O cineasta Luiz Rosemberg

O cineasta Luiz Rosemberg

Eros e Tânatos

No cinema

22.06.17

Dia de falar bre­ve­men­te de assun­tos diver­sos.

Primeiro: está acon­te­cen­do até o pró­xi­mo dia 27 a 12ª edi­ção da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, even­to dedi­ca­do espe­ci­al­men­te à pre­ser­va­ção da memó­ria do cine­ma – e da memó­ria do país por meio do cine­ma. Este ano serão home­na­ge­a­dos o pes­qui­sa­dor e dici­o­na­ris­ta Antônio Leão da Silva Neto, a mon­ta­do­ra Cristina Amaral e o pro­je­to Vídeo nas Aldeias, cri­a­do e capi­ta­ne­a­do pelo docu­men­ta­ris­ta Vincent Carelli (de Martírio).

O fil­me de aber­tu­ra do even­to, no dia 22 (quin­ta-fei­ra), Desarquivando Alice Gonzaga, de Betse de Paula, fala sobre a Cinédia, do pio­nei­ro Adhemar Gonzaga, a par­tir da luta de sua filha pela pre­ser­va­ção da memó­ria e do patrimô­nio fíl­mi­co do estú­dio cari­o­ca.

Outro docu­men­tá­rio impor­tan­te incluí­do na pro­gra­ma­ção da CineOP é Rosemberg – cine­ma, cola­gem e afe­tos, que está em car­taz no Rio e deve seguir depois para outras cida­des. Esse é o segun­do assun­to que que­ro abor­dar aqui.

Rosemberg

Homenageado há três anos com uma retros­pec­ti­va na pró­pria CineOP, Luiz Rosemberg é um fenô­me­no sin­gu­lar na cine­ma­to­gra­fia bra­si­lei­ra. Cineasta radi­cal­men­te auto­ral, rea­li­zou nos anos 1970 obras mar­can­tes como Jardim das espu­mas (1971), A$$untina das Amérikas (1976) e Crônica de um indus­tri­al 1978). Dirigiu ain­da uma espé­cie de meta­por­no­chan­cha­da, O san­to e a vede­te (1982) e depois dis­so fez deze­nas de cur­tas e víde­os que infe­liz­men­te pou­ca gen­te viu.

Em 2014, depois de mais de três déca­das sem rea­li­zar um lon­ga, apre­sen­tou Dois casa­men­tos, segui­do dois anos depois pelo estu­pen­do Guerra do Paraguay. No mes­mo perío­do diri­giu um punha­do de cur­tas pro­vo­ca­do­res, des­pu­do­ra­dos, des­con­cer­tan­tes.

Renascimento cri­a­ti­vo

Esse renas­ci­men­to cri­a­ti­vo do cine­as­ta depois dos seten­ta anos, que lem­bra o caso aná­lo­go de Eduardo Coutinho, deve mui­to ao empe­nho de um jovem admi­ra­dor, Cavi Borges, que pro­du­ziu, com pou­cos recur­sos e mui­to entu­si­as­mo, todos os seus fil­mes mais recen­tes. Cavi é tam­bém co-dire­tor do docu­men­tá­rio Rosemberg – cine­ma, cola­gem e afe­tos, jun­to com Christian Caselli.

Pois bem. O docu­men­tá­rio for­ne­ce de manei­ra qua­se didá­ti­ca algu­mas cha­ves para pene­trar nes­sa obra úni­ca e sem con­ces­sões, que foi incluí­da à reve­lia no mal cha­ma­do “cine­ma mar­gi­nal” por pura pre­gui­ça clas­si­fi­ca­tó­ria do nos­so jor­na­lis­mo cul­tu­ral.

O pri­mei­ro acer­to do fil­me é ado­tar, como tema e méto­do, o prin­cí­pio da cola­gem. Rosemberg mon­ta há déca­das um pai­nel com fotos, dese­nhos e pala­vras impres­sas que de algu­ma for­ma expres­sam, em múl­ti­plas cone­xões, suas idei­as, fan­ta­si­as e emo­ções. Há de tudo ali: cenas de fil­mes, ins­tan­tâ­ne­os de ami­gos, repro­du­ções de obras artís­ti­cas, fotos de jor­nal, gra­vu­ras, tex­tos, rabis­cos.

