles. E olha só o mode­lo deles. É tudo por cau­sa da gra­na, pra botar a mão no petró­leo. Cada um tem a sua demo­cra­cia. Uma demo­cra­cia é dife­ren­te da outra. Se os tuni­si­a­nos que­rem votar nos islâ­mi­cos, a deci­são é deles. Quem dis­se que não pode ter demo­cra­cia islâ­mi­ca?

Passageiro: Claro. Você é de onde?

Motorista: Daqui mes­mo.

Passageiro: E os seus pais?

Motorista: Da Argélia. As pes­so­as ficam meten­do o bede­lho na vida dos outros. Dizendo como é que tem que ser, como é que tem que fazer, que é isso e aqui­lo. Cada um faz do seu jei­to.

Passageiro: Claro. Ninguém tem que ficar se meten­do na vida dos outros. Cada um faz como qui­ser com a sua vida, con­tan­to que não cau­se mal aos outros. É esse o pro­ble­ma. E é por isso que exis­tem as leis. Me dis­se­ram que, se eu qui­ser me casar no Egito, por exem­plo, tenho que me sub­me­ter a uma igre­ja, qual­quer igre­ja, pode ser sina­go­ga, igre­ja cató­li­ca etc. Pra se casar, você tem que acre­di­tar em deus, qual­quer deus, mas tem que acre­di­tar. E que mer­da é essa de obri­gar as pes­so­as a ter uma reli­gião, qual­quer que seja? E se eu qui­ser me casar sem acre­di­tar em deus nenhum? E tem mais: se você for gay, ain­da cor­re o ris­co de ser pre­so. E, do outro lado da fron­tei­ra, no Sudão, pode ser con­de­na­do à mor­te. É isso aí. Você está cober­to de razão. O pro­ble­ma é as pes­so­as se mete­rem na vida dos outros.

O moto­ris­ta só vol­ta a abrir a boca para dizer que che­ga­ram e o pas­sa­gei­ro já pode des­cer, estão no Marais, bair­ro de gays e da moda.

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: vis­ta da rua du Bourg Tibourg, no Marais, em Paris (fon­te: Google Maps)

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