Elogio de Sabbath

Literatura

24.09.15

— Nunca foi tão fácil dizer o que você real­men­te é, Mickey.
— Ora, fra­cas­sa­do cai bem.
— Mas fra­cas­sa­do em quê?
— Fracassado em fra­cas­sar, por exem­plo.
— Você sem­pre se opôs a ser um ser huma­no, des­de o prin­cí­pio.
— Ao con­trá­rio — retru­cou Sabbath. — Quando se tra­ta­va de ser um ser huma­no, eu sem­pre dizia: “Estou aí mes­mo”.

 

Há vin­te anos, em setem­bro de 1995, Philip Roth publi­ca­va O tea­tro de Sabbath, que con­si­de­ro o pon­to alto de uma car­rei­ra que ele decla­rou encer­ra­da em 2012, depois de mais de trin­ta livros. Evocar Sabbath duas déca­das mais tar­de é mais do que mera­men­te cele­brar a matu­ri­da­de de um clás­si­co con­tem­po­râ­neo. Num momen­to em que o mora­lis­mo ame­a­ça a lite­ra­tu­ra de for­ma seve­ra, em que os aler­tas dos que defen­dem a liber­da­de da fic­ção ganham urgên­cia, res­ga­tar sua pro­vo­ca­ção é uma neces­si­da­de.    

 Ao lado de Alexander Portnoy, Mickey Sabbath é um dos pro­ta­go­nis­tas mais emble­má­ti­cos de Philip Roth. As carac­te­rís­ti­cas que os dis­tin­guem — jus­ta­men­te seus for­tes con­tor­nos tra­gicô­mi­cos — não são as mes­mas de Nathan Zuckerman ou David Kepesh. Como Portnoy, Sabbath é ao mes­mo tem­po um cre­ti­no e um fra­cas­sa­do. A dife­ren­ça entre um e outro resi­de na inten­si­da­de. Perto de Mickey Sabbath, em quem os tra­ços nega­ti­vos são refor­ça­dos até resul­ta­rem em um retra­to gro­tes­co, o punhe­tei­ro Portnoy é pudi­co e sofis­ti­ca­do.  

Numa cari­ca­tu­ra, não há pro­fis­são mais ade­qua­da a um per­so­na­gem mani­pu­la­dor do que a de tite­rei­ro, e não há melhor for­ma de assi­na­lar sua der­ro­ca­da do que repre­sen­tá-lo artrí­ti­co, já apo­sen­ta­do. Sexagenário, resi­din­do na paca­ta Madamaska Falls, Sabbath espe­ra pou­co ou nada do futu­ro. O casa­men­to com a ex-alcoó­la­tra Roseanna é um cam­po mina­do de recri­mi­na­ções e res­sen­ti­men­tos. (Quase não há casa­men­tos feli­zes na obra de Philip Roth.) Uma rara fon­te de satis­fa­ção é o caso de tre­ze anos com uma mulher de meia-ida­de, a volup­tu­o­sa Drenka Balich. 

A mor­te de Drenka, nas pri­mei­ras pági­nas do livro, con­so­me o que res­ta­va da sani­da­de de Mickey Sabbath. Mais do que nun­ca, só o pas­sa­do pare­ce atra­en­te ao pro­ta­go­nis­ta. Quase em sur­to, Sabbath pega sua cha­ran­ga e vai a Nova York a fim de revi­ver ou relem­brar os anos de juven­tu­de. O lei­tor tem um vis­lum­bre do rapaz cor­pu­len­to que pro­mo­via seu tea­tro de fan­to­ches nas ruas movi­men­ta­das em tro­ca de algu­mas moe­das — quan­do foi acu­sa­do de inde­cên­cia, uma das mui­tas acu­sa­ções seme­lhan­tes de que seria alvo ao lon­go da vida. 

Mickey Sabbath desa­fia o bom sen­so do iní­cio ao fim da pere­gri­na­ção, dei­xan­do o lei­tor, ou o voyeur, estar­re­ci­do e inco­mo­da­do. No tea­tro que Mickey Sabbath apre­sen­ta na juven­tu­de, “a atmos­fe­ra era, de for­ma insi­nu­an­te, anti­mo­ral, vaga­men­te ame­a­ça­do­ra e, ao mes­mo tem­po, de um humor feroz”. É a mes­ma atmos­fe­ra do roman­ce. Numa car­rei­ra coa­lha­da de polê­mi­cas, não há pro­vo­ca­ção mai­or e mais explí­ci­ta do que Sabbath, quan­do Roth desa­fi­ou públi­co e crí­ti­ca de for­ma deli­be­ra­da, qua­se colé­ri­ca. Com suces­so, pre­viu boa par­te das rea­ções.   

Como qua­se todos os livros do autor — aqui, por con­ta do debo­che inequí­vo­co que per­meia toda a tra­ma —, O tea­tro de Sabbath dei­xou a crí­ti­ca lite­rá­ria femi­nis­ta ensan­de­ci­da. No afã de colo­car o autor no pare­dão e abrir fogo, no entan­to, as crí­ti­cas mais exal­ta­das dei­xa­ram esca­par algo que me pare­ce essen­ci­al. Vejo em Sabbath, o que acre­di­to ser um de seus trun­fos, um incen­ti­vo para que as mulhe­res tre­pem gos­to­sa­men­te.  

