Divagar e sempre: Millôr Fernandes

Literatura

28.03.12

Cem vezes Millôr, fra­ses esco­lhi­das por Sérgio Augusto

1. O aca­so é uma bes­tei­ra de Deus.
2. Morrer é uma coi­sa que se deve dei­xar sem­pre pra depois.
3. O Brasil é os Estados Unidos onde eu vivo.
4. Um homem é adul­to no dia em que come­ça a gas­tar mais do que ganha.
5. A inven­ção do Alka-Seltzer foi uma tem­pes­ta­de em copo d’água.
6. Nasci com talen­to meló­di­co numa épo­ca em que o pes­so­al só se inte­res­sa por per­cus­são.
7. Analista é um sujei­to que par­tin­do de pre­mis­sas fal­sas con­se­gue che­gar a con­clu­sões per­fei­ta­men­te equi­vo­ca­das.
8. Anarquia é ape­nas uma pro­pos­ta soci­al em que você dá ao palha­ço a admi­nis­tra­ção do cir­co. (E qua­se sem­pre ele é mui­to bem-suce­di­do.)
9. Se os ani­mais falas­sem não seria conos­co que iam bater papo.
10. Nunca dei­xe de fazer ama­nhã o que pode dei­xar de fazer hoje.
11. Nas noi­tes de Brasília, chei­as de mor­do­mia, todos os gas­tos são par­dos.
12. Um des­ses livros que quan­do você lar­ga não con­se­gue mais pegar.
13. Minha espe­ci­a­li­da­de e meu orgu­lho: sou o mai­or lei­go do país.
14. 50% dos doen­tes mor­rem de médi­co.
15. Celebridade é um idi­o­ta qual­quer que apa­re­ceu na tele­vi­são.
16. Chato é uma pes­soa que não sabe que “Como vai?” é um cum­pri­men­to, não uma per­gun­ta.
17. Todo gover­nan­te se com­põe de 3% de Lincoln e 97% de Pinochet.
18. Jamais cha­me um ami­go de imbe­cil. É pre­fe­rí­vel lhe pedir dinhei­ro empres­ta­do e não pagar.
19. Se sua cal­ça tem um bura­co, usea-a pelo aves­so.
20. Quem se cur­va aos opres­so­res mos­tra a bun­da aos opri­mi­dos.
21. A alma enru­ga antes da pele.
22. Comida é bom, bebi­da é óti­mo, músi­ca é admi­rá­vel, lite­ra­tu­ra é subli­me, mas só o sexo pro­vo­ca ere­ção.
23. Especialista é o que só não igno­ra uma coi­sa.
24. Os pás­sa­ros voam por­que não têm ide­o­lo­gia.
25. A fal­sa modés­tia é o rabo escon­di­do com o gato de fora.
26. Fobia é um medo com PhD.
27. A foto­gra­fia é a men­ti­ra ver­da­dei­ra.
28. Toda foto­gra­fia anti­ga é uma punha­la­da.
29. O fute­bol é o ópio do povo e o nar­co­trá­fi­co da mídia.
30. Quem sai aos seus não endi­rei­ta mais.
31. O gour­met é o comi­lão eru­di­to.
32. O had­dock é um baca­lhau que ven­ceu na vida.
33. A humil­da­de é uma espé­cie de orgu­lho que apos­ta no per­de­dor.
34. O humo­ris­mo é a quin­tes­sên­cia da seri­e­da­de.
35. Idade da razão é quan­do a gen­te faz as mai­o­res bes­tei­ras sem ficar pre­o­cu­pa­do.
36. Desconfio de todo ide­a­lis­ta que lucra com seu ide­al.
37. Imprensa é opo­si­ção. O res­to é arma­zém de secos & molha­dos.
38. Como são admi­rá­veis as pes­so­as que não conhe­ce­mos mui­to bem!
39. Grande erro da natu­re­za é a incom­pe­tên­cia não doer.
40. Todo homem nas­ce ori­gi­nal e mor­re plá­gio.
41. Livre como um táxi.
42. Divagar e sem­pre.
43. Monogamia é a capa­ci­da­de de ser infi­el à mes­ma pes­soa duran­te a vida intei­ra.
44. A mor­te é here­di­tá­ria.
45. A oci­o­si­da­de é a mãe de todos os vices.
46. O cara que com­ple­ta 80 anos está, evi­den­te­men­te, viven­do aci­ma de seus recur­sos.
47. Se é gos­to­so, faz logo. Amanhã pode ser ile­gal.
48. O oti­mis­mo é o pes­si­mis­mo em dilui­ção.
49. A pro­bi­da­de não tem cúm­pli­ces.
50. Deus dá o frio a quem não tem den­tes.
51. O quart­zo é um mine­ral que fica entre o tert­zo e o quint­zo.
52. A inven­ção da pol­tro­na aca­bou com os heróis.
53. Certos escri­to­res se pre­ten­dem eter­nos e são ape­nas inter­mi­ná­veis.
54. O dinhei­ro não é tudo. Tudo é a fal­ta de dinhei­ro.
55. Dizem que quan­do o Criador cri­ou o homem, os ani­mais todos em vol­ta não caí­ram na gar­ga­lha­da ape­nas por uma ques­tão de res­pei­to.
