Entre vales, da tragédia à reciclagem

No cinema

09.05.14

O ator Ângelo Antonio como Vicente no lon­ga “Entre Vales”

Os seis ou sete minu­tos ini­ci­ais de Entre vales, de Philippe Barcinski, estão ali para pro­du­zir, por mei­os essen­ci­al­men­te cine­ma­to­grá­fi­cos, um des­con­cer­to no espec­ta­dor.

Primeiro um homem (Ângelo Antônio) diri­ge peri­go­sa­men­te numa estra­da, à noi­te, entor­nan­do uma gar­ra­fa de bebi­da. Em segui­da, esse mes­mo homem apa­re­ce num lixão, dis­pu­tan­do res­tos de mate­ri­al reci­clá­vel com outros cata­do­res. Por fim, o mes­mo Ângelo Antônio sur­ge lim­pi­nho, bem ves­ti­do e bar­be­a­do, como um enge­nhei­ro que visi­ta com o filho (Matheus Restiffe) e com um sócio o local onde se cons­trói um ater­ro sani­tá­rio.

Por um momen­to, che­ga­mos a pen­sar que tal­vez sejam sósi­as, ou gême­os apar­ta­dos, todos vivi­dos por um úni­co ator. Mas logo per­ce­be­mos que se tra­ta de três momen­tos da vida do mes­mo homem, emba­ra­lha­dos fora de ordem. Por fim com­pre­en­de­re­mos que o momen­to da estra­da é a pas­sa­gem entre os dois extre­mos exis­ten­ci­ais do per­so­na­gem, a tra­ves­sia de um vale a outro. O res­tan­te do fil­me se encar­re­ga­rá de pre­en­cher as lacu­nas, dar sen­ti­do a esses brus­cos con­tras­tes.

Fragilidade huma­na

Se fos­se con­ta­da de modo line­ar, essa his­tó­ria seria uma tra­gé­dia fami­li­ar de anda­men­to e des­fe­cho pre­vi­sí­veis. Mas Philippe Barcisnki apos­ta tudo na for­ça das ima­gens, na capa­ci­da­de do cine­ma de com­pri­mir, dila­tar e reor­de­nar o tem­po para pro­du­zir um modo dife­ren­te de apre­en­são do mun­do, de expres­são das emo­ções.

Desde seu pri­mei­ro cur­ta, A esca­da (1996), até seu lon­ga Não por aca­so (2007), Barcinski sem­pre expe­ri­men­tou for­mas dife­ren­tes de expor a fra­gi­li­da­de huma­na, a vul­ne­ra­bi­li­da­de do indi­ví­duo dian­te da dure­za do uni­ver­so cir­cun­dan­te.

Entre vales é coe­ren­te com essa bus­ca. Seu modo de ence­na­ção nun­ca é vul­gar, nun­ca se ser­ve do diá­lo­go como mule­ta nar­ra­ti­va, nem da músi­ca como mule­ta sen­ti­men­tal. É a super­fí­cie do mun­do, a pele dos per­so­na­gens, que cons­trói sua dra­ma­tur­gia.

Tomemos dois exem­plos, logo do iní­cio. Da for­ma como é fil­ma­do, o lixão em que cha­fur­da o per­so­na­gem de Ângelo Antônio ganha vida e movi­men­to, é qua­se um ser com von­ta­de pró­pria. E o pla­no silen­ci­o­so em que vemos o filho do enge­nhei­ro cami­nhar sobre a lona que cobre o vale do futu­ro lixão suge­re, por sua deli­ca­de­za, toda a fuga­ci­da­de da exis­tên­cia. A vida é um sopro, como diz o tan­go. Leveza e angús­tia jun­tas, como nos fil­mes de Gus Van Sant cen­tra­dos em per­so­na­gens ado­les­cen­tes (Elefante, Paranoid Park).

O lugar do des­car­te

Há, além do mais, uma evi­den­te ana­lo­gia entre o lixo — aqui­lo que é des­car­ta­do como inú­til, inde­se­ja­do, sem valor de tro­ca — e a situ­a­ção do pro­ta­go­nis­ta numa soci­e­da­de que valo­ri­za os que pro­du­zem, os que lucram, os que ven­cem. Não à toa, o nome do per­so­na­gem é Vicente, que em sua ori­gem lati­na sig­ni­fi­ca “ven­ce­dor”, “con­quis­ta­dor”. Depois da que­da, ele pas­sa a se cha­mar Antônio, como o ator que o encar­na, como se tives­se sido des­po­ja­do até mes­mo da fan­ta­sia, da fic­ção, do faz de con­ta.

O que enfra­que­ce um pou­co essa bela e poten­te nar­ra­ti­va audi­o­vi­su­al é o momen­to da reden­ção, que aca­ba por con­ver­ter uma tra­gé­dia abso­lu­ta em pará­bo­la moral, a um pas­so da men­sa­gem edi­fi­can­te. A pró­pria divul­ga­ção do fil­me tem enfa­ti­za­do essa ideia de “recons­tru­ção”, de “segun­da chan­ce”. Os homens tam­bém são reci­clá­veis, afi­nal de con­tas. Talvez isso seja vis­to como neces­sá­rio para tor­nar mais supor­tá­vel aqui­lo que o fil­me nos mos­tra com todas as letras, ou antes, com todas as ima­gens: que “a vida é uma feri­da absur­da”, como já dizia outro tan­go memo­rá­vel.

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