Discurso infinito: uma visita ao universo plástico da loucura

Artes

04.06.13

A expo­si­ção Raphael e Emygdio: dois moder­nos no Engenho de Dentro está em car­taz até 7 de julho no Instituto Moreira Salles de São Paulo. As foto­gra­fi­as que ilus­tram este post são de Diego Ferreira.


Museu de Imagens do Inconsciente

O crí­ti­co de joe­lhos dian­te de um qua­dro: a cena inu­si­ta­da des­per­tou a curi­o­si­da­de dos visi­tan­tes da gale­ria do Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro. Amarelo, azul, ver­de, a pale­ta cro­má­ti­ca agres­si­va da tela guar­da­va seme­lhan­ça com os expres­si­o­nis­tas ale­mães. No entan­to, o pin­tor nun­ca vira nenhu­ma obra expres­si­o­nis­ta. Emygdio de Barros esta­va inter­na­do havia 23 anos em ins­ti­tui­ções psi­quiá­tri­cas, quan­do come­çou a fre­quen­tar o ate­liê de ocu­pa­ção tera­pêu­ti­ca do então Centro Psiquiátrico Nacional (CPN), no Engenho de Dentro. Nunca tinha pin­ta­do antes.

A expo­si­ção, rea­li­za­da ape­nas um ano após a inau­gu­ra­ção do ate­liê, em 1947, reu­nia 245 pin­tu­ras de inter­nos do CPN. Os pin­to­res foram des­co­ber­tos pelo artis­ta plás­ti­co Almir Mavignier nas enfer­ma­ri­as do Centro. Eram inter­nos que cos­tu­ma­vam dese­nhar nas pare­des — e até no ar, como Raphael Domingues.

Raphael fazia tra­ços no ar, che­gan­do a esbar­rar o bico de pena nas rou­pas de quem esti­ves­se per­to. Mas quan­do encon­tra­va a folha de papel se per­dia em dese­nhos sua­ves, que podi­am par­tir de uma úni­ca linha. Observando esses dese­nhos, a dou­to­ra Nise da Silveira, cri­a­do­ra do ate­liê, iden­ti­fi­cou seme­lhan­ças com o tra­ba­lho da artis­ta plás­ti­ca Martha Pires, que aca­bou acom­pa­nhan­do o tra­ba­lho de Raphael por mui­tos anos. Sem, no entan­to, influ­en­ciá-lo, já que no ate­liê se pra­ti­ca­va uni­ca­men­te a arte livre, ou seja: a auto­ex­pres­são sem inter­fe­rên­ci­as. Ali não se apren­dia téc­ni­ca algu­ma; a pin­tu­ra era um pro­ces­so natu­ral.

Segundo o psi­có­lo­go Eduardo Pamplona, que tra­ba­lha atu­al­men­te no ate­liê, o pro­ces­so cri­a­ti­vo do psi­có­ti­co, por estar livre da cen­su­ra egoi­ca, refle­te os sen­ti­men­tos mais ínti­mos e o pró­prio incons­ci­en­te cole­ti­vo. E tal­vez este­ja no incons­ci­en­te cole­ti­vo a res­pos­ta para a apa­ri­ção espon­tâ­nea do expres­si­o­nis­mo no tra­ba­lho de Emygdio.

Museu de Imagens do Inconsciente

O crí­ti­co de joe­lhos

As telas eram tão expres­si­vas que o crí­ti­co de arte Mario Pedrosa, per­so­na­gem ini­ci­al des­te tex­to, lite­ral­men­te caiu de joe­lhos. E entrou num emba­te con­tra Quirino Campofiorito, que ques­ti­o­na­va o valor artís­ti­co do tra­ba­lho dos inter­nos afir­man­do que aque­la pin­tu­ra “cons­ti­tuía um sim­ples meio de dar ao infe­liz um extra­va­sa­men­to de insa­tis­fa­ções sen­so­ri­ais que ator­men­tam a men­ta­li­da­de afe­ta­da em seu equi­lí­brio”. Tratava-se de uma inter­pre­ta­ção ras­tei­ra da pro­pos­ta tera­pêu­ti­ca da dou­to­ra Nise de des­po­ten­ci­a­li­zar as ener­gi­as psí­qui­cas nega­ti­vas atra­vés da sim­bo­li­za­ção das mes­mas.

