Ele é de esquerda?”

Colunistas

06.01.16

Falta um Tarantino no Brasil.  O oita­vo fil­me do dire­tor ame­ri­ca­no, Os Oito Odiados, é um faro­es­te no sen­ti­do mais abran­gen­te do ter­mo (o fil­me é ambi­en­ta­do em Wyoming, em um arma­zém iso­la­do nas mon­ta­nhas duran­te uma nevas­ca, ter­ra de nin­guém) e tra­ta de racis­mo, assim como o pre­ce­den­te, Django Livre. O país aca­ba de sair de uma guer­ra civil san­gui­no­len­ta para extir­par a escra­vi­dão, mas o racis­mo con­ti­nua gras­san­do em ter­ri­tó­rio naci­o­nal. (Tarantino dis­se recen­te­men­te que a ban­dei­ra con­fe­de­ra­da, sulis­ta, é a suás­ti­ca dos Estados Unidos.)

Cena de Os oito odi­a­dos

Passei o fim de ano na casa de ami­gos na praia. Na vés­pe­ra do ano-novo, um casal de vizi­nhos veio nos visi­tar. Mal tinham che­ga­do e o mari­do já esta­va me expli­can­do o que é tota­li­ta­ris­mo: “É quan­do tenho razões legais para pedir o afas­ta­men­to da pre­si­den­te e cha­mam a isso de gol­pe”. O vizi­nho se apre­sen­ta­va como um libe­ral, defen­sor do fede­ra­lis­mo sem a inter­fe­rên­cia do Estado: “Os Estados Unidos é que fize­ram a coi­sa cer­ta. Lá, o Estado não inter­fe­re nas deci­sões dos esta­dos. Cada esta­do tem auto­no­mia para defi­nir suas polí­ti­cas e usar seus impos­tos do jei­to que qui­ser”.

Embora entre as minhas reso­lu­ções de ano-novo esti­ves­se a de nun­ca mais me meter em dis­cus­sões nas quais não há a menor chan­ce de che­gar a lugar algum, achei por bem inter­vir com uma pon­de­ra­ção dis­cre­ta. Eu dis­se: “Claro, mas se o seu esta­do deci­dir que quer con­ti­nu­ar sen­do racis­ta, por exem­plo, o Estado tem o dever de inter­vir, para que você não siga dis­cri­mi­nan­do entre cida­dãos de pri­mei­ra e segun­da clas­se. A mes­ma lógi­ca ser­ve para o caso de seu esta­do se recu­sar a casar homos­se­xu­ais depois de a Suprema Corte ter se deci­di­do a favor do casa­men­to gay. É pre­ci­so uma auto­ri­da­de fede­ral, supe­ri­or, para impor a igual­da­de de direi­tos, decre­ta­da por lei, para todos os cida­dãos”.

Sim, mas veja bem”, res­pon­deu o vizi­nho. “Veja o que está acon­te­cen­do com todos esses exa­ge­ros. Veja as cotas, por exem­plo. Tudo isso já está sen­do ques­ti­o­na­do. Aqui no Brasil nós temos o quê? Seis por cen­to de negros? As cotas enco­brem o ver­da­dei­ro pro­ble­ma, que é a desi­gual­da­de soci­al. As cotas dei­xam de lado quem real­men­te pre­ci­sa.”

Um per­fil come­ça­va a se deli­ne­ar. O vizi­nho era des­sas pes­so­as que pas­sa­ram a ver a pobre­za e a desi­gual­da­de soci­al do país no dia em que foram ins­ti­tuí­das as cotas raci­ais.

Seis por cen­to?”, eu per­gun­tei. “O res­to são mula­tos”, o vizi­nho res­pon­deu.

