Os diretores Duprat e Cohn

Os diretores Duprat e Cohn

Entre a província e o mundo

No cinema

19.05.17

Cinema argen­ti­no” é uma abs­tra­ção tão enga­no­sa quan­to “cine­ma bra­si­lei­ro”. Nessa abs­tra­ção cabem o cine­mão mains­tre­am de Juan José Campanella, os melo­dra­mas fami­li­a­res de Daniel Burman, as expe­ri­ên­ci­as auto­rais de Lucrecia Martel e de Lisandro Alonso, o cine­de­nún­cia um tan­to sen­sa­ci­o­na­lis­ta de Pablo Trapero, além de um boca­do de bes­tei­rol que não che­ga ao nos­so mer­ca­do – e cabe tam­bém a fil­mo­gra­fia sin­gu­lar, incon­fun­dí­vel, da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, que ago­ra nos traz este for­mi­dá­vel O cida­dão ilus­tre.

Nos fil­mes de Cohn e Duprat há sem­pre uma rela­ção ten­sa e ambí­gua entre uma Argentina cul­ta, cos­mo­po­li­ta, euro­pei­za­da, e uma Argentina pro­fun­da, rude e arcai­ca. Esse con­fli­to se tra­duz inva­ri­a­vel­men­te, em ter­mos dra­ma­túr­gi­cos, nos desa­jus­tes entre um artis­ta de talen­to e seu entor­no, entre o abso­lu­to da cri­a­ção esté­ti­ca e as con­tin­gên­ci­as do coti­di­a­no. Entre arte e cul­tu­ra, em suma, enten­di­da esta últi­ma em seu sen­ti­do mais amplo, antro­po­ló­gi­co.

Em fun­ção des­se enfo­que, em cada fil­me uma arte espe­cí­fi­ca assu­me o pri­mei­ro pla­no: a pin­tu­ra em El artis­ta (2008), a arqui­te­tu­ra em O homem ao lado (2009), a lite­ra­tu­ra em O cida­dão ilus­tre.

O pon­to de par­ti­da do enre­do é, em si mes­mo, uma pro­vo­ca­ção: um escri­tor argen­ti­no, Daniel Mantovani (Oscar Martínez) rece­be das mãos do rei da Suécia o prê­mio Nobel de lite­ra­tu­ra e, no dis­cur­so de agra­de­ci­men­to, decla­ra que sua pro­du­ção lite­rá­ria rece­be ali um gol­pe mor­tal. Canonizado, ele se tor­na­rá esté­ril como uma está­tua. A refe­rên­cia a Borges, a quem foi nega­do o Nobel, é explí­ci­ta.

Volta às ori­gens

Anos depois, viven­do no luxo de uma casa ultra­mo­der­na em Barcelona, Mantovani rece­be o ines­pe­ra­do con­vi­te da pre­fei­tu­ra de Salas, a cida­de­zi­nha onde nas­ceu e viveu sua infân­cia e juven­tu­de, para rece­ber ali uma home­na­gem e pro­fe­rir umas pales­tras. Ele hesi­ta, mas resol­ve acei­tar, vol­tan­do às suas ori­gens depois de qua­tro déca­das de ausên­cia. Antes de deci­dir, ele comen­ta com sua secre­tá­ria: “Creio que em toda a minha vida não fiz outra coi­sa senão esca­par daque­le lugar”.

O cida­dão ilus­tre é a crô­ni­ca ao mes­mo tem­po cômi­ca e ater­ra­do­ra des­se emba­te entre o homem refi­na­do e o meio rús­ti­co de onde ele saiu. O olhar diver­ti­do e leve­men­te encan­ta­do com aque­le sin­ge­lo pro­vin­ci­a­nis­mo (o des­fi­le em car­ro de bom­bei­ros por ruas qua­se vazi­as, a arqui­te­tu­ra eclé­ti­ca e impro­vi­sa­da dos edi­fí­ci­os, a meda­lha de cida­dão ilus­tre rece­bi­da das mãos da miss local etc.) aos pou­cos cede ter­re­no para o sen­ti­men­to amar­go da incom­pre­en­são e, por fim, para o medo dian­te da hos­ti­li­da­de cres­cen­te, como se o luga­re­jo intei­ro pas­sas­se da vene­ra­ção à ame­a­ça, como num sonho bom que se con­ver­te em pesa­de­lo.

Com uma pre­ci­são seme­lhan­te à de O homem ao lado (a obra-pri­ma da dupla), os dire­to­res modu­lam sutil­men­te as mudan­ças da per­cep­ção do meio pelo pro­ta­go­nis­ta. Uma mise-en-scè­ne trans­lú­ci­da e dis­cre­ta, que nun­ca se sobre­põe ao dra­ma nar­ra­do, man­tém em per­ma­nen­te equi­lí­brio o humor e a melan­co­lia, a con­tem­pla­ção e o sus­pen­se. Parece fácil, mas um des­li­ze para um lado ou para outro pode­ria des­cam­bar para a chan­cha­da, ou a cari­ca­tu­ra fácil, ou a arro­gân­cia supe­ri­or, ou ain­da o melo­dra­ma do “artis­ta incom­pre­en­di­do”.

Real e fic­ção

Em sua lite­ra­tu­ra, pelo que nos é dado saber, a rela­ção do escri­tor Mantovani com seu vila­re­jo natal (ins­pi­ra­ção para todas as suas obras) não é nem de ide­a­li­za­ção nos­tál­gi­ca nem de pura sáti­ra, mas uma difí­cil posi­ção inter­me­diá­ria, ambí­gua e ins­tá­vel. É uma ambi­va­lên­cia aná­lo­ga que Duprat e Cohn pare­cem bus­car – e encon­trar – em seus fil­mes. Em todos, tam­bém, a fron­tei­ra entre a arte e a impos­tu­ra apa­re­ce como uma linha tênue, quan­do não bor­ra­da.

Em O cida­dão ilus­tre acres­cen­ta-se o tema da trans­fi­gu­ra­ção do real pela fic­ção. Existe a rea­li­da­de obje­ti­va? Como o escri­tor de fic­ção se rela­ci­o­na com ela? O que ele extrai do “real” para cons­truir suas fan­ta­si­as? A todo momen­to os habi­tan­tes de Salas que­rem iden­ti­fi­car os indi­ví­du­os e luga­res “ver­da­dei­ros” por trás das cri­a­ções de Mantovani. Ele pode­ria res­pon­der sim­ples­men­te, como Flaubert: “Salas c’est moi”.

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