Drenka ado­ra sexo, daí a frus­tra­ção com o mari­do pou­co ou nada efi­ci­en­te. Por sen­tir von­ta­de, Drenka tran­sa com vári­os homens no mes­mo dia. Usa e abu­sa de um “ele­tri­cis­ta bur­ro”. Ninguém podia acu­sá-la, diz Mickey Sabbath, de “ser tími­da peran­te suas fan­ta­si­as”. Um sujei­to sen­te medo de Drenka por ela ser, nas pala­vras da pró­pria per­so­na­gem, “tão livre”. Enquanto o deba­te em tor­no da liber­ta­ção sexu­al da mulher cor­re sol­to, Drenka, entre ingê­nua e des­pu­do­ra­da, pre­fe­re a ação. Drenka igno­ra fala­tó­ri­os, rea­ções, bochi­chos, comen­tá­ri­os, teo­ri­as, hesi­ta­ções. Dona de uma libi­do fran­ca rara­men­te atri­buí­da a uma per­so­na­gem do sexo femi­ni­no, Drenka é tão des­pren­di­da quan­to quer ser.

Não se pode cul­par algu­mas pes­so­as pela manei­ra como igno­ram ou con­de­nam a licen­ci­o­si­da­de de Drenka. É difí­cil enxer­gar além em um roman­ce que deli­neia, de for­ma nada lison­jei­ra, sua cari­ca­tu­ra — e me refi­ro à cari­ca­tu­ra de um femi­nis­mo que cada vez mais assu­me os con­tor­nos exa­ge­ra­dos atri­buí­dos pelo autor, fazen­do com que as insa­ni­da­des des­cri­tas em Sabbath pare­çam qua­se rea­lis­tas. Numa pas­sa­gem, o pro­ta­go­nis­ta des­co­bre uma crí­ti­ca a ver­sos de Yeats segun­do a qual ape­nas “os monu­men­tos fáli­cos” do poe­ta foram con­si­de­ra­dos, ten­do o irlan­dês igno­ra­do a visão femi­ni­na. 

Em Sabbath, Philip Roth apro­vei­ta para debo­char não só da crí­ti­ca lite­rá­ria femi­nis­ta, mas da ala mais radi­cal e puri­ta­na do movi­men­to. “As boas mulhe­res con­tra os homens maus que as opri­mem. O defen­sor da ide­o­lo­gia é puro, bom, lim­po, e os outros são nefas­tos. Mas sabe quem é mes­mo nefas­to? Aquele que ima­gi­na que é puro, esse sim é nefas­to”, diz um rapaz na clí­ni­ca em que Roseanna é inter­na­da após sofrer um colap­so.

Para alfi­ne­tar quem afir­ma que Philip Roth odeia as mulhe­res, o que moti­vou o colap­so de Roseanna foi jus­ta­men­te o com­por­ta­men­to ina­de­qua­do do mari­do. No pas­sa­do, quan­do minis­tra­va uma ofi­ci­na de fan­to­ches em uma uni­ver­si­da­de, Mickey Sabbath foi acu­sa­do de asse­di­ar uma alu­na. O que mui­tos con­si­de­ra­ram um abu­so inequí­vo­co, o pro­ta­go­nis­ta enxer­ga­va como uma aula de refor­ço, cujo obje­ti­vo era ensi­nar uma jovem repri­mi­da “a falar obs­ce­ni­da­des”.

Sabbath não com­pre­en­de a rea­ção ultra­ja­da dos demais, uma vez que o caso se deu “cin­quen­ta e cin­co anos depois de Henry Miller, ses­sen­ta anos depois de D. H. Lawrence, oiten­ta anos depois de James Joyce, duzen­tos anos depois de John Cleland, tre­zen­tos anos depois de John Wilmot, o segun­do con­de de Rochester — para não falar de qua­tro­cen­tos anos depois de Rabelais, dois mil anos depois de Ovídio e dois mil e duzen­tos anos depois de Aristófanes”.

O roman­ce segue a mes­ma linha. Pelo ridí­cu­lo e pelo escra­cho, mas tam­bém pelo dra­má­ti­co e pelo ero­tis­mo em esta­do bru­to, pro­va jus­ta­men­te um libe­lo cada vez mais bem-vin­do con­tra o puri­ta­nis­mo — o que seria repe­ti­do cin­co anos depois em A mar­ca huma­na. Se não for con­de­na­do à dana­ção eter­na nas pró­xi­mas déca­das, Sabbath de fato pode ensi­nar mui­ta coi­sa, tan­to a homens quan­to a mulhe­res.

