O Museu de Arte Contemporânea da USP, em par­ce­ria com o IMS, abriu em 28 de outu­bro a expo­si­ção Emancipação, inclu­são e exclu­são. Desafios do Passado e do Presente — foto­gra­fi­as do acer­vo Instituto Moreira Salles, com 74 foto­gra­fi­as de Marc Ferrez, Victor Frond e George Leuzinger, entre outros. A cura­do­ria é de Lilia Moritz Schwarcz, Maria Helena P.T. Machado e Sergio Burgi. A mos­tra ana­li­sa o regis­tro foto­grá­fi­co dos negros — livres, escra­vi­za­dos ou liber­tos — no Brasil, em um perío­do em que vári­os fotó­gra­fos estran­gei­ros atu­a­vam no país com tra­ba­lhos de for­te ela­bo­ra­ção esté­ti­ca e for­mal. A expo­si­ção está ago­ra em car­taz no cen­tro cul­tu­ral de Poços de Caldas.

 

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles | Partida para a colheita de café com carro de boi | Vale do Paraíba, c. 1885
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Partida para a colheita de café com carro de boi | Vale do Paraíba, c. 1885

O regis­tro foto­grá­fi­co fei­to sobre negros — livres, escra­vi­za­dos ou liber­tos — no Brasil é pau­ta­do por duas espe­ci­fi­ci­da­des. De um lado a foto­gra­fia entrou cedo no país, con­tan­do, já nos finais dos anos 1860, com cli­en­te­la cer­ta, que den­tre outros incluía o impe­ra­dor d. Pedro II; ele pró­prio um impe­ra­dor fotó­gra­fo. De outro lado a escra­vi­dão tar­dou demais a aca­bar, guar­dan­do ao Brasil a tris­te mar­ca de ser o últi­mo país do Ocidente a admi­tir tal tipo de sis­te­ma. Dessa con­fluên­cia, em cer­to sen­ti­do per­ver­sa, resul­tou um regis­tro amplo e vari­a­do des­se sis­te­ma de tra­ba­lho e de seus tra­ba­lha­do­res escra­vi­za­dos. Por vezes toma­dos ao aca­so, por vezes figu­ran­do como mode­los exó­ti­cos ou tipos para a aná­li­se da ciên­cia; ora como par­te do cená­rio, ora como figu­ras prin­ci­pais, escra­vi­za­dos foram fla­gra­das nas mais diver­sas situ­a­ções.

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles | Escravos na colheita do café | Rio de Janeiro, RJ, c. 1882
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Escravos na colheita do café | Rio de Janeiro, RJ, c. 1882

Num momen­to em que a cap­tu­ra da ima­gem rea­li­za­va-se atra­vés de um pro­ces­so mais com­ple­xo e len­to, devi­do às pró­pri­as limi­ta­ções da téc­ni­ca, vári­os fotó­gra­fos que entra­ram no país cons­truí­ram uma repre­sen­ta­ção com for­te ela­bo­ra­ção esté­ti­ca e for­mal: os tró­pi­cos, a natu­re­za e seus habi­tan­tes foram regis­tra­dos em câme­ras de gran­de for­ma­to sobre tri­pés, que apro­xi­mam o resul­ta­do da ima­gem foto­grá­fi­ca do perío­do aos padrões da pin­tu­ra de cava­le­te. A natu­re­za do Brasil — com suas gran­des cas­ca­tas, flo­res­tas vir­gens, mar pro­fun­do e pai­sa­gens edê­ni­cas — adqui­re cará­ter icô­ni­co e oní­ri­co, qua­se ide­a­li­za­do, assim como, de algu­ma manei­ra, seus nati­vos.

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles | Escravos em terreiro de uma fazenda de café | Vale do Paraíba, c. 1882
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Escravos em terreiro de uma fazenda de café | Vale do Paraíba, c. 1882

E se a ope­ra­ção de con­ver­ter os indí­ge­nas em “obje­to de estú­dio” fazia par­te dos câno­nes român­ti­cos de épo­ca, mais difí­cil era cap­tar o dia a dia da escra­vi­dão e do tra­ba­lho for­ça­do. Grande con­tra­di­ção do Império bra­si­lei­ro, o sis­te­ma escra­vis­ta foi abor­da­do por diver­sos fotó­gra­fos, autô­no­mos ou apoi­a­dos pela Coroa, que em sua mai­o­ria vol­ta­vam-se para o retra­to de tipos exó­ti­cos; aliás tema de gran­de inte­res­se de via­jan­tes e estran­gei­ros.