O pro­ces­so de sim­bo­li­za­ção nada mais é do que o pró­prio pro­ces­so cri­a­ti­vo. Obviamente, o obje­ti­vo des­te pro­ces­so não era, em pri­mei­ra ins­tân­cia, pro­du­zir obras de arte — e tal­vez por isso a arte apa­re­ces­se de for­ma tão con­tun­den­te e natu­ral entre o tra­ba­lho dos inter­nos. Mas Campofiorito segue cri­ti­can­do a fal­ta de téc­ni­ca dos cli­en­tes (como a dou­to­ra Nise pre­fe­ria cha­mar os paci­en­tes, já que o ter­mo “paci­en­te” indi­ca uma con­du­ta pas­si­va). É então que a teo­ria de Arte Bruta de Jean Dubuffet sur­ge como con­tra­pon­to, reco­nhe­cen­do como arte o tra­ba­lho de pes­so­as com pou­ca ou nenhu­ma ins­tru­ção.

Museu de Imagens do Inconsciente

Quem cria o lou­co?

É comum (e con­for­tá­vel) enxer­gar o lou­co como uma figu­ra dis­tan­te, fru­to de con­fli­tos total­men­te estra­nhos ao nos­so enten­di­men­to. No entan­to, segun­do o conhe­ci­men­to médi­co atu­al, qual­quer pes­soa que pas­se por um perío­do de estres­se inten­so pode entrar em sur­to psi­có­ti­co. E os moti­vos desen­ca­de­a­do­res des­sas cri­ses estão mui­to pró­xi­mos da nos­sa rea­li­da­de, como res­sal­tou a arte­te­ra­peu­ta do ate­liê, Glória Thereza Chan, ao con­tar a his­tó­ria de Emygdio:

Emygdio era mui­to inte­li­gen­te, foi sem­pre o pri­mei­ro da clas­se. Fez o cur­so téc­ni­co de tor­nei­ro mecâ­ni­co e ingres­sou no Arsenal da Marinha. Destacou-se pela qua­li­da­de do seu tra­ba­lho e foi desig­na­do para fazer um cur­so de aper­fei­ço­a­men­to na França, onde per­ma­ne­ceu duran­te dois anos. Quando vol­tou ao Brasil, encon­trou a mulher que ele ama­va casa­da com o seu irmão. Emygdio aban­do­nou o empre­go e pas­sou a andar pelas ruas, até ser inter­na­do no velho Hospital da Praia Vermelha”.

E de Raphael:

Raphael era um meni­no sen­sí­vel, tími­do e retraí­do. Aos 13 anos, ingres­sou no Liceu Literário Português, onde estu­dou Desenho Acadêmico. Trabalhou como dese­nhis­ta em escri­tó­ri­os par­ti­cu­la­res, che­gan­do a ganhar um prê­mio num con­cur­so da Standard Oil Company. Quando o pai aban­do­nou a famí­lia, Raphael, o mais velho dos qua­tro irmãos, assu­miu o sus­ten­to da casa. Os pri­mei­ros sin­to­mas da doen­ça se mani­fes­ta­ram logo depois e ele tam­bém foi inter­na­do no Hospital da Praia Vermelha”.

Museu de Imagens do Inconsciente

Imagens do Inconsciente 

Em 1952 foi cri­a­do, tam­bém no Centro Psiquiátrico Nacional, o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), que não só abri­ga­ria o acer­vo de obras de arte pro­du­zi­das nos ate­li­ês como tam­bém pro­mo­ve­ria expo­si­ções das mes­mas. A pro­pos­ta era cri­ar um museu vivo.

A impor­tân­cia do tra­ba­lho de pes­qui­sa rea­li­za­do no museu foi reco­nhe­ci­da por Carl Gustav Jung, que con­vi­dou a dou­to­ra Nise para apre­sen­tar as obras de seus cli­en­tes no II Congresso Internacional de Psiquiatria rea­li­za­do em 1957, em Zurique. O con­vi­te sur­giu depois que Jung rece­beu uma car­ta de Nise rela­tan­do o recor­ren­te apa­re­ci­men­to de man­da­las nas pin­tu­ras e dese­nhos dos inter­nos. Para Jung, as man­da­las repre­sen­ta­vam o poten­ci­al auto­cu­ra­ti­vo da psi­que, em opo­si­ção ao caos inter­no daque­les indi­ví­du­os.

