Duas vezes Agamben: preferia não

Colunistas

20.05.15

A pro­fun­da cri­se da soci­e­da­de con­tem­po­râ­nea tem a ver com o ques­ti­o­na­men­to da legi­ti­mi­da­de e da lega­li­da­de das ins­ti­tui­ções. É a par­tir da con­fu­são entre essas duas dimen­sões, des­cri­ta pelo filó­so­fo ita­li­a­no Giorgio Agamben em O mis­té­rio do mal (Boitempo/Edusc), e da potên­cia do não, pen­sa­da por ele em Bartebly, ou da con­tin­gên­cia (Autêntica), que pre­ten­do pen­sar o entre­la­ça­men­to entre polí­ti­ca e ati­vis­mo nas redes soci­ais, onde mui­tos de nós expe­ri­men­ta­mos o des­con­for­to de ser inter­pe­la­dos por dis­cur­sos de ódio. “Nós” quer dizer nós-pes­so­as-polí­ti­cas-com-atu­a­ção-públi­ca-em-redes-soci­ais, um lon­go sin­tag­ma para desig­nar quem está no Facebook nes­sa bati­da “cur­te-com­par­ti­lha-comen­ta”. Minha linha do tem­po indi­ca que cri­ei meu per­fil há exa­tos sete anos, e des­de então este tem sido um espa­ço pri­vi­le­gi­a­do – e mes­mo ine­xo­rá­vel – de atu­a­ção públi­ca. Diante dos deba­tes vazi­os de con­teú­do ou argu­men­tos, da mera dis­se­mi­na­ção de ódio e pre­con­cei­to, o “pre­fe­ria não” ain­da é a melhor res­pos­ta.

O filósofo italiano Giorgio Agamben

Agamben escre­veu O mis­té­rio do mal para tra­tar da renún­cia do papa Bento XVI e da con­fu­são entre cri­se de lega­li­da­de e cri­se de legi­ti­mi­da­de da Igreja Católica, cober­ta de denún­ci­as de cor­rup­ção. “Se é tão pro­fun­da e gra­ve a cri­se que nos­sa soci­e­da­de está atra­ves­san­do, é por­que ela não só ques­ti­o­na a lega­li­da­de das ins­ti­tui­ções, mas tam­bém sua legi­ti­mi­da­de; não só, como se repe­te mui­to fre­quen­te­men­te, as regras e as moda­li­da­des do exer­cí­cio do poder, mas o pró­prio prin­cí­pio que o fun­da­men­ta e o legi­ti­ma”, escre­ve o filó­so­fo.

Em outras pala­vras, ins­ti­tui­ções não podem mais estar fun­da­das ape­nas na sua lega­li­da­de. A rigor, toda ins­ti­tui­ção que pre­ten­da se afir­mar ape­nas sua lega­li­da­de não tem legi­ti­mi­da­de. A legi­ti­mi­da­de, como não é dada, é cons­truí­da no cha­ma­do teci­do soci­al. A vali­da­de dos dis­cur­sos – e não por aca­so tam­bém a explo­são dos dis­cur­sos – depen­de tan­to da lega­li­da­de quan­to da legi­ti­mi­da­de, e a cri­se, segun­do Agamben, se dá por esta dife­ren­ça aber­ta entre lega­li­da­de e legi­ti­mi­da­de. O resul­ta­do é que supos­ta­men­te se pas­sa a poder afir­mar ou que todo dis­cur­so tem valor – por que é tão legí­ti­mo quan­to qual­quer outro – ou que nenhum dis­cur­so tem valor – por­que só apoia sua pre­ten­são de legi­ti­mi­da­de em si mes­mo.

