Em defesa dos ‘filmes invisíveis’

No cinema

27.12.13

Foi um bom ano para o cine­ma? Antes de res­pon­der a essa per­gun­ta seria pre­ci­so fazer outra: bom para quem? O cine­ma bra­si­lei­ro, por exem­plo, teve um fatu­ra­men­to recor­de: as pro­du­ções naci­o­nais ren­de­ram na bilhe­te­ria R$ 270 milhões, con­tra R$ 157 milhões em 2012.

Mas cal­ma lá. Dos 120 lon­gas-metra­gens lan­ça­dos, ape­nas oito — seis deles comé­di­as imbe­ci­li­zan­tes da Globo — ultra­pas­sa­ram um milhão de ingres­sos ven­di­dos. A imen­sa mai­o­ria dos títu­los não che­gou a cin­co mil espec­ta­do­res.

Falando como crí­ti­co, como ciné­fi­lo e como cida­dão, o que mais me angus­tia é cons­ta­tar que algu­mas das rea­li­za­ções cine­ma­to­grá­fi­cas mais inte­res­san­tes e enri­que­ce­do­ras exi­bi­das comer­ci­al­men­te em 2013 foram vis­tas por mui­to pou­ca gen­te.

Assim, em vez de fazer a habi­tu­al retros­pec­ti­va ou lis­ta dos melho­res do ano, des­ta­co aqui alguns des­ses ‘fil­mes invi­sí­veis’, na espe­ran­ça de que eles venham a ter mais tes­te­mu­nhas, digo, espec­ta­do­res numa even­tu­al segun­da chan­ce, ou então em DVD, inter­net, o que for.

César deve mor­rer

O melhor tra­ba­lho dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani em déca­das mos­tra a ence­na­ção da tra­gé­dia Júlio César, de Shakespeare, por pri­si­o­nei­ros do cár­ce­re de segu­ran­ça máxi­ma de Rebibbia, em Roma. Misturando docu­men­tá­rio e fic­ção, neor­re­a­lis­mo e tea­tro eli­sa­be­ta­no, dia­le­tos regi­o­nais e dic­ção sha­kes­pe­a­ri­a­na, essa obra-pri­ma con­fe­re gran­de­za épi­ca a pobres dia­bos con­de­na­dos por assas­si­na­to e trá­fi­co, e ao mes­mo tem­po infun­de uma pul­san­te huma­ni­da­de nos per­so­na­gens his­tó­ri­cos.

O que se move

O lon­ga de estreia de Caetado Gotardo, do gru­po pau­lis­ta Filmes do Caixote, é uma tra­gé­dia em três atos que inves­ti­ga o ‘lado B’ de situ­a­ções abor­da­das coti­di­a­na­men­te de modo sen­sa­ci­o­na­lis­ta pela mídia: pedo­fi­lia, rou­bo de bebês, cri­an­ças mor­tas por aci­den­te. O que inte­res­sa aqui é a ‘dor que não sai no jor­nal’, o indi­ví­duo que não cabe nas clas­si­fi­ca­ções redu­to­ras e apa­zi­gua­do­ras, do mes­mo modo que a ence­na­ção de Gotardo não cabe nos limi­tes do rea­lis­mo tra­di­ci­o­nal, ele­van­do-se ao páthos da músi­ca. Um fil­me que alar­ga as pos­si­bi­li­da­des do cine­ma e amplia a sen­si­bi­li­da­de de quem o vê.

A caver­na dos sonhos esque­ci­dos

O docu­men­tá­rio em 3-D de Werner Herzog sobre as pin­tu­ras rupes­tres da caver­na de Chauvet, na França, data­das de 32 mil anos atrás, é lite­ral­men­te um apro­fun­da­men­to do dire­tor em sua inves­ti­ga­ção sobre a sin­gu­la­ri­da­de do huma­no e suas rela­ções com a natu­re­za sel­va­gem, tema que uni­fi­ca toda a sua obra. Uma via­gem no tem­po, no espa­ço e na ima­gi­na­ção, con­du­zi­da por um dos gran­des cine­as­tas de nos­sa épo­ca.

http://www.youtube.com/watch?v=gKYOdjQOaYo&

Killer Joe

Para não dize­rem que não falei do cine­ma ame­ri­ca­no, des­ta­co o fil­me do vete­ra­no William Friedkin, um vigo­ro­so e inso­len­te dra­ma poli­ci­al ambi­en­ta­do nas fran­jas pobres e podres da soci­e­da­de ian­que. Mais negro do que pro­pri­a­men­te noir, é o retra­to de uma famí­lia e uma soci­e­da­de dis­fun­ci­o­nais, em que todos que­rem pas­sar a per­na em todos até a che­ga­da de uma espé­cie de anjo exter­mi­na­dor, o Killer Joe do títu­lo. De que­bra, um ero­tis­mo adul­to e per­ver­so como não se cos­tu­ma ver na pro­du­ção comer­ci­al hollywo­o­di­a­na.

Não é uma lis­ta dos melho­res do ano e dei­xou deli­be­ra­da­men­te de fora fil­ma­ços que tive­ram ampla visi­bi­li­da­de, como O som ao redorAmor, Django livre Azul é a cor mais quen­te, para ficar em pou­cos exem­plos. É, mais pro­pri­a­men­te, uma lis­ta afe­ti­va, ofer­ta­da aqui como pre­sen­te de fim de ano para quem ama o cine­ma e se lixa para as bilhe­te­ri­as. Que em 2014 bis­coi­tos finos como esses encon­trem quem sai­ba apre­ciá-los.

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