Encontro com um editor de direita

Colunistas

14.10.15

O edi­tor de direi­ta me sur­pre­en­de. Menos pelo que ele tem de direi­ta do que pela pecu­li­a­ri­da­de de raci­o­cí­nio. Ser de direi­ta é um direi­to, como tam­bém o é ser de esquer­da, pre­fe­rir músi­ca ser­ta­ne­ja ao sam­ba, detes­tar tea­tro ou ópe­ra, gos­tar de tomar sor­ve­te ou acre­di­tar em Deus. Já a bur­ri­ce é uma con­di­ção que nin­guém esco­lhe e que pode acom­pa­nhar ou não todas as esco­lhas ante­ri­o­res. Ninguém diz: “Neste pon­to, ten­do para a bur­ri­ce”. Ninguém diz, embo­ra deves­se. Mas aí não seria mais bur­ri­ce; seria inte­li­gên­cia. E nos pou­pa­ria do des­gas­te das dis­cus­sões inú­teis.

Encontro o edi­tor de direi­ta num café. No iní­cio, o bur­ro sou eu. Devia ter olha­do o catá­lo­go da edi­to­ra antes de acei­tar tomar um café com o edi­tor. Devia ter des­con­fi­a­do. Menos pela ten­dên­cia neo­con do catá­lo­go do que pela dis­cre­pân­cia e pela excep­ci­o­na­li­da­de de umas pou­cas esco­lhas – na ver­da­de, as melho­res.

Cena de Frankenstein, de James Whale (1931)

Só depois de ouvir o edi­tor é que come­ço a sus­pei­tar que a obra de um escri­tor geni­al tenha sido incluí­da no catá­lo­go da edi­to­ra pelos pio­res moti­vos – os mes­mos que pode­ri­am levar um leitor/editor de esquer­da a rejei­tar o mes­mo autor, por pre­con­cei­to, e que fazem com que esse autor geni­al tenha aca­ba­do ali e não em outro lugar. Pelo que ouço do edi­tor de direi­ta, só me res­ta pen­sar que o escri­tor geni­al entrou no catá­lo­go da edi­to­ra menos pela geni­a­li­da­de da obra do que pela repu­ta­ção de rea­ci­o­ná­rio – o que, radi­ca­li­zan­do a mes­ma lógi­ca, equi­va­le­ria a pri­vi­le­gi­ar o antis­se­mi­tis­mo de Céline, em detri­men­to da sua excep­ci­o­na­li­da­de lite­rá­ria, como razão para publi­cá-lo.

Se é que há uma coe­rên­cia entre a esco­lha do autor geni­al e o dis­cur­so do edi­tor, o equí­vo­co terá sido ain­da mai­or, já que, exa­mi­na­do de per­to, o autor geni­al nada tem de con­ser­va­dor. Defensor com­ba­ti­vo da liber­da­de de pen­sa­men­to, foi um espí­ri­to de con­tra­di­ção ambu­lan­te, aves­so às auto­ri­da­des hie­rár­qui­cas e às aca­de­mi­as, cató­li­co anti­cle­ri­cal, monar­quis­ta de esquer­da, ini­mi­go dos fas­cis­mos mas tam­bém do capi­ta­lis­mo ame­ri­ca­no, homem de exces­sos capaz de se expor, em bus­ca da ver­da­de e da inte­gri­da­de, com uma inte­li­gên­cia, uma sen­si­bi­li­da­de e uma cora­gem rara­men­te vis­tas.

Estamos no café, com um jor­na­lis­ta fran­cês cujas sim­pa­ti­as polí­ti­cas ten­dem para a direi­ta repu­bli­ca­na em seu país, mas que, ao con­trá­rio do edi­tor de direi­ta bra­si­lei­ro, cul­ti­va o bom sen­so e o gos­to pelo diá­lo­go inte­li­gen­te. Estamos falan­do de ára­bes e judeus, quan­do o edi­tor inter­ce­de a favor do cli­chê: “Aqui no Brasil, eles não bri­gam entre si. Entendem-se mui­to bem e até tra­ba­lham jun­tos”, ele diz. “Só por­que não há moti­vo de dis­pu­ta, como na Palestina”, eu res­pon­do. “Bastaria haver um obje­to comum de dis­pu­ta para que se odi­as­sem tam­bém aqui”, eu digo. E apro­vei­to para expres­sar o meu hor­ror pelo gover­no Netanyahu. O edi­tor vol­ta à car­ga com nova muni­ção: “É igual ao nos­so”. Nosso o quê? “Esse gover­no que está aí”, diz o edi­tor de direi­ta, com o ros­to con­vul­si­o­na­do. Demoro a enten­der. O gover­no bra­si­lei­ro é igual ao de Netanyahu? Ocupamos o Paraguai? Estamos cons­truin­do assen­ta­men­tos na Bolívia?, per­gun­to. “Ela é uma ter­ro­ris­ta!”, res­pon­de o edi­tor de direi­ta, infla­ma­do. Busco a cum­pli­ci­da­de do olhar do jor­na­lis­ta fran­cês, que a esta altu­ra já des­vi­ou os olhos e fin­ge que não está acom­pa­nhan­do.