É des­sa imen­sa con­fu­são que bro­tam, por exem­plo, incon­tá­veis deba­tes vazi­os de con­teú­do. Ao invés de argu­men­tos, o que se lê na gran­de mai­o­ria das cai­xas de comen­tá­ri­os é ape­nas a afir­ma­ção da legi­ti­mi­da­de do que se diz, inde­pen­den­te­men­te do dito. Como não há ins­ti­tui­ção que pos­sa arbi­trar sobre a legi­ti­mi­da­de de cada dis­cur­so, o que fre­quen­te­men­te aca­ba acon­te­cen­do é uma total ausên­cia de que­rer-dizer, em nome da mera afir­ma­ção do poder-dizer, pro­du­zin­do um diá­lo­go de sur­dos.

Se pos­so me valer dos argu­men­tos de Agamben para refle­tir sobre o que acon­te­ce nas redes soci­ais é por­que, sem legi­ti­mi­da­de, com sua lega­li­da­de sob sus­pei­ta, os con­teú­dos da igre­ja aca­ba­ram cain­do num vazio de sig­ni­fi­ca­do. A cha­ma­da “cri­se dos valo­res”, atri­buí­da a um “rela­ti­vis­mo pós-moder­no” tem ori­gem nes­ta con­fu­são per­ce­bi­da por Agamben. Em outras pala­vras, o “rela­ti­vis­mo pós-moder­no” não me pare­ce que seja a ori­gem do esva­zi­a­men­to dos dis­cur­sos – inclu­si­ve os ins­ti­tu­ci­o­nais – mas, antes, o seu prin­ci­pal sin­to­ma, resul­ta­do da cri­se per­ce­bi­da pelo pen­sa­dor ita­li­a­no. De cer­ta for­ma, ao diag­nos­ti­car a cri­se da Igreja Católica que levou à renún­cia de Bento XVI e à pos­se do papa Francisco, Agamben tam­bém nos aju­da a enten­der por que o suces­sor tem afir­ma­do a legi­ti­mi­da­de de seu dis­cur­so em sua ori­gem fran­cis­ca­na, como sím­bo­lo de um retor­no aos fun­da­men­tos his­tó­ri­cos e, diga­mos, ori­gi­nais, da igre­ja.

O mis­té­rio do mal che­ga às livra­ri­as qua­se ao mes­mo tem­po em que Bartebly, ou da con­tin­gên­cia, uma luxu­o­sa edi­ção da Autêntica acom­pa­nha­da de tra­du­ção da nove­la Bartleby, o escre­ven­te – uma his­tó­ria de Wall Street, de Herman Melville (ante­ri­or­men­te publi­ca­da tam­bém em luxu­o­sa edi­ção pela CosacNaify). Neste tex­to, Agamben apre­sen­ta sua lei­tu­ra para a magis­tral nove­la pen­san­do a dife­ren­ça entre os ver­bos poder, que­rer e dever. O escri­vão que a todas as deman­das res­pon­de com “pre­fe­ria não” é per­ce­bi­do pelo filó­so­fo como sím­bo­lo da rejei­ção ao dever, ao impe­ra­ti­vo cate­gó­ri­co kan­ti­a­no – aja como se tua máxi­ma pudes­se se tor­nar máxi­ma uni­ver­sal – e iden­ti­fi­ca­do com a potên­cia do não, o poder de não agir por sub­mis­são ao dever. O escri­vão tam­bém é, para Agamben, a figu­ra da con­tin­gên­cia abso­lu­ta, daque­le que pode ser ou não ser. A ideia é que o “pre­fe­ria não” car­re­ga uma potên­cia que, para exis­tir, pre­ci­sa não se con­su­mar em ato, pre­ci­sa con­ti­nu­ar a não ser.

Aqui, os adep­tos do diag­nós­ti­co sim­plis­ta de um mero “rela­ti­vis­mo pós-moder­no” ficam ain­da mais expos­tos, por­que Melville, Agamben e tam­bém Carl Schmitt nos lem­bram que fazer polí­ti­ca é antes de tudo exer­cer o direi­to de esco­lher seu ini­mi­go. Cair nos dis­cur­sos de con­teú­do vazio é se dei­xar esco­lher pelo ini­mi­go quan­do, para a gran­de mai­o­ria deles, a úni­ca res­pos­ta poten­te é “pre­fe­ria não”.

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