Dilma, vírgula

Colunistas

29.10.14

Enquanto o noti­ciá­rio vai pas­sar as pró­xi­mas sema­nas, tal­vez meses, baten­do insis­ten­te­men­te na tecla do país divi­di­do – só três milhões de votos de dife­ren­ça –, quem tem outras pers­pec­ti­vas sobre as ori­gens des­sa divi­são pode come­çar a pen­sar numa vír­gu­la. A ideia não é ori­gi­nal­men­te minha, mas achei das mais inte­li­gen­tes saca­das da reta final da elei­ção. Quem apoi­ou a ree­lei­ção da pre­si­den­ta Dilma Rousseff osten­ta­va um de seus melho­res slo­gans – “Dilma muda mais” – espa­lha­do em ade­si­vos, fai­xas e fotos nas redes soci­ais. Coube ao meu ami­go Rafael Haddock-Lobo per­ce­ber que, a par­tir da vitó­ria, se tra­ta­va de incluir aí uma vír­gu­la, pro­du­zin­do um equí­vo­co, um lap­so, uma nova sig­ni­fi­ca­ção para a fra­se: “Dilma, muda mais”.

Com a vír­gu­la, o que era afir­ma­ti­vo ganha tom de rei­vin­di­ca­ção, de ape­lo, de cla­mor. Para que a vír­gu­la vigo­re, no entan­to, a par­tir da vitó­ria pas­sa­mos nós, elei­to­res de Dilma, a olhar menos para o con­fron­to com o PSDB e mais para as for­ças de esquer­da que com­pu­se­ram a chan­ce de vitó­ria do PT. Em gran­de medi­da, pode-se dizer que o segun­do tur­no sofri­do foi con­sequên­cia do desen­can­ta­men­to de par­te da esquer­da com o des­ca­so do pro­je­to petis­ta por novos avan­ços. Se fato­res como o enfren­ta­men­to da desi­gual­da­de soci­al, econô­mi­ca e raci­al foi deci­si­vo para o apoio à ree­lei­ção, há tam­bém um gran­de núme­ro de crí­ti­cas que fez com que PSOL e Rede ganhas­sem espa­ço polí­ti­co, seja na ques­tão ambi­en­tal, cara ao gru­po de apoio a Marina Silva, seja na exi­gên­cia de ampli­a­ção da par­ti­ci­pa­ção popu­lar, pon­to cego no gover­no Dilma e uma das pau­tas mais inte­res­san­tes do PSOL.

O lado ruim do ala­ri­do tuca­no con­tra o PT e o baru­lho do argu­men­to da alter­nân­cia de poder é que esses ruí­dos aca­bem sen­do mais altos do que a opo­si­ção de esquer­da, em silên­cio estra­té­gi­co des­de o iní­cio do segun­do tur­no. Entendo a vír­gu­la como o meca­nis­mo que pre­ten­de virar a fra­se para a esquer­da, argu­men­tar a favor de pau­tas polí­ti­cas até ago­ra igno­ra­das, como o ele­men­to de lin­gua­gem que pre­ten­de levar Dilma para luga­res onde ela ain­da não este­ve. A arma­di­lha da pola­ri­za­ção, no entan­to, é que o novo gover­no pre­ten­da se pau­tar pelo enfren­ta­men­to a um supos­to PSDB for­ta­le­ci­do como opo­si­ção. “Dilma vír­gu­la muda mais” quer dizer que está na hora de olhar para os ali­a­dos, o que sig­ni­fi­ca olhar para as ruas, onde os pro­tes­tos ini­ci­a­dos no ano pas­sa­do pedi­am esse “muda mais”.

Para isso, no entan­to, me pare­ce que exis­te uma fra­se depois da vír­gu­la, em vigor duran­te todo o pri­mei­ro man­da­to, a ser extin­ta: Dilma, a geren­to­na. Em nome des­se per­fil geren­ci­al, seu gover­no foi mar­ca­do por uma pau­ta prin­ci­pal­men­te desen­vol­vi­men­tis­ta, cons­truí­da sobre os pila­res do cres­ci­men­to econô­mi­co e do com­ba­te à pobre­za e à desi­gual­da­de. Se a redu­ção da desi­gual­da­de é, de fato, seu mai­or trun­fo, é tam­bém o que a enfra­que­ce. Não, eu não vou escre­ver con­tra o com­ba­te à desi­gual­da­de bra­si­lei­ra. Vou escre­ver con­tra a per­cep­ção de que, em nome do com­ba­te à desi­gual­da­de, qual­quer coi­sa pos­sa ser nego­ci­a­da. Não, não pode. É pri­o­ri­da­de inequí­vo­ca, mas de algu­ma for­ma tem fun­ci­o­na­do como a fun­da­men­ta­ção de um mode­lo geren­ci­al que tra­va o pró­prio com­ba­te à desi­gual­da­de, já que con­ti­nua sen­do ges­ta­do e geri­do de cima para bai­xo, do gabi­ne­te para o povo, do Planalto Central para o res­to do país. Abrir-se mais à par­ti­ci­pa­ção popu­lar do que ao PMDB, mais aos movi­men­tos soci­ais do que à ban­ca­da evan­gé­li­ca, mais aos repre­sen­tan­tes indí­ge­nas do que às emprei­tei­ras, mais aos gru­pos LGBTs do que aos homo­fó­bi­cos de plan­tão é o que vem depois da vír­gu­la e da vitó­ria.

Uma das mar­cas mais inte­res­san­tes dos pro­tes­tos de rua foi a pau­ta des­cen­tra­li­za­da, aber­ta a todo tipo de rei­vin­di­ca­ção, não neces­sa­ri­a­men­te orga­ni­za­da por par­ti­dos polí­ti­cos. Cada um de nós tinha seu pró­prio car­taz, slo­gan, pala­vra de ordem. A minha, aque­la que eu gos­ta­ria de acres­cen­tar depois da vír­gu­la do “Dilma, muda mais”, é con­tra a miso­gi­nia. Dilma Rousseff foi a pri­mei­ra mulher elei­ta e ago­ra ree­lei­ta pre­si­den­ta de um país em que os núme­ros de par­ti­ci­pa­ção femi­ni­na na polí­ti­ca são pífi­os. A mim pare­ce que isso dá a ela uma res­pon­sa­bi­li­da­de pecu­li­ar: com­ba­ter a miso­gi­nia. Essa é a minha pau­ta para os pró­xi­mos qua­tro anos, como foi nos últi­mos qua­tro. Tenho insis­ti­do em dizer que mui­tas das crí­ti­cas ao gover­no Dilma pas­sam por uma miso­gi­nia por vezes vela­da, por vezes escan­ca­ra­da. Quando ouço na rua alguém dizen­do “foi só colo­ca­rem uma mulher lá e virou bagun­ça” ou escu­to um eco­no­mis­ta con­sa­gra­do se refe­rir a ela como “aque­la mulher”, ou ain­da quan­do leio per­fis da pre­si­den­te dedi­ca­dos a des­qua­li­fi­cá-la pela manei­ra como se ves­te, pelo cor­te de cabe­lo etc., é que pen­so na pau­ta que me move­rá. Denunciar todas as for­mas de pro­tes­to que se valem da sua con­di­ção de mulher para agre­di-la. Porque entre as inú­me­ras divi­sões das urnas, não pos­so esque­cer que a elei­ção foi entre um homem e uma mulher. Ela ven­ceu. Nós ganha­mos, pon­to.

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