O edi­tor pros­se­gue: “É essa gen­te da USP que apoia os ter­ro­ris­tas islâ­mi­cos!”. Como? “Isso mes­mo. É o pes­so­al de esquer­da que apoia os isla­mis­tas, esses esquer­dis­tas da USP, que fazem os pales­ti­nos de víti­ma.”

Minha cabe­ça come­ça a dar vol­tas para acom­pa­nhar o raci­o­cí­nio do edi­tor de direi­ta que com­pa­ra Netanyahu a Dilma e asso­cia a USP ao fun­da­men­ta­lis­mo islâ­mi­co. “A luta pela liber­ta­ção da Palestina teve ori­gem lai­ca. Foi Israel que fomen­tou o Hamas con­tra a OLP”, ten­to argu­men­tar com um pou­co de his­tó­ria. “Foucault era ami­go do Khomeini. Todo mun­do sabe!”, reba­te o edi­tor de direi­ta.

Foucault ami­go do Khomeini? Continuo ten­tan­do argu­men­tar: “Foucault come­teu o erro de tomar o par­ti­do da revo­lu­ção islâ­mi­ca, no iní­cio, con­tra o gover­no do Xá (o que não o impe­diu de con­ti­nu­ar defen­den­do o direi­to à exis­tên­cia do Estado de Israel). Foi um erro, como todo mun­do pode come­ter. Mas ele não era ami­go do Khomeini”, digo. “Não, não! Eram ami­gos, sim senhor!” E aí eu per­co a cabe­ça: ”Que mer­da de má-fé é essa? Que por­ra de igno­rân­cia é essa?”. E me vejo repro­du­zin­do tudo o que mais con­de­no, a his­te­ria de uma ira inó­cua. Digo bar­ba­ri­da­des. Perco a razão.

Acho que era Kant quem dizia que nin­guém pen­sa sozi­nho. E o que acon­te­ce quan­do a bur­ri­ce pas­sa a impe­rar? Alguém dirá que a bur­ri­ce sem­pre impe­rou. Prefiro achar que nem sem­pre. Até mui­to recen­te­men­te, mui­to da nos­sa bur­ri­ce cole­ti­va se man­ti­nha cir­cuns­cri­ta ao iso­la­men­to da esfe­ra pri­va­da. Ou pelo menos ain­da não tinha encon­tra­do os canais públi­cos para alar­de­ar sua hege­mo­nia.

Os pro­je­tos de esquer­da fali­ram, o mun­do está mais con­ser­va­dor e mais cha­to, mas o pro­ble­ma não é a direi­ta ou a esquer­da (e isso fica cla­ro na minha con­ver­sa com o jor­na­lis­ta fran­cês – e na minha sim­pa­tia por ele). O pro­ble­ma é a má-fé, a deso­nes­ti­da­de inte­lec­tu­al e polí­ti­ca, a viru­lên­cia dos pre­con­cei­tos con­tra (e no lugar de) um ide­al des­gas­ta­do de soli­da­ri­e­da­de. A bur­ri­ce orgu­lho­sa e indi­vi­du­a­lis­ta, que final­men­te encon­trou um canal de expres­são e repro­du­ção cole­ti­va, de mas­sa, nas novas tec­no­lo­gi­as.

A expres­são da bur­ri­ce, essa caco­fo­nia sem esfor­ços, está enfim libe­ra­da para todos. Reproduzida e ampli­fi­ca­da, ela ope­ra num rit­mo veloz de viru­lên­cia, que desau­to­ri­za o tem­po refle­xi­vo e reduz as chan­ces de ser­mos inte­li­gen­tes jun­tos. Ela into­xi­ca o diá­lo­go, eli­mi­na suti­le­zas e con­tra­di­ções em nome de uma pas­teu­ri­za­ção gros­sei­ra, sus­ten­ta­da pelo opor­tu­nis­mo retó­ri­co de cli­chês, fra­ses de efei­to, sofis­mas e impos­tu­ras. É a natu­ra­li­da­de do sen­so comum con­tra o esfor­ço do pen­sa­men­to crí­ti­co. O encon­tro com o edi­tor de direi­ta não reve­la ape­nas que retro­ce­de­mos no nível das idei­as (afi­nal de con­tas, tra­ta-se de um edi­tor), mas que ago­ra, se qui­ser­mos con­ti­nu­ar con­ver­san­do, tere­mos que retro­ce­der ain­da mais, para expli­car tudo de novo, uns aos outros, do zero.

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