Philip Roth e a capa da primeira edição original de O teatro de Sabbath 

Mickey Sabbath tem um irmão mais velho aten­ci­o­so, uma mãe ide­a­li­za­da e um pai esfor­ça­do. Mas ele não é o bom meni­no judeu e, adul­to, tam­pou­co se trans­for­ma em um homem das letras, como Zuckerman ou Kepesh. Sabbath é aqui­lo que os per­so­na­gens mais impor­tan­tes de Philip Roth, inca­pa­zes de aban­do­nar intei­ra­men­te cer­tos prin­cí­pi­os éti­cos, de renun­ci­ar à civi­li­da­de, não con­se­gui­ram ser. Sabbath e o irmão Morty “cos­tu­ma­vam rir dos caras de Weequahic, que vinham de Newark”, bair­ro e cida­de que fun­ci­o­nam, na lite­ra­tu­ra de Roth, como o ber­ço dos com­por­ta­dos meni­nos judeus.

 E Mickey Sabbath de fato ado­ra­va “a inter­mi­ná­vel, inde­co­ro­sa, ins­ti­gan­te repre­sen­ta­ção de seu papel, a ale­gria da tare­fa de ser o sel­va­gem para eles”. Quem são “eles”? São sujei­tos como Alexander Portnoy, como Neil Klugman (Adeus, Columbus), como Bucky Cantor (Nêmesis), como o pró­prio Philip Roth (em espe­ci­al em Complô con­tra a América). 

Como é que os mis­si­o­ná­ri­os pode­ri­am ficar chei­os de si se não fos­sem os seus sel­va­gens?”, per­gun­ta Sabbath. Sua figu­ra pode­ro­sa, ao mes­mo tem­po repul­si­va e dig­na de pena, é úni­ca em um elen­co de per­so­na­gens que, por mais que se apro­xi­mem de um limi­te peri­go­so, não che­gam a dese­jar e a per­se­guir a pró­pria ruí­na.                          

Na ver­da­de, o úni­co roman­ce que se liga dire­ta­men­te a O tea­tro de Sabbath — e as cone­xões são mui­tas numa obra que se inter­li­ga con­ti­nu­a­men­te — é o já men­ci­o­na­do A mar­ca huma­na. Nele, o nar­ra­dor Nathan Zuckerman esbar­ra, na peque­na Madamaska Falls, em Matthew Balich, o filho poli­ci­al de Drenka Balich. Parece uma cena des­pro­po­si­ta­da. Talvez seja. Talvez não.

Há, toda­via, algo curi­o­so aí. O tea­tro de Sabbath se encer­ra com uma fra­se emble­má­ti­ca: “Tudo o que ele [Mickey Sabbath] odi­a­va esta­va aqui”. Eis que uma sen­ten­ça pare­ci­da é encon­tra­da em Pastoral ame­ri­ca­na, de 1997: “Tudo o que ele [Seymour Levov] ama­va esta­va aqui”. E tam­bém em Casei com um comu­nis­ta, de 1998: “Tudo o que ele [Ira Ringold] que­ria mudar esta­va aqui”. Nos dois casos, as fra­ses apa­re­cem na meta­de dos livros e não, como em O tea­tro de Sabbath, iso­la­das, e por­tan­to em des­ta­que, na últi­ma linha. 

É pos­sí­vel ver aí um sim­ples aci­den­te, con­sequên­cia de um esti­lo tan­tas vezes exer­ci­ta­do. Quem sabe. Em A mar­ca huma­na, roman­ce que for­ma uma tri­lo­gia com Casei com comu­nis­ta e com Pastoral, não há um ver­bo que, para o pro­ta­go­nis­ta Coleman Silk, pudes­se se inter­por entre o “tudo” e o “esta­va aqui”. Há ape­nas a liga­ção mais explí­ci­ta, o encon­tro casu­al entre o jovem Matthew, res­ga­ta­do das pro­fun­de­zas — e da for­mi­dá­vel cena final, aliás, o que aumen­ta as sus­pei­tas de que nada aí é uma coin­ci­dên­cia — de Sabbath, e o nar­ra­dor. 

Levov é um ingê­nuo, mari­o­ne­te das ambi­ções alhei­as. Ringold é um ide­a­lis­ta, ou algo pró­xi­mo dis­so. Sabbath é um indi­vi­du­a­lis­ta sin­gu­lar, um tipo incli­na­do à auto­des­trui­ção. Seria Coleman Silk uma mis­tu­ra dos três? Talvez. Pela sua gran­di­o­si­da­de, acre­di­to que boa par­te das res­pos­tas se encon­trem, na medi­da do pos­sí­vel, em O tea­tro de Sabbath. Não é fácil, con­tu­do, sub­ju­gar um tite­rei­ro tão ardi­lo­so e esqui­vo. Que venham os pró­xi­mos vin­te anos. 

***

O tea­tro de Sabbath, Pastoral ame­ri­ca­na e Casei com um comu­nis­ta foram publi­ca­dos no Brasil pela Companhia das Letras, com tra­du­ção de Rubens Figueiredo. Os tre­chos uti­li­za­dos no tex­to vêm des­sas edi­ções.

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