Eduardo Pamplona apon­ta o apa­re­ci­men­to de for­mas geo­mé­tri­cas nas pin­tu­ras e afir­ma que elas tam­bém são refle­xo da neces­si­da­de de opor figu­ras rígi­das e bem deli­ne­a­das à desor­ga­ni­za­ção psí­qui­ca. E res­sal­ta que a lin­gua­gem plás­ti­ca e poé­ti­ca con­se­gue apro­xi­mar o lou­co dos ditos nor­mais, já que a poe­sia não pre­ci­sa ser enten­di­da, mas sen­ti­da. Desta for­ma, o museu é tam­bém um impor­tan­te espa­ço de res­so­ci­a­li­za­ção.

A pro­pos­ta da dou­to­ra Nise de man­ter um museu vivo pros­se­gue: o acer­vo cres­ce todos os dias com a incor­po­ra­ção das obras pro­du­zi­das no ate­liê de ocu­pa­ção tera­pêu­ti­ca. São mais de 360 mil escul­tu­ras, pin­tu­ras, dese­nhos e obras lite­rá­ri­as.

Museu de Imagens do Inconsciente

Palavra sem fim

A expres­são artís­ti­ca livre pode ser pra­ti­ca­da em diver­sos supor­tes. No entan­to, as artes visu­ais pare­cem estar mais pre­sen­tes que a lite­ra­tu­ra — ain­da pou­co cita­da como for­ma de dar con­tor­no à angús­tia psi­có­ti­ca. Talvez por uma defi­ci­ên­cia da pró­pria lin­gua­gem, que, pelo cará­ter de simu­la­cro da rea­li­da­de neu­ró­ti­ca, pare­ça inca­paz de tra­du­zir o uni­ver­so psi­có­ti­co.

É nes­te pon­to que o “defei­to” da escri­ta do psi­có­ti­co nos con­vi­da a des­co­brir novas rela­ções entre sig­ni­fi­can­te e sig­ni­fi­ca­do. Admitir esse segun­do olhar para o dis­cur­so da lou­cu­ra — seja ele escri­to ou fala­do — é cor­ri­gir a ten­dên­cia de silen­ci­ar toda e qual­quer voz dis­so­nan­te. É admi­tir o sur­gi­men­to de outra lin­gua­gem sem, no entan­to, con­si­de­rá-la infe­ri­or. É per­ce­ber a pala­vra em seu esta­do bru­to, ou seja: for­ma e musi­ca­li­da­de.

Glória Thereza Chan con­ta que no ate­liê são uti­li­za­das téc­ni­cas dadaís­tas, como por exem­plo o saco dadaís­ta, para pro­du­zir poe­si­as. Apesar de os cli­en­tes não se sabe­rem escri­to­res, o fato é que, atra­vés des­te pro­ces­so, atri­bu­em novos e inqui­e­tan­tes sig­ni­fi­ca­dos às pala­vras — e pro­du­zem lite­ra­tu­ra.

As obras lite­rá­ri­as do museu são cata­lo­ga­das e guar­da­das em pas­tas. Descansam na bor­da de silên­cio que sepa­ra tex­to de lei­tor. Mas, num momen­to em que revi­si­ta­mos exaus­ti­va­men­te os mes­mos esti­los lite­rá­ri­os em meio a um cons­tan­te esva­zi­a­men­to da pala­vra, não seria inte­res­san­te redes­co­brir este acer­vo? E redes­co­brir que a pala­vra (psi­có­ti­ca ou neu­ró­ti­ca) não tem fim.

Mário Pedrosa faz fal­ta.

* Daniela Lima é jor­na­lis­ta e escri­to­ra. Lançou em 2012 o livro Anatomia, pela edi­to­ra Multifoco. Atualmente escre­ve a bio­gra­fia de Maura Lopes Cançado, com a assis­tên­cia de pes­qui­sa de Natália Pinheiro.

, , , , , , ,