Dr. Umberto e Mr. Eco

Literatura

20.02.16

Quem, até 1980, conhe­cia Umberto Eco, um den­so scho­lar que na déca­da ante­ri­or che­gou a pas­sar uma tem­po­ra­da no Brasil dan­do semi­ná­ri­os e cur­sos como tan­tos pro­fes­so­res de pres­tí­gio que dão aulas mun­do afo­ra, jamais o ima­gi­na­ria como um best-sel­ler pla­ne­tá­rio. Muito menos veria nele uma cele­bri­da­de inte­lec­tu­al, per­so­na­gem pro­e­mi­nen­te no uni­ver­so pop que, em seus livros, era obje­to de estu­do e crí­ti­ca. Mas naque­le ano, com a publi­ca­ção de O nome da rosa, a iro­nia, com­pre­en­si­vel­men­te rare­fei­ta em livros teó­ri­cos como A estru­tu­ra ausen­te e Lector in fabu­la, toma­ria as réde­as de sua inco­mum eru­di­ção para pro­du­zir uma obra fic­ci­o­nal que, sem pre­juí­zo da inte­li­gên­cia e da sofis­ti­ca­ção, esten­dia a mão para o cha­ma­do “lei­tor comum”. O médi­co e o mons­tro – você esco­lhe quem é quem – cons­truí­ram a qua­tro mãos uma vida inte­lec­tu­al den­sa e rara, que se encer­ra com per­fei­ção insus­pei­ta com sua mor­te, aos 84 anos.

Formado em filo­so­fia e espe­ci­a­li­za­do em semió­ti­ca, viveu como pou­cos inte­lec­tu­ais a aven­tu­ra da cha­ma­da “ciên­cia dos sig­nos”. Virou, por isso, lei­tu­ra obri­ga­tó­ria num amplo espec­tro de cur­sos uni­ver­si­tá­ri­os, das facul­da­des de Letras aos então nas­cen­tes estu­dos da Comunicação. A ari­dez e o fecha­men­to con­cei­tu­al, pró­pri­os de seu cam­po de estu­do, nun­ca foram defi­ni­do­res de sua per­so­na­li­da­de. Intelectual ati­vo e con­vic­to de seu papel na are­na públi­ca, sem­pre este­ve de olho no que se pas­sa­va além dos muros da uni­ver­si­da­de, seja na par­ti­ci­pa­ção ati­va nos deba­tes polí­ti­cos do momen­to ou na aná­li­se de temas que, até então, eram estra­nhos à aca­de­mia.

Nenhum livro resu­miu melhor esta pos­tu­ra do que Apocalípticos e inte­gra­dos. Publicado em 1964, tra­zia já no titu­lo um acha­do daque­les, que divi­dia em dois times a rela­ção dos inte­lec­tu­ais com a cul­tu­ra de mas­sa. De um lado, a esco­la de Frankfurt, Adorno à fren­te, ven­do na então cha­ma­da “indús­tria cul­tu­ral” o Juízo Final da alta cul­tu­ra e do huma­nis­mo; de outro, a tur­ma que, em tor­no de Marshall McLuhan, apos­ta­va numa aldeia glo­bal inte­gra­da pela tec­no­lo­gia. Mais cita­do do que lido, o que diz mui­to de seu poder de fogo, ori­en­tou por mui­to tem­po os deba­tes do tema, o que tam­bém apon­ta, para o mal e para o bem, para o alcan­ce e a pers­pi­cá­cia de sua ideia cen­tral. Diga-se de pas­sa­gem, a tese não pas­sa­va nem per­to do “Fla x Flu” que suge­ria o seu uso indis­cri­mi­na­do.

Por mui­to moti­vos e às vezes invo­lun­ta­ri­a­men­te, Eco sem­pre este­ve conec­ta­do ao seu tem­po. O nome da rosa, com seus pas­ti­ches e refe­rên­ci­as eru­di­tas mis­tu­ra­das à uma tra­ma poli­ci­al exce­len­te, caía como um luva numa épo­ca que ten­tou-se defi­nir como “pós-moder­na”. Uma épo­ca que volun­ta­ri­a­men­te tra­tou em Viagem à irre­a­li­da­de coti­di­a­na (1983), cole­ção de ensai­os vari­a­dos que em seus melho­res momen­tos tra­ta­va do uni­ver­so dos simu­la­cros (uma pala­vra-cha­ve daque­la épo­ca), a hiper­re­a­li­da­de (outra!) e até o can­dom­blé bra­si­lei­ro. Seus inte­res­ses eram múl­ti­plos e, seu talen­to, extra­or­di­ná­rio o sufi­ci­en­te para dar con­ta deles.