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles<br>Negra com seu filho | Salvador, BA, c. 1884
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Negra com seu filho | Salvador, BA, c. 1884

Particularmente nos anos 1870 e 1880 pro­li­fe­ra­ram as fotos de escra­vi­za­dos, reve­lan­do, por sua regu­la­ri­da­de, de que manei­ra o sis­te­ma anda­va natu­ra­li­za­do entre nós e dis­per­so por todo país. Negros figu­ra­ri­am em car­tes de visi­tes — como um suve­nir da ter­ra — mas tam­bém nos docu­men­tos cien­tí­fi­cos — nes­se caso com­pro­van­do uma supos­ta infe­ri­o­ri­da­de raci­al do país. Estariam tam­bém pre­sen­tes nas foto­gra­fi­as de pai­sa­gem e na docu­men­ta­ção do tra­ba­lho nas fazen­das de café rea­li­za­das tan­to por Victor Frond nos anos de 1859 e 1860, como por George Leuzinger por vol­ta de 1860, e Marc Ferrez na déca­da de 1880. Em todos esses casos vemos a mon­ta­gem da repre­sen­ta­ção natu­ra­li­za­da da escra­vi­dão: tudo em seu lugar.

Marc Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles | Quitandeiras | Rio de Janeiro, RJ, c. 1875
Marc Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Quitandeiras | Rio de Janeiro, RJ, c. 1875

Essas ima­gens retra­tam o tra­ba­lho escra­vo, fei­to­ri­za­do e gene­ra­li­za­do a par­tir do sis­te­ma cafe­ei­ro do Sudeste do país, cons­truin­do uma repre­sen­ta­ção a ser­vi­ço prin­ci­pal­men­te da valo­ri­za­ção dos aspec­tos de orga­ni­za­ção da pro­du­ção e do tra­ba­lho na eco­no­mia do café. Apesar dis­so, par­te des­tas ima­gens, como por exem­plo as de auto­ria de Marc Ferrez, tam­bém denun­ci­am a pre­ca­ri­e­da­de da vida da popu­la­ção sub­me­ti­da ao sis­te­ma escra­vis­ta, base­a­do em for­mas de orga­ni­za­ção e téc­ni­cas de tra­ba­lho suge­ri­das como arcai­cas. Ferramentas e car­ros de boi que deno­tam mui­to uso e pou­co cui­da­do, escra­vos ves­ti­dos em andra­jos, filas de tra­ba­lha­do­res que care­cem de uma ordem visí­vel e onde se vê homens, mulhe­res e cri­an­ças amon­to­a­dos, são todos aspec­tos que fla­gram a penú­ria do sis­te­ma no oca­so da escra­vi­dão.

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles<br>Primeira foto do trabalho no interior de uma mina de ouro | Minas Gerais, 1888
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Primeira foto do trabalho no interior de uma mina de ouro | Minas Gerais, 1888

Em con­tra­pon­to, nas cida­des os fotó­gra­fos do sécu­lo XIX encon­tra­ram os moti­vos e carac­te­rís­ti­cas de uma escra­vi­dão urba­na, carac­te­ri­za­da pelos tra­ba­lhos de rua, com a pre­sen­ça de figu­ras urba­nas mar­can­tes como as de car­re­ga­do­res, ven­dei­ras e bar­bei­ros — liber­tos ou cati­vos. Mais uma vez, a for­ma pre­ci­sa e este­ti­za­da se fazia pre­sen­te nos ces­tos bem mon­ta­dos, nas ven­dei­ras dis­pos­tas de manei­ra equi­li­bra­da e com panos das cos­tas deta­lha­da­men­te expos­tos, nos car­re­ga­do­res de litei­ras bem pos­ta­dos. Aí esta­va nova­men­te o espe­tá­cu­lo de uma escra­vi­dão pací­fi­ca e sem con­tes­ta­ção. No entan­to, essas fotos urba­nas denun­ci­am igual­men­te pre­ca­ri­e­da­de, indis­ci­pli­na e cer­ta ausên­cia de con­tro­le do tra­ba­lho escra­vo nas cida­des.

Fotógrafo não identificado / Acervo Instituto Moreira Salles<br>Senhora na liteira com dois escravos | Bahia, c. 1860
Fotógrafo não identificado / Acervo Instituto Moreira Salles
Senhora na liteira com dois escravos | Bahia, c. 1860

É como se os fotó­gra­fos, em boa par­te estran­gei­ros e a par das crí­ti­cas ao sis­te­ma escra­vis­ta, bus­cas­sem com estas ima­gens fazer eco às idei­as que cir­cu­la­vam, nes­te momen­to, nos cír­cu­los letra­dos e huma­nis­tas, a res­pei­to da urgên­cia de o país supe­rar tal sis­te­ma escra­vis­ta. Com suas fotos eles pare­cem refor­çar, ain­da, uma ideia que, na déca­da de 1880, os movi­men­tos abo­li­ci­o­nis­tas já havi­am tor­na­do con­sen­su­al: a de que a escra­vi­dão no Brasil sig­ni­fi­ca­va o atra­so, a opres­são e obs­tá­cu­lo à moder­ni­za­ção e que os escra­vi­za­dos repre­sen­ta­vam uma par­ce­la da huma­ni­da­de que pre­ci­sa­va ser redi­mi­da, edu­ca­da e tute­la­da.