56. Conheço alguns escri­to­res que mor­re­ram aos 30 anos e só con­se­gui­ram entrar pra Academia aos 60.
57. Não con­fun­dir éti­ca com eti­que­ta, que é ape­nas uma éti­ca de buti­que.
58. Eu pos­so não ser um bom exem­plo. Mas sou um bom avi­so.
59. A bele­za é a inte­li­gên­cia à flor da pele.
60. Todo líder aca­ba empre­ga­do de sua lide­ran­ça.
61. Dinheiro com­pra até amor ver­da­dei­ro.
62. Os homens não fer­vem à mes­ma tem­pe­ra­tu­ra.
63. À noi­te (na penum­bra acon­che­gan­te das alco­vas per­mis­si­vas), todos os par­dos são gatos.
64. A impor­tân­cia leva mais gen­te ao cemi­té­rio do que a impo­tên­cia.
65. Quando a baju­la­ção não atin­ge seu obje­ti­vo, você pode estar cer­to de que não é por fal­ta de vai­da­de do baju­la­do — é por incom­pe­tên­cia do puxa-saco.
66. Entre o riso e a lágri­ma qua­se sem­pre há ape­nas o nariz.
67. De todas as taras sexu­ais, não exis­te nenhu­ma mais estra­nha do que a abs­ti­nên­cia.
68. A Academia Brasileira de Letras se com­põe de 39 mem­bros e um mor­to rota­ti­vo.
69. Não exis­te o japo­nês indi­vi­du­al.
70. Temos que come­çar por bai­xo. Como os Estados Unidos, por exem­plo. Eles come­ça­ram com um país só.
71. Não gos­to da direi­ta por­que ela é de direi­ta, e não gos­to da esquer­da por­que ela é de direi­ta.
72. Nos momen­tos de peri­go é fun­da­men­tal man­ter a pre­sen­ça de espí­ri­to, embo­ra o ide­al fos­se con­se­guir a ausên­cia do cor­po.
73. O arro­to é um som bur­guês, incom­pre­en­sí­vel entre os pobres.
74. Deus é bom. Está é mui­to mal cer­ca­do.
75. O sujei­to que me fará acre­di­tar na imor­ta­li­da­de da alma ain­da está pra res­sus­ci­tar.
76. Político é um sujei­to que con­ven­ce todo mun­do a fazer uma coi­sa da qual ele não tem a menor con­vic­ção.
77. Bahia — a mai­or agên­cia de publi­ci­da­de do mun­do.
78. O bêba­do é o sub­cons­ci­en­te do abs­tê­mio.
79. O bole­ro não mor­re­rá enquan­to hou­ver um coroa toman­do banho de chu­vei­ro frio.
80. Todos os gru­pos são ape­nas agên­ci­as de empre­go para seus mem­bros.
81. Nada é cer­to nes­te mun­do — a não ser o tele­fo­ne tocar quan­do você está sozi­nho em casa e aca­bou de sen­tar no vaso.
82. Baiano só tem pâni­co no dia seguin­te.
83. Os cor­rup­tos são encon­tra­dos em vári­as par­tes do mun­do, qua­se todas no Brasil.
84. A cre­di­bi­li­da­de de um país é inver­sa­men­te pro­por­ci­o­nal aos juros que os ban­quei­ros inter­na­ci­o­nais lhe cobram.
85. A curi­o­si­da­de mór­bi­da é a mãe do vidro fumê.
86. Não have­rá demo­cra­cia enquan­to eu for obri­ga­do a escre­ver deus com D maiús­cu­lo.
87. O pro­ble­ma da demo­cra­cia é que quan­do o povo toma o palá­cio, não sabe puxar a des­car­ga.
88. O mal do mun­do é que Deus e o Diabo enve­lhe­ce­ram, mas o Diabo fez plás­ti­ca.
89. Os soci­a­lis­tas são con­tra o lucro. Os capi­ta­lis­tas são ape­nas con­tra o pre­juí­zo.
90. Um escri­tor só é real­men­te famo­so quan­do seus erros de lin­gua­gem pas­sam a ser con­si­de­ra­dos regras gra­ma­ti­cais.
91. O pro­ble­ma de ficar na fos­sa é que lá só tem cha­to.
92. Não exis­te ten­dên­cia para engor­dar. Existe ten­dên­cia para comer.
93. Cada ide­o­lo­gia tem a Inquisição que mere­ce.
94. Quando uma ide­o­lo­gia fica bem velhi­nha vem morar no Brasil.
95. O pior não é mor­rer. É não poder espan­tar as mos­cas.
96. Há males que vêm pra pior.
97. Quem não tem memó­ria sabe tudo de olvi­do.
98. O mai­or erro de Noé foi não ter mata­do as duas bara­tas que entra­ram na Arca.
99. No Nordeste nu explí­ci­to é esque­le­to.
100. Quando você está fora de si, o pes­so­al vê melhor o que você tem den­tro.

Veja aqui a ínte­gra do Cadernos de Literatura Brasileira n° 15: Millôr Fernandes, publi­ca­do em julho de 2003 pelo Instituto Moreira Salles.

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