Duas faces da guerra ao terror

No cinema

19.02.13

 

Cena do fil­me Argo

Quis o des­ti­no — ou a mão invi­sí­vel do mer­ca­do cine­ma­to­grá­fi­co — que dois for­tes con­cor­ren­tes ao Oscar des­te ano fos­sem fil­mes que podem ser englo­ba­dos no tema geral da “guer­ra ao ter­ror”, mais pre­ci­sa­men­te da hos­ti­li­da­de recí­pro­ca entre nor­te-ame­ri­ca­nos e muçul­ma­nos “radi­cais”, a guer­ra nada fria de nos­sa épo­ca.

Ambos são cen­tra­dos em ações espe­ta­cu­la­res capi­ta­ne­a­das pela CIA: em Argo, de Ben Affleck, a reti­ra­da de seis fun­ci­o­ná­ri­os diplo­má­ti­cos ame­ri­ca­nos do Irã con­fla­gra­do pela revo­lu­ção islâ­mi­ca de 1979; em A hora mais escu­ra, de Kathryn Bigelow, o cer­co a Bin Laden e seu supos­to fuzi­la­men­to à quei­ma-rou­pa numa cida­de paquis­ta­ne­sa, em 2011.

http://www.youtube.com/watch?v=_Hvz57_gjto

Três déca­das sepa­ram os dois even­tos, mas nos dois fil­mes per­sis­te um tra­ço comum: a total fal­ta de inte­res­se dos rea­li­za­do­res em conhe­cer o “outro”, em ten­tar, ao menos por um ins­tan­te, se apro­xi­mar de seu pon­to de vis­ta, bus­car com­pre­en­der suas moti­va­ções. O que há é um “nós” e um “eles”, como nos velhos fil­mes de índi­os, ou de ali­e­ní­ge­nas.

Tanto em Argo como em A hora mais escu­ra, todos os muçul­ma­nos que apa­re­cem são faná­ti­cos, estú­pi­dos, trai­ço­ei­ros e cruéis — com exce­ção, cla­ro, dos que se con­ver­te­ram em ali­a­dos dos EUA (como o bom índio Tonto, com­pa­nhei­ro do Zorro do faro­es­te).

http://www.youtube.com/watch?v=WpEQwpOD3dw

Tudo bem. O cine­ma ame­ri­ca­no levou déca­das para come­çar a ten­tar conhe­cer os índi­os, para pas­sar a vê-los como pes­so­as e não como uma hor­da sel­va­gem indis­tin­ta, para reco­nhe­cer que eles tinham direi­tos, carên­ci­as e dese­jos pró­pri­os. Talvez acon­te­ça o mes­mo com o olhar lan­ça­do aos muçul­ma­nos — e aos ára­bes em geral. Tomara que não demo­re tan­to.

Heróis indi­vi­du­ais

De res­to, não há como acu­sar duas gran­des pro­du­ções nor­te-ame­ri­ca­nas de ser extre­ma­men­te… nor­te-ame­ri­ca­nas. Sua visão há de ser, em linhas gerais, a pre­do­mi­nan­te entre seus com­pa­tri­o­tas. E é pre­ci­so reco­nhe­cer que nenhum dos dois fil­mes é des­la­va­da­men­te patri­o­tei­ro a pon­to de escon­der as cul­pas ian­ques no car­tó­rio. No bre­ve pró­lo­go de con­tex­tu­a­li­za­ção his­tó­ri­ca de Argo é dito cla­ra­men­te que os EUA aju­da­ram a der­ru­bar um pre­si­den­te naci­o­na­lis­ta ira­ni­a­no demo­cra­ti­ca­men­te elei­to para ins­ta­lar em seu lugar o cor­rup­to e tirâ­ni­co (mas pró-Ocidente) xá Reza Pahlevi. A hora mais escu­ra, por sua vez, já come­ça com uma ses­são de tor­tu­ra de um pri­si­o­nei­ro muçul­ma­no no pós-11 de setem­bro.

No mais, ape­sar do apa­ra­to mobi­li­za­do nas duas ações, são niti­da­men­te his­tó­ri­as de heróis indi­vi­du­ais: o espe­ci­a­lis­ta em exfil­tra­ti­on Tony Mendez (Ben Affleck) em Argo, a agen­te Maya (Jessica Chastain) em A hora mais escu­ra. Nada mais ame­ri­ca­no.

As dife­ren­ças mais impor­tan­tes entre os dois con­cor­ren­tes estão jus­ta­men­te na lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fi­ca ado­ta­da, no esti­lo de nar­ra­ção, nas refe­rên­ci­as esté­ti­cas.

Argo é, evi­den­te­men­te, mui­to mais leve e agra­dá­vel, até por­que tra­ta de uma ope­ra­ção base­a­da na astú­cia, não na vio­lên­cia, e que teve final feliz. O que o con­ver­te em algo mais que um sim­ples thril­ler é jus­ta­men­te a imbri­ca­ção do tema da polí­ti­ca inter­na­ci­o­nal com o da indús­tria da comu­ni­ca­ção e do entre­te­ni­men­to. Se, como for­mu­lou Von Clausewitz, “a guer­ra é a con­ti­nu­a­ção da polí­ti­ca por outros mei­os”, o cine­ma (e por exten­são a indús­tria cul­tu­ral) é a con­ti­nu­a­ção da guer­ra por outros mei­os.