Pesquisas nos Estados Unidos mos­tram que o apoio às polí­ti­cas de ação afir­ma­ti­va (cotas etc.) varia con­for­me a pro­xi­mi­da­de ou iden­ti­fi­ca­ção com o gru­po que essas ações visam defen­der. A mai­o­ria dos ame­ri­ca­nos é a favor de ações afir­ma­ti­vas que pro­te­jam as mulhe­res de desi­gual­da­des nos empre­gos e dis­tor­ções nos salá­ri­os. Mas esse apoio dimi­nui em rela­ção aos negros e ain­da mais em rela­ção aos gays, o que faz pen­sar que o pro­ble­ma com as cotas tal­vez não sejam as cotas, mas quem elas pro­te­gem.

Como a con­ver­sa na praia não avan­ça­va, deci­di com­pra­zer com o vizi­nho. Disse que suas idei­as esta­vam se tor­nan­do nor­ma. Ele encheu o pei­to e res­pon­deu orgu­lho­so: “Nós está­va­mos espe­ran­do por isso há anos!”. E, para não estra­gar o cli­ma de réveil­lon, arre­ma­tei, sor­rin­do: “Só peço que você não se esque­ça de mim quan­do esti­ver no poder e me dei­xe sair daqui ou, se pos­sí­vel, me arru­me outra naci­o­na­li­da­de, por favor”.

Nessa hora, a mulher do vizi­nho, que já esta­va de ore­lha em pé e ten­ta­va acom­pa­nhar tudo de lon­ge, se apro­xi­mou: “Nós que­re­mos ficar pra orga­ni­zar, pra pôr o país em ordem”. “Deixo vocês orga­ni­za­rem tudo sozi­nhos”, res­pon­di. “Só que­ro poder ir embo­ra antes.”

Ele é de esquer­da?”, a mulher per­gun­tou ao mari­do. E, ao se des­pe­dir dos outros, sem res­pos­ta para sua per­gun­ta, virou as cos­tas e saiu sem falar comi­go.

O fil­me de Tarantino não pou­pa pia­das e injú­ri­as racis­tas, qua­se sem­pre fazen­do a sala gar­ga­lhar. É um méto­do arris­ca­do, mas mui­to poten­te, de levar o racis­mo a nocau­te – pela exaus­tão, pela pró­pria tru­cu­lên­cia e pela pró­pria imbe­ci­li­da­de. É o inver­so do poli­ti­ca­men­te cor­re­to. Em vez de proi­bir e cer­ce­ar, Tarantino expõe o racis­mo ao esgo­ta­men­to, ao enjoo de si, ao ridí­cu­lo. Faz o mes­mo com a vio­lên­cia. Pouco a pou­co, o espec­ta­dor que ri (eu entre eles) vai rin­do cada vez mais ama­re­lo.

No fil­me, o úni­co pro­ta­go­nis­ta negro, um caça­dor de recom­pen­sas que nem de lon­ge se pode­ria con­si­de­rar víti­ma ou inde­fe­so, leva con­si­go uma car­ta que rece­beu do pre­si­den­te Lincoln. É um arti­fí­cio con­ce­bi­do para se pro­te­ger, como indi­ví­duo negro, sozi­nho em ter­ra de nin­guém, onde impe­ra a lei do mais for­te. A car­ta sim­bo­li­za a auto­ri­da­de do Estado e sua efi­cá­cia não é pou­ca, mes­mo na mão de um per­so­na­gem capaz de impor por con­ta pró­pria a sua lei, na fal­ta de outra.

Na ses­são lota­da em que eu esta­va, havia um úni­co espec­ta­dor negro, um senhor de cabe­los bran­cos, que saiu cabis­bai­xo do cine­ma, com uma expres­são que eu ten­de­ria a qua­li­fi­car de cons­ter­na­da. É pos­sí­vel que se hou­ves­se um Tarantino no Brasil, nin­guém ris­se das pia­das dele. É pos­sí­vel que nem che­gas­sem a assis­tir a seus fil­mes, se fos­sem fala­dos em por­tu­guês e con­tas­sem a his­tó­ria do racis­mo nes­te país, por­que há quem diga que não exis­tem negros no Brasil.

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