Distopia da distopia

Colunistas

20.07.16

Revi recen­te­men­te O medo devo­ra a alma (1974), de Fassbinder, por con­ta de um roman­ce que eu esta­va escre­ven­do. O fil­me me dei­xou em êxta­se. Ando cada vez mais obce­ca­do pelo cine­as­ta ale­mão, con­for­me vou redes­co­brin­do onli­ne as cópi­as res­tau­ra­das dos seus clás­si­cos. Não sabia, por exem­plo, que ele tinha rea­li­za­do uma fic­ção cien­tí­fi­ca. Só no mês pas­sa­do, jan­tan­do na casa de um ami­go por­tu­guês, autor de fic­ção cien­tí­fi­ca, foi que ouvi falar pela pri­mei­ra vez de O mun­do por um fio, fil­me em dois epi­só­di­os que Fassbinder diri­giu para a tele­vi­são ale­mã, em 1973.

Baseado no roman­ce Simulacron-3 (1964), do ame­ri­ca­no Daniel Galouye (1920–76), o fil­me ante­ci­pa o mun­do da rea­li­da­de vir­tu­al. Uma gran­de cor­po­ra­ção desen­vol­ve, por meio de com­pu­ta­do­res, uma rea­li­da­de para­le­la na qual pre­ten­de tes­tar pro­je­ções de futu­ro. No iní­cio do fil­me, o cien­tis­ta encar­re­ga­do do pro­je­to enlou­que­ce e mor­re, sen­do subs­ti­tuí­do pelo pro­ta­go­nis­ta, o Dr. Fred Stiller, encar­na­do por Klaus Löwitsch, que na épo­ca era conhe­ci­do como astro de uma famo­sa série poli­ci­al da TV ale­mã.

É irô­ni­co que as fic­ções cien­tí­fi­cas fiquem tão data­das, por mais pro­fé­ti­cas que sejam. O que sobres­sai no futu­ro que Fassbinder ima­gi­na em 1973 é uma cari­ca­tu­ra de épo­ca. O fil­me foi roda­do em Paris, por­que Paris era o can­tei­ro de obras da “cida­de do futu­ro”, segun­do depoi­men­to do rotei­ris­ta, no docu­men­tá­rio Um olhar avan­ça­do sobre o pre­sen­te, de Juliane Lorenz, bônus do DVD fran­cês. Os edi­fí­ci­os de La Défense subi­am como um sonho de ultra­mo­der­ni­da­de e ser­vi­am de fato a um cená­rio futu­ris­ta per­fei­to, mas quan­do entra­mos no mun­do vir­tu­al, que no fil­me repre­sen­ta a expe­ri­ên­cia de pro­je­ção de futu­ro, o ana­cro­nis­mo fica gri­tan­te. Os cená­ri­os têm a apa­rên­cia art nou­ve­au dos velhos cafés pari­si­en­ses. A pro­je­ção do futu­ro é o pas­sa­do.

Todo fil­me de fic­ção cien­tí­fi­ca está de cer­ta for­ma con­de­na­do a uma repre­sen­ta­ção paro­xís­ti­ca do seu tem­po, ou seja, a fazer uma esti­li­za­ção do pas­sa­do que só o espec­ta­dor do futu­ro será capaz de ver. Fassbinder pare­cia ter cons­ci­ên­cia des­sa sina e jogar com ela ao con­ce­ber um futu­ro deli­be­ra­da­men­te retrô e ultra­pas­sa­do para carac­te­ri­zar o mun­do vir­tu­al cri­a­do pela gran­de cor­po­ra­ção.

É um mun­do povo­a­do por “uni­da­des iden­ti­tá­ri­as”, homens e mulhe­res aos quais não ocor­re que sejam meras cri­a­ções de com­pu­ta­dor. A sim­ples men­ção a “uni­da­des iden­ti­tá­ri­as” para defi­nir esses espec­tros vir­tu­ais (que sofrem entre­tan­to das mes­mas angús­ti­as e dos mes­mos pro­ble­mas exis­ten­ci­ais dos homens que os con­ce­be­ram) é sur­pre­en­den­te num mun­do onde noções como ima­gem e iden­ti­da­de ganha­ram o sen­ti­do hegemô­ni­co que têm hoje. Mas O mun­do por um fio vai além da ante­ci­pa­ção. Tudo diz res­pei­to a um jogo de espe­lhos e à mani­pu­la­ção do tem­po.

Antes de mor­rer lou­co, o cri­a­dor do pro­je­to dei­xa uma cha­ra­da: o dese­nho de um guer­rei­ro gre­go ao lado de uma tar­ta­ru­ga. É uma refe­rên­cia ao para­do­xo de Zenão, segun­do o qual, se o tem­po e o espa­ço são infi­ni­ta­men­te divi­sí­veis, como supõe a ciên­cia, Aquiles nun­ca pode­rá alcan­çar a tar­ta­ru­ga que saiu na sua fren­te, com a van­ta­gem de alguns metros. Por mais que ele cor­ra, a tar­ta­ru­ga esta­rá sem­pre adi­an­te do guer­rei­ro, mate­ma­ti­ca­men­te, nem que seja por uma fra­ção de milé­si­mo de segun­do ou milé­si­mo de milí­me­tro. O para­do­xo é a cha­ve para o enten­di­men­to do fil­me.

A repre­sen­ta­ção da rea­li­da­de e a inter­pre­ta­ção dos ato­res, às vezes deli­be­ra­da­men­te canhes­tra, são arti­fi­ci­ais a pon­to de a rea­li­da­de vir­tu­al se con­fun­dir com a supos­ta rea­li­da­de que a cri­ou. O pro­ta­go­nis­ta pas­sa a sus­pei­tar que o mun­do em que ele vive afi­nal não seja tão dife­ren­te do mun­do vir­tu­al. Como sua des­con­fi­an­ça não é com­par­ti­lha­da, fica sem­pre a dúvi­da de que seja fru­to de um delí­rio para­noi­co. Como seu ante­ces­sor, o cien­tis­ta aca­ba lou­co.

A câme­ra gira­tó­ria e os cená­ri­os com espe­lhos e trans­pa­rên­ci­as refle­tem nas ima­gens a pre­mis­sa da his­tó­ria: esta­mos num cir­cui­to fecha­do, que anu­la a tran­si­ti­vi­da­de das repre­sen­ta­ções em geral e da fic­ção cien­tí­fi­ca, como paró­dia do pre­sen­te, em par­ti­cu­lar. A fic­ção cien­tí­fi­ca já não é metá­fo­ra ou paró­dia de nada. As repre­sen­ta­ções se sobre­põem. Já não há rea­li­da­de, só refle­xo do refle­xo, pro­je­ção da pro­je­ção, dis­to­pia da dis­to­pia. A sala de cine­ma onde está o espec­ta­dor não é menos irre­al do que o fil­me ao qual o espec­ta­dor está assis­tin­do. Como no para­do­xo de Zenão, O mun­do por um fio alu­de a uma espi­ral inin­ter­rup­ta de repre­sen­ta­ções, à ima­gem de um labi­rin­to bor­gi­a­no no qual a rea­li­da­de já é uma dis­to­pia, paró­dia de outra rea­li­da­de, e assim por dian­te, até o infi­ni­to.

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