Considerava-se, não sem galho­fa, um jovem escri­tor. Afinal, publi­ca­ra o pri­mei­ro de seus sete roman­ces aos 48 anos. E tal juven­tu­de e fres­cor se devem, a meu ver, à elei­ção sobe­ra­na de um prin­cí­pio de pra­zer como guia da cri­a­ção. E pra­zer, para ele, era qua­se sem­pre asso­ci­a­do à eru­di­ção em seu melhor sen­ti­do, do jogo, do cru­za­men­to de refe­rên­ci­as e momen­tos his­tó­ri­cos mais diver­sos. Por isso, cin­co des­te livros (além de O Nome da rosa, O pên­du­lo de Foucault (1988), A ilha do dia ante­ri­or (1994), Baudolino (2000) e O cemi­té­rio de pra­ga (2011)) são, teo­ri­ca­men­te pelo menos, roman­ces his­tó­ri­cos, mer­gu­lhos em uni­ver­sos par­ti­cu­la­res em que a fabu­la­ção nas­ce das lei­tu­ras e das pes­qui­sas. Em A mis­te­ri­o­sa cha­ma da rai­nha Loana (2004), ele garim­pa refe­rên­ci­as afe­ti­vas dos anos 1940, da publi­ci­da­de aos qua­dri­nhos, para recons­truir a memó­ria de seu per­so­na­gem prin­ci­pal e, no recen­te Número Zero (2015), bate pesa­do, ain­da que em tom far­ses­co, nos vari­a­dos des­ca­la­bros do mun­do jor­na­lís­ti­co de hoje.

Muitas vezes, o enga­ja­men­to con­tra a exces­si­va super­fi­ci­a­li­da­de do mun­do con­tem­po­râ­neo fez Eco pare­cer um con­ser­va­dor. Um con­ser­va­dor que de fato era, pelo menos do pon­to de vis­ta cul­tu­ral e quan­do era pre­ci­são insur­gir-se con­tra o bara­te­a­men­to exces­si­vo da arte, da lite­ra­tu­ra e mes­mo do jor­na­lis­mo. Em Não con­tem com o fim do livro, resul­ta­do da trans­cri­ção e edi­ção de diá­lo­gos com Jean-Claude Carrière, gas­ta tem­po demais, pelo menos a meu ver, numa defe­sa incon­di­ci­o­nal e apai­xo­na­da do papel em rela­ção ao digi­tal, aju­dan­do a ali­men­tar uma das polê­mi­cas mais agua­das das últi­mas déca­das. Um ano depois de lan­çar o livro, admi­tia em entre­vis­ta a Luís Antonio Giron que esta­va bem satis­fei­to com um iPad.

Um dos epi­só­di­os que, para mim, melhor resu­me o espí­ri­to de Umberto Eco está em outra entre­vis­ta con­ce­di­da ao Brasil – a Ubiratan  Brasil, do Estado de S. Paulo – no lan­ça­men­to de Não con­tem com o fim do livro. O pri­mei­ro deta­lhe vem do repór­ter, a quem cha­ma a aten­ção um DVD de Ratatouille no meio de 30 mil livros, mui­tos deles raros. Depois, na con­ver­sa, ele diz que, ten­do a hon­ra­ria de orga­ni­zar uma expo­si­ção no Louvre, um dos gran­de pri­vi­lé­gi­os foi visi­tar o museu vazio, fecha­do. E expli­ca: “Pude tocar a bun­da da Vênus de Milo”.

Dr. Umberto e Mr. Eco, como se vê, sem­pre tra­ba­lha­ram jun­tos em nome de sua melhor cri­a­ção, o extra­or­di­ná­rio Umberto Eco.

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