O docu­men­tá­rio de Cavi Borges e Christian Caselli, de cer­ta for­ma, faz o mes­mo. Sob o depoi­men­to atu­al do pró­prio Rosemberg, em voi­ce over, vão des­fi­lan­do – ou melhor, se cho­can­do – tre­chos de fil­mes seus e alhei­os, ima­gens de arqui­vo e ani­ma­ções de todos os tipos. Longe de com­por uma bara­fun­da ale­a­tó­ria e incom­pre­en­sí­vel, os sig­nos se escla­re­cem mutu­a­men­te, pro­du­zem faís­cas de luci­dez e poe­sia.

Assim é, em gran­de par­te, o cine­ma de Rosemberg: uma rear­ti­cu­la­ção cri­a­ti­va de ima­gens já exis­ten­tes, ao lado da pro­du­ção de ima­gens poten­tes e ori­gi­nais. Um diá­lo­go com gêne­ros esta­be­le­ci­dos, como o musi­cal, o fil­me eró­ti­co, o docu­men­tá­rio soci­al – tudo isso com um viés ao mes­mo tem­po feroz­men­te polí­ti­co e pro­fun­da­men­te amo­ro­so.

Os fil­mes do dire­tor, do pri­mei­ro ao mais recen­te, denun­ci­am sis­te­ma­ti­ca­men­te todas as for­mas de opres­são e todos os dis­cur­sos de impos­tu­ra (incluin­do os do pró­prio cine­ma de entre­te­ni­men­to), e ao mes­mo tem­po exal­tam a liber­da­de e o amor sob todas as suas for­mas. A dife­ren­ça está tal­vez numa mai­or depu­ra­ção for­mal das últi­mas obras, numa sín­te­se ou essen­ci­a­li­za­ção que se ali­men­ta mui­to do tea­tro e que con­tras­ta com a hete­ro­ge­nei­da­de fla­gran­te de regis­tros e tex­tu­ras dos fil­mes dos anos 1970. No mais, qual­quer que seja o enre­do, o gêne­ro ou o ambi­en­te, é sem­pre o emba­te de Eros e Tânatos – e Rosemberg, artis­ta gene­ro­so e ínte­gro como pou­cos, está sem­pre, com todas as suas armas, do lado do pri­mei­ro.

Tabu na Sessão Cinética

O ter­cei­ro assun­to da colu­na é a exi­bi­ção de um dos fil­mes mais lin­dos da his­tó­ria do cine­ma na Sessão Cinética de hoje (quin­ta, 22) no Instituto Moreira Salles do Rio.

Estou falan­do de Tabu (1931), últi­mo fil­me do gênio Friedrich Murnau. A his­tó­ria do trá­gi­co amor proi­bi­do entre dois jovens nati­vos de uma ilha dos Mares do Sul – o pes­ca­dor e mer­gu­lha­dor Matahi e a don­ze­la Reri, pro­me­ti­da ao rei da região – é um fecho à altu­ra de uma obra que tem entre seus pon­tos lumi­no­sos Nosferatu, Fausto, O últi­mo homem e Aurora. Mas ao mes­mo tem­po repre­sen­ta um des­do­bra­men­to esté­ti­co que apon­ta­va para uma supe­ra­ção do cine­ma pro­du­zi­do até então por Murnau (que mor­reu logo depois num aci­den­te de car­ro).

Aqui, asso­ci­an­do-se ao docu­men­ta­ris­ta nor­te-ame­ri­ca­no Robert Flaherty como co-rotei­ris­ta e copro­du­tor, o dire­tor ale­mão mati­za seu pen­dor para a esti­li­za­ção expres­si­o­nis­ta com a obser­va­ção etno­grá­fi­ca, mais “rea­lis­ta”, da vida de uma comu­ni­da­de qua­se into­ca­da pela civi­li­za­ção oci­den­tal. Continua pre­sen­te o extre­mo domí­nio da luz e da som­bra como os ele­men­tos essen­ci­ais de nar­ra­ção e expres­são, mas ao lado de uma sen­su­a­li­da­de nun­ca antes expos­ta de modo tão car­nal em seu cine­ma.

Uma sen­su­a­li­da­de, aliás, que não se mos­tra ape­nas nos relu­zen­tes cor­pos semi­nus de homens e mulhe­res, não ape­nas em suas carí­ci­as e dan­ças, mas no