Entre o artista e a obra

Correspondência

02.05.12

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Chico,

Eu já ouvi falar mui­to des­se fil­me sobre o Bill Cunningham. Essa cena do dis­cur­so deve ser de foder. O fil­me esta­va pas­san­do em NY no ano pas­sa­do. Passei pela por­ta, vi o car­taz, não entrei. NY é des­sas mulhe­res exi­gen­tes que fazem você sen­tir o tem­po todo que está per­den­do algu­ma coi­sa. E, fora de NY, que está per­den­do NY intei­ra, o que é sem­pre uma mer­da.

Você tem razão, Chico. O pro­ble­ma não é eu sair demais  — é o con­trá­rio: eu sem­pre vol­to. Eu tenho que parar de vol­tar.

Semana pas­sa­da esti­ve em Bogotá, aque­la cida­de boni­ta e estra­nha a 2.600 metros de altu­ra com sua popu­la­ção andi­na, fria e edu­ca­da que pode con­ver­ter-se a qual­quer momen­to num agru­pa­men­to de cari­be­nhos alu­ci­na­dos, a depen­der do horá­rio e esta­do etí­li­co. Fui para a Feira do Livro, mas, como sem­pre, o melhor epi­só­dio não se pas­sa num audi­tó­rio cheio de lei­to­res que nun­ca leram o seu livro. Passei uma noi­te con­ver­san­do e beben­do com o Sergio Álvarez, escri­tor bogo­ta­no dos taxis­tas, sicá­ri­os, nar­co­tra­fi­can­tes, para­mi­li­ta­res e putas da cida­de, tra­du­zi­do na Europa intei­ra, mas, lamen­ta­vel­men­te, não para o por­tu­guês — dele, come­ce len­do o espe­ta­cu­lar La lec­to­ra que tem um dos iní­ci­os mais gan­chu­dos que já li num roman­ce.

Nós pere­gri­na­mos por uma zona de fron­tei­ra den­tro da cida­de, a Avenida Primero de Mayo, uma espé­cie de Lapa ana­bo­li­za­da e qui­nhen­tas vezes mai­or com deze­nas de casas de cum­bia, sal­sa, reg­ga­e­ton, rock e músi­ca ele­trô­ni­ca numa tran­ver­sal cha­ma­da La Cuadrapicha. Há tam­bém quilô­me­tros de bai­xa gas­tro­no­mia, bares, putei­ros e outra ave­ni­da exclu­si­va para motéis — o ecos­sis­te­ma está com­ple­to, cobrin­do o con­jun­to das neces­si­da­des huma­nas. É o lugar onde a Bogotá que exis­te — as ruas nume­ra­das em dire­ção ao nor­te — se encon­tra com a Bogotá sub­mer­sa, fora dos gui­as turís­ti­cos e des­ti­nos da mai­o­ria dos que vivem do outro lado. É um pon­to de pere­gri­na­ção notur­na, há mui­ta gen­te de luga­res dife­ren­tes e você sen­te uma ten­são de cida­de por­tuá­ria cor­tan­do o ar — até por­que o tem­po todo seus ami­gos reco­men­dam que você cui­de da sua bebi­da.

O con­tro­le da área — como o de todas as zonas rojas da cida­de e do trá­fi­co de dro­gas — está nas mãos paci­fi­ca­do­ras dos para­mi­li­ta­res. É curi­o­so per­ce­ber que o mes­mo acor­do que pare­ce em cur­so no Rio de Janeiro — a neu­tra­li­za­ção dos nar­co­tra­fi­can­tes atra­vés de acor­dos com gru­pos mili­ci­a­nos — acon­te­ceu na Colômbia há cer­ca de 10 anos: eles tro­ca­ram a bata­lha san­gren­ta entre guer­ri­lhei­ros, nar­co­tra­fi­can­tes e o exér­ci­to pelo rei­no abso­lu­to dos para.

Agora, o que eu que­ria mes­mo te con­tar, e que tem a ver mais com o Bill Cunningham que com os para­mi­li­ta­res, é que no Museo de Arte del Banco de La República vi uma obra do por­tor­ri­que­nho Tony Cruz que me dei­xou embas­ba­ca­do.

Vendo de lon­ge, são ape­nas lon­gos ris­cos hori­zon­tais e ver­ti­cais na pare­de, uns sobre os outros, fei­tos com um lápis e a aju­da de uma régua. Depois você per­ce­be algu­mas mar­cas com núme­ros — aque­las linhas repre­sen­tam uma dis­tân­cia. A dis­tân­cia entre a casa do artis­ta na sua cida­de natal, San Juan, até Bogotá, lugar do dese­nho: 1.763 quilô­me­tros.

A obra é a repre­sen­ta­ção da dis­tân­cia entre o artis­ta e a obra, Chico. Do artis­ta até a obra. Nada mais que isso — e, aí é onde com­pli­ca, nada menos.

Abraço, sau­da­des,

JP

Ps.: Me aju­da a avi­sar pros ami­gos em SP que lan­ço um livro de crô­ni­cas lá no dia 8, ter­ça pró­xi­ma? Às 20h00 vai rolar um papo segui­do de autó­gra­fos no SESC Vila Mariana (https://www.facebook.com/events/270823149674681/) e a par­tir das 22h00, uma fes­ti­nha para os ami­gos no Espaço Walden, na Praça da República (http://www.facebook.com/events/363682973674669/). Vou assi­nar livros nos dois luga­res. A capa do livro é essa aqui:

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: a obra de Tony Cruz, retra­ta­da por J. P. Cuenca.

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