Era uma vez… um país de imigrantes

No cinema

19.09.14

Há qua­se cem anos Charles Chaplin, ele pró­prio um estran­gei­ro nem sem­pre bem aco­lhi­do nos EUA, rea­li­zou um de seus cur­tas-metra­gens mais memo­rá­veis, O imi­gran­te (1917). De lá para cá, o tema da imi­gra­ção – sobre­tu­do da imi­gra­ção pobre, ile­gal ou clan­des­ti­na – é rea­vi­va­do de tem­pos em tem­pos no cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no. O exem­plo mais recen­te é o notá­vel Era uma vez em Nova York, de James Gray, cujo títu­lo ori­gi­nal, The immi­grant, repe­te o de Chaplin.

Só que aqui a pro­ta­go­nis­ta é uma mulher, a polo­ne­sa cató­li­ca Ewa (Marion Cotillard), que che­ga de navio a Nova York em 1921 em com­pa­nhia da irmã tuber­cu­lo­sa. Esta fica em qua­ren­te­na na Ellis Island até que se cure ou seja depor­ta­da – ou então que alguém subor­ne os res­pon­sá­veis por sua guar­da.

É nes­sa espé­cie de lim­bo, ou de antes­sa­la da América, que se pas­sa a ação do fil­me de Gray, com Ewa ten­tan­do lite­ral­men­te se virar nas ruas peri­go­sas de Nova York para res­ga­tar a irmã – e a si pró­pria – da ame­a­ça de expul­são. O homem que a aco­lhe e ambi­gua­men­te a aju­da é o judeu Bruno Weiss (Joaquin Phoenix), mis­to de empre­sá­rio tea­tral mam­bem­be e cafe­tão.

Melodrama enga­no­so

A abor­da­gem ado­ta­da pelo dire­tor é a de um enga­no­so melo­dra­ma soci­al. Por que “enga­no­so”? Porque todo melo­dra­ma pres­su­põe cer­ta dose de mani­queís­mo, para faci­li­tar a iden­ti­fi­ca­ção e a par­ti­ci­pa­ção afe­ti­va (a “tor­ci­da”) do espec­ta­dor, e aqui a todo momen­to há um ligei­ro des­lo­ca­men­to de pers­pec­ti­va, como a reve­la­ção de um fun­do fal­so, a sola­par os esbo­ços de cer­te­za for­ma­dos na expec­ta­ti­va do públi­co. A pri­mei­ra apa­rên­cia dos per­so­na­gens sem­pre enga­na, reve­la-se com o tem­po mais cheia de som­bras e nuan­ces do que se sus­pei­ta­va a prin­cí­pio.

E é exa­ta­men­te de som­bras que se tra­ta em Era uma vez em Nova York, fil­me de ambi­en­ta­ção notur­na e ene­vo­a­da, em que sem­pre pare­ce que há algo impor­tan­te que não se dis­tin­gue bem, ou por estar fora do qua­dro, ou na escu­ri­dão, ou obs­truí­do por algu­ma pare­de, cor­ti­na ou obje­to em pri­mei­ro pla­no.

Esse jogo de enco­bri­men­to e reve­la­ção pro­duz alguns dos momen­tos mais for­tes do fil­me: uma faca­da que não se vê por­que agres­sor e víti­ma são fil­ma­dos dema­si­a­do de per­to; um espan­ca­men­to numa pas­sa­gem sub­ter­râ­nea em que só vemos a dan­ça das luzes das lan­ter­nas dos espan­ca­do­res; o fal­so reco­nhe­ci­men­to da irmã na pla­teia de um show de mági­ca.

Nesses deta­lhes o fil­me de Gray mati­za sua estru­tu­ra osten­si­va­men­te ana­crô­ni­ca, de melo­dra­ma clás­si­co, e reno­va con­ti­nu­a­men­te seu inte­res­se nar­ra­ti­vo e esté­ti­co. Há um pla­no mui­to ins­pi­ra­do, que des­cre­ve­rei vaga­men­te para não entre­gar o enre­do: por uma jane­la vemos duas per­so­na­gens afas­ta­rem-se de bote, à noi­te, enquan­to em pri­mei­ro pla­no o per­fil de uma ter­cei­ra pes­soa as obser­va. Uma ima­gem que subli­nha a ambi­gui­da­de de gêne­ro do títu­lo ori­gi­nal: afi­nal, é “a imi­gran­te” ou “o imi­gran­te”?

Expansão e atra­ção

Não dei­xa de ser curi­o­so notar uma cer­ta dia­lé­ti­ca entre os fil­mes ame­ri­ca­nos que exal­tam a ideia de expan­são – para o Oeste, para os outros con­ti­nen­tes (por meio da guer­ra), para o espa­ço side­ral – e os que ilu­mi­nam a pró­pria for­ma­ção con­tra­di­tó­ria dos EUA moder­nos por meio da imi­gra­ção em mas­sa – e aqui pode­ría­mos incluir des­de América América, de Elia Kazan, até o Scarface de Brian DePalma, pas­san­do por O Poderoso Chefão, de Coppola, e Era uma vez na América, de Sergio Leone. O movi­men­to cen­trí­fu­go e o cen­trí­pe­to. Nestes últi­mos pre­do­mi­na sem­pre uma visão amar­ga, desen­can­ta­da, o aves­so do ame­ri­can dre­am. Com o fil­me de James Gray não é dife­ren­te.

Para não ter­mi­nar de modo tão som­brio, aqui vai de brin­de, na ínte­gra, o cur­ta de Chaplin cita­do no iní­cio:

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