Em matéria de monstro

Correspondência

24.11.11

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Meu que­ri­do Dapieve:

Antes da escu­lham­ba­ção que darei num (in)certo poder de nos­sa pátria ama­da, fica­ram fal­tan­do dois cau­sos envol­ven­do aviões: na déca­da de 70, em ple­na dita­du­ra, João Bosco e eu pas­sá­va­mos pela vis­to­ria de baga­gem no aero­por­to de Manaus, Zona Franca em todos os sen­ti­dos. Eu havia com­pra­do uma peque­na fil­ma­do­ra. Durante a revis­ta, apa­re­ceu um sujei­to gran­da­lhão, de ter­no, com bigo­des de Zapata, e mos­trou a car­tei­ra de poli­ci­al:

- João Bosco e Aldir Blanc?

Amigo, não sei o que o João sen­tiu. Para mim, foi igual ao momen­to gela­do na colu­na quan­do foi apli­ca­da a mor­fi­na, antes de minha cirur­gia de fêmur. O casal que exa­mi­na­va as malas entrou no cli­ma e ficou para­li­sa­do. O homem da lei nos olha­va com — não há outras pala­vras para des­cre­ver aqui­lo — pro­fun­do ran­cor, não movia um mús­cu­lo, não fala­va. Pensei com meu zíper: deve ser um novo méto­do de tor­tu­ra… Depois de uns bons cin­co minu­tos (quân­ti­cos: a eter­ni­da­de em peque­na fra­ção de tem­po) nos fuzi­lan­do com pupi­las de Glock, o gala­lau per­gun­tou aos fun­ci­o­ná­ri­os:

- Tudo cer­to com as coi­sas deles?

Os dois só ace­na­ram posi­ti­va­men­te, ver­des de medo. Pensei: é ago­ra. Camburão, pau de ara­ra, afo­ga­men­to em bar­ril, cho­que nos miú­dos… Aí, ouvi­mos, como se tivés­se­mos leva­do um soco do Minotauro nos tím­pa­nos:

- Boa via­gem! Vocês não gos­tam da polí­cia, mas eu sou fã de vocês.

E demos os autó­gra­fos mais tre­mi­dos de nos­sas vidas.

Em Belém, hou­ve de tudo antes do aero­por­to. O divul­ga­dor nos levou a um pro­gra­ma de TV ao vivo. Estressado pela excur­são inter­mi­ná­vel, quan­do João ouviu o entre­vis­ta­dor nos cha­mar de “mons­tros sagra­dos”, teve uma cri­se de riso. Nunca mais vi coi­sa pare­ci­da. Corta. Entram comer­ci­ais de emer­gên­cia. João, refei­to, se des­cul­pa. No ar! A per­gun­ta é repe­ti­da e João explo­de numa gar­ga­lha­da incon­tro­lá­vel. Fomos qua­se chu­ta­dos para fora da emis­so­ra. Jantar. O divul­ga­dor, que tam­bém era boi­a­dei­ro, recla­mou da risa­da­ria. João e ele qua­se saí­ram no pau. Botei panos quen­tes. Aplacado, o dublê de divul­ga­dor e vaquei­ro, tal­vez por isso mes­mo, quis nos levar a um lugar mara­vi­lho­so (sic) cha­ma­do “Dragão Chinês”. Era meio bar, casa de moças dan­çan­do pela­das naque­les mas­tros, e pros­tí­bu­lo. Mal o táxi parou, vimos uma bri­ga na entra­da do local que lem­bra­va um pou­co a ofen­si­va do Tet. João se ati­rou de vol­ta no táxi e pro­fe­riu a fra­se anto­ló­gi­ca:

- Em maté­ria de mons­tro, che­ga por hoje.

Às 6 da mati­na, está­va­mos aguar­dan­do nos­so voo, depois de pas­sar a noi­te biri­tan­do no quar­to, quan­do uma voz em tom de urgên­cia tro­ve­jou no aeroin­fer­no:

- Pedimos que médi­cos pre­sen­tes se apre­sen­tem ao poli­ci­al mais pró­xi­mo, que os con­du­zi­rão à pis­ta. Está che­gan­do de Miami um avião com um pas­sa­gei­ro pas­san­do mal a bor­do!

Eu já havia lar­ga­do medi­ci­na, mas o remor­so falou mais alto. Fui con­du­zi­do por um incrí­vel (o que os aero­por­tos escon­dem…) labi­rin­to à pis­ta. O tre­co pou­sou. Um médi­co uni­for­mi­za­do da Aeronáutica e eu entra­mos. O pas­sa­gei­ro desa­pa­re­ce­ra. Fomos, óbvio, pro­cu­rar no banhei­ro do mais-pesa­do. A por­ta qua­se não abria, mas dava pra ver um pé.

- It is here! — dis­se a espo­sa (eu acho).

Primeiro diag­nós­ti­co: por­re total e inten­sas dores abdo­mi­nais. O paci­en­te ame­ri­ca­no era imen­so, toma­va todo o banhei­ro. Eu e o fly­doc nos entre­o­lha­mos. Não havia mau chei­ro. Pedi ao comis­sá­rio de bor­do — garan­tiu que fala­va inglês cor­ren­te­men­te — para per­gun­tar se o mon­ta­nha havia con­se­gui­do defe­car. A per­gun­ta:

- The doc­tor is asking me if you…

Como lhe fal­tou a pala­vra, aga­chou-se no cor­re­dor e fez mími­ca…

Ih, esque­ci a escu­lham­ba­da!

Fica pra pró­xi­ma.

Abraço fra­ter­no,

Aldir

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