Duas figuras

Quadro a quadro

13.01.11

Quem duvi­dar de que nos rodeia o enig­ma ou de que somos nós mes­mos o enig­ma, uma vez que fei­tos de cor­po, tem­po e dese­jo, bas­ta olhar para este qua­dro de Ismael Nery.

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Artífice con­tu­maz de figu­ras repe­ti­das que se iden­ti­fi­cam, super­põem e con­fun­dem no per­pe­tu­um mobi­le do jogo amo­ro­so no qual se fun­dem e dis­sol­vem os indi­ví­du­os em algo mai­or que os pró­pri­os aman­tes, Ismael é o mais mis­te­ri­o­so de nos­sos pin­to­res. Quis ou podia ter sido mui­tos: o pin­tor nele se casa­va ao filó­so­fo,  ao arqui­te­to, ao bai­la­ri­no, ao mili­tan­te, ao poe­ta. E de fato pin­ta­va com par­tes de todos eles, expri­min­do em suas telas sua extra­or­di­ná­ria e com­ple­xa per­so­na­li­da­de, numa atmos­fe­ra visi­o­ná­ria de recor­rên­ci­as assi­na­la­das pela mís­ti­ca do encon­tro e da ilu­mi­na­ção.  O sur­re­a­lis­mo e Chagall, assim como os recor­tes geo­mé­tri­cos do cubis­mo, o sopro poé­ti­co do expres­si­o­nis­mo ou os espa­ços à manei­ra de Chirico e da pin­tu­ra meta­fí­si­ca, não bas­tam para expli­car o notá­vel lega­do de sua cur­ta exis­tên­cia. Morreu de tuber­cu­lo­se pul­mo­nar, sem com­ple­tar os 34 anos, em 6 de abril de 1934 (a noi­te espan­to­sa de seu veló­rio, quan­do se deu a con­ver­são de Murilo Mendes ao cato­li­cis­mo, foi admi­ra­vel­men­te des­cri­ta por Pedro Nava em suas Memórias ). Mas a obra que res­tou des­sa vida inten­sa e lumi­no­sa, que­bra­da tão cedo, con­ti­nua um aber­to desa­fio.

Tão diver­so da pin­tu­ra moder­nis­ta com as mar­cas do naci­o­na­lis­mo dos anos de 1920 e 30, ela­bo­rou, na ver­da­de, uma sín­te­se pic­tó­ri­ca sin­gu­lar, com sua mis­tu­ra con­vul­si­va de cato­li­cis­mo, ero­tis­mo e refor­ma soci­al, e sua obses­são pelo cor­po, dis­se­ca­do até as entra­nhas e trans­fi­gu­ra­do em ideia e sonho. Seu sen­ti­do da trans­cen­dên­cia pare­ce bro­tar natu­ral e sen­su­al­men­te de for­mas con­cre­tas de nos­so mun­do, toca­do, no entan­to, pelo insó­li­to, no limi­ar de estra­nha reve­la­ção. Para Ismael, o estra­nha­men­to do artis­ta pare­cia aná­lo­go ao do cris­tão que se sen­te um estra­nho no mun­do e podia fun­ci­o­nar, da mes­ma for­ma que o amor e o sonho, como aba­los da indi­vi­du­a­li­da­de, à manei­ra de uma embri­a­guez pro­pí­cia à reve­la­ção. Assemelha-se, por­tan­to, em par­te,  às ilu­mi­na­ções pro­fa­nas dos sur­re­a­lis­tas, pro­je­tan­do-se, porém, como uma ins­pi­ra­ção de base mate­ri­a­lis­ta e antro­po­ló­gi­ca às mai­o­res abs­tra­ções e à mais alta esfe­ra espi­ri­tu­al. Suas figu­ras des­li­zan­tes, a labi­li­da­de dos sexos, seu ero­tis­mo de base são tal­vez menos índi­ces de um gozo sen­sí­vel, que ras­ti­lhos de uma ilu­mi­na­ção trans­cen­den­te, sem esma­e­cer seu poder de assom­bro e seu chão his­tó­ri­co. Assim nes­te qua­dro à vis­ta, mais uma vez nos des­con­cer­ta, pon­do-nos a olho desar­ma­do dian­te de sua secre­ta e insi­nu­an­te poe­sia, que nas­ce do encon­tro de ima­gens con­cre­tas do mun­do, mas que pare­cem tran­si­das por um ful­gu­ran­te mis­té­rio.

Duas mulhe­res nos con­tem­plam, ten­do ao fun­do e mais alto, à direi­ta, em for­mas cur­vas e gene­ro­sas, a ima­gem hori­zon­tal do nu, natu­ral e sem qual­quer pudor, mulher com o sexo expos­to, recos­ta­da na man­cha rubra que é pró­pria sen­su­a­li­da­de encar­na­da na arte, em des­ta­que no qua­dro sobre a pare­de escu­ra da casa, mul­ti­pli­ca­da, por sua vez, à esquer­da, nes­sa arqui­te­tu­ra ver­ti­cal de nos­so dese­jo que é a cida­de, em cores vivas, pro­je­ta­da con­tra o céu negro.

São duas figu­ras geo­mé­tri­cas, seve­ras e hir­tas em con­tras­te com o repou­sa­do aban­do­no do cor­po nu do qua­dro detrás. Mas con­tras­tam tam­bém em seu inte­ri­or pela opo­si­ção de luz e som­bra, con­tra­pon­do-se ain­da entre si, pela altu­ra, pelas cores, pela ida­de, pelos ges­tos, como duas gera­ções de mulhe­res em par­ce­ria e suces­são, como mãe e filha ou quem sabe duas aman­tes, que a mão aco­lhe­do­ra da figu­ra mais alta e escu­ra pare­ce indi­ci­ar, ao envol­ver num abra­ço a moça aloi­ra­da do pri­mei­ro pla­no, dei­xan­do-lhe ape­nas um seio esfé­ri­co à mos­tra. Essa figu­ra supe­ri­or, com cabe­los cur­tos à la gar­çon­ne , de ar dúbio entre o femi­ni­no e o mas­cu­li­no, par­ti­da pela som­bra, é a úni­ca que tem os olhos visí­veis — as pupi­las negras con­tra o fun­do cla­ro se opõem às órbi­tas pre­tas e vazi­as da mais jovem. Parece pos­suir um conhe­ci­men­to que o livro ou o qua­dro negro que sus­ten­ta com a mão direi­ta cor­ro­bo­ra. Talvez este­ja pres­tes a nos comu­ni­car o que res­guar­da em silên­cio ou a nos inter­ro­gar com o saber que escon­de na impas­si­bi­li­da­de hie­rá­ti­ca de estra­nha viden­te.

Os olhos de ver­ru­ma que um dia Murilo Mendes atri­buiu ao esta­do per­ma­nen­te de pes­qui­sa de seu gran­de ami­go Ismael con­ti­nu­am nos miran­do de den­tro des­sa mulher, ver­ti­gi­no­sa e ter­rí­vel como a esfin­ge. Mas, ao con­trá­rio daque­le mons­tro gre­go, somos nós que mer­gu­lha­mos per­ple­xos no abis­mo, ao ten­tar enten­der o que dizem os seus olhos.