Ficção da fic­ção

Para tirar do Irã os fun­ci­o­ná­ri­os diplo­má­ti­cos ame­ri­ca­nos, a CIA engen­drou um pla­no ousa­do: simu­lar a pro­du­ção de um fil­me cana­den­se de fic­ção cien­tí­fi­ca naque­le país. Esse entre­cho — real — ser­ve a Affleck para brin­car com Hollywood como o lugar da fabri­ca­ção de men­ti­ras. Toda essa ver­ten­te do fil­me — entre­la­ça­da por uma mon­ta­gem hábil à nar­ra­ção da cri­se em Washington e no Irã — é o que ele traz de mais diver­ti­do. A dupla de pica­re­tas hollywo­o­di­a­nos encar­na­da por Alan Arkin e John Goodman é res­pon­sá­vel pelas falas mais memo­rá­veis, como esta: “Se você quer ven­der uma men­ti­ra, ponha a impren­sa para ven­dê-la por você”. Ao que tudo indi­ca, uma fra­se recor­ren­te em Hollywood.

Tanto na linha cômi­ca como no sus­pen­se e no melo­dra­ma fami­li­ar, a matriz assu­mi­da deArgo é o cine­ma nar­ra­ti­vo clás­si­co nor­te-ame­ri­ca­no, sobre­tu­do o dos anos 1970, com sua sin­ta­xe um tan­to mais frou­xa e influ­en­ci­a­da pela tele­vi­são (e o sím­bo­lo des­se declí­nio é o letrei­ro escan­ga­lha­do de Hollywood na mon­ta­nha).

Já a refe­rên­cia que Kathryn Bigelow pare­ce que­rer mime­ti­zar é a das repor­ta­gens tele­vi­si­vas em tem­po real. A ânsia de pare­cer docu­men­tal che­ga a sacri­fi­car a inte­li­gi­bi­li­da­de e até a visi­bi­li­da­de do que é mos­tra­do. Na sequên­cia cru­ci­al da inva­são do bun­ker do supos­to Bin Laden, não se enxer­ga pra­ti­ca­men­te nada. Faltou apos­tar no ilu­si­o­nis­mo do cine­ma, na capa­ci­da­de que temos de acre­di­tar que uma cena está sen­do ilu­mi­na­da só por uma vela mes­mo que haja poten­tes holo­fo­tes e refle­to­res no set. Enfim, se o mode­lo de Argo é a velha e boa Hollywood, a de A hora mais escu­ra é a CNN.

Ideologia escon­di­da

Duas últi­mas obser­va­ções crí­ti­cas — e quem não qui­ser saber o final do fil­me de Ben Affleck pode parar por aqui. Há em Argo uma ima­gem elo­quen­te, qua­se um carim­bo de con­ser­va­do­ris­mo ame­ri­ca­no: a do abra­ço entre o herói retor­na­do e sua ama­da, com a ban­dei­ra das estre­las e lis­tras tre­mu­lan­do ao fun­do. Clint Eastwood, ele pró­prio repu­bli­ca­no e con­ser­va­dor, usou a mes­ma ico­no­gra­fia no final de Sobre meni­nos e lobos, mas com dolo­ro­sa iro­nia. Uma boa saca­da de Argo, por outro lado, é o de exi­bir em des­ta­que, no final, os bone­qui­nhos de Star Wars e outras sagas de fic­ção cien­tí­fi­ca do filho do pro­ta­go­nis­ta. A fan­ta­sia do meni­no e o ofí­cio do pai fazem par­te da mes­ma mito­lo­gia do triun­fo, da mes­ma lógi­ca da con­quis­ta e da expan­são. Até que pon­to o fil­me de Affleck é uma refle­xão crí­ti­ca sobre esse meca­nis­mo e até que pon­to se limi­ta a rei­te­rá-lo, tal­vez seja cedo para res­pon­der.

Já em A hora mais escu­ra, o que há de mais ide­o­ló­gi­co é a con­ver­são de esco­lhas polí­ti­cas e éti­cas em ques­tões mera­men­te téc­ni­cas. Por exem­plo: mais de uma vez se faz refe­rên­cia no fil­me à fal­sa ale­ga­ção de que o Iraque tinha armas de des­trui­ção em mas­sa, mas sem­pre como ten­do sido um ino­cen­te erro téc­ni­co, quan­do é qua­se cer­to que o que hou­ve foi má fé, para jus­ti­fi­car a inva­são mili­tar do país. Ainda mais peri­go­sa é a pas­sa­gem em que a inves­ti­ga­ção sobre o para­dei­ro de Bin Laden pare­ce emper­rar por­que não se pode mais usar méto­dos de inter­ro­ga­tó­rio pesa­do (leia-se tor­tu­ra). O espec­ta­dor é qua­se indu­zi­do a lamen­tar que os ven­tos da polí­ti­ca tenham muda­do e que Obama tenha sido obri­ga­do a fre­ar a bar­bá­rie de seus com­pa­tri­o­tas.

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