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira SallesPraça Castro Alves | Salvador, BA, c. 1875
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Praça Castro Alves | Salvador, BA, c. 1875

Entretanto, é a par­tir de uma aten­ção aos deta­lhes que os nega­ti­vos foto­grá­fi­cos regis­tra­ram, que pode­mos vis­lum­brar mui­tos momen­tos e ângu­los de auto­no­mia e de von­ta­de pró­pria por par­te dos foto­gra­fa­dos, pos­si­bi­li­tan­do uma lei­tu­ra a con­tra­pe­lo ao sen­ti­do geral das ima­gens. Isto por­que, como téc­ni­ca, a foto­gra­fia repre­sen­ta­va uma espé­cie de reden­ção da super­fí­cie mate­ri­al, ofe­re­cen­do um tipo de infor­ma­ção do real que não pode­ria ser encon­tra­da em outros tipos de supor­tes. No entan­to, no miú­do, um outro mun­do se reve­la, com os escra­vi­za­dos nego­ci­an­do e agen­ci­an­do todo tipo de rea­ção: iro­nia, humi­lha­ção, cons­tran­gi­men­to, revol­ta. O fato é que a pos­si­bi­li­da­de atu­al de ampli­ar os nega­ti­vos per­mi­tiu que trou­xés­se­mos à tona o regis­tro de deta­lhes de pri­mei­ro e de segun­do pla­nos. Se antes o espec­ta­dor só podia ver a cena como um con­jun­to de moti­vos prin­ci­pais explí­ci­tos, e de deta­lhes mais ou menos invi­sí­veis, hoje, com as novas téc­ni­cas é pos­sí­vel bus­car ângu­los recôn­di­tos das foto­gra­fi­as, mui­tas vezes des­co­nhe­ci­dos pelo pró­prio artis­ta que regis­trou a cena. Diferente da pin­tu­ra, na foto­gra­fia se mate­ri­a­li­za um pro­ces­so dis­tin­to de cap­tu­ra da indi­vi­du­a­li­da­de da cena, com seu aca­so, reve­lan­do a pró­pria impos­si­bi­li­da­de de o fotó­gra­fo domi­nar total­men­te a cons­tru­ção da repre­sen­ta­ção. É nes­se momen­to que o artis­ta-fotó­gra­fo per­de o con­tro­le sobre seu pro­du­to.

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles | Escravos na colheita de café | Vale do Paraíba, c. 1882
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Escravos na colheita de café | Vale do Paraíba, c. 1882

Embora o fotó­gra­fo do XIX não pudes­se reve­lar suas fotos em pro­por­ção mais ampli­a­da, o nega­ti­vo que ele nos legou per­mi­te, e é esse o con­vi­te que faze­mos nes­sa expo­si­ção. A par­tir de recor­tes das ima­gens, vemos ges­tos e olha­res que con­fe­rem sin­gu­la­ri­da­de aos indi­ví­du­os foto­gra­fa­dos, fos­sem eles escra­vi­za­dos, liber­tan­dos ou liber­tos, regis­tra­dos pelo fotó­gra­fo: uma mãe que acal­ma seu filho, um tra­ba­lha­dor que des­via o olhar, uma qui­tan­dei­ra com expres­são melan­có­li­ca, um fei­tor bus­can­do guar­dar a ordem, um cachor­ro que pas­seia tran­qui­lo e alheio, um rapaz que des­can­sa na rel­va e esca­pa da ordem, dois homens negros que con­ver­sam rela­xa­dos, um escra­vi­za­do que rou­ba a cena e, ao invés de car­re­gar a litei­ra, põe a mão na cin­tu­ra e enca­ra o fotó­gra­fo. Aí estão rea­ções que esca­pam ao con­tro­le: ges­tos do tra­ba­lho, ges­tos de des­can­so e de soci­a­bi­li­da­de , expres­sos tam­bém nas mãos, nas pos­tu­ras, no encur­va­men­to do cor­po, na for­ma como se segu­ra a enxa­da ou se car­re­ga os filhos às cos­tas. São estes ele­men­tos de infor­ma­ção visu­al e docu­men­tal que a foto­gra­fia his­tó­ri­ca nos ofe­re­ce que con­tri­bui­rão pos­sí­vel­men­te para uma lei­tu­ra ampli­a­da da escra­vi­dão em seus anos finais no país, ofe­re­cen­do jane­las para que pos­sa­mos vis­lum­brar, em olha­res e ges­tos daque­les que o fotó­gra­fo supôs pas­si­vos, os mun­dos des­co­nhe­ci­dos da escra­vi­dão e do pro­ces­so de tor­nar-se livre em cur­so nas déca­das finais de vigên­cia da escra­vi­dão no Brasil.

Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles  Partida para colheita do café | Vale do Paraíba, c. 1885
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles
Partida para colheita do café | Vale do Paraíba, c. 1885

Essa mos­tra faz par­te de um pro­je­to mai­or rea­li­za­do em outu­bro de 2013 na Universidade de São Paulo, no esco­po das ati­vi­da­des que com­po­rão o semi­ná­rio “Emancipações, Inclusão e Exclusão. Desafios do Passado e do Presente”, e pre­ten­de con­tri­buir para o tema geral do semi­ná­rio a par­tir das ima­gens foto­grá­fi­cas que regis­tram a escra­vi­dão e seus des­do­bra­men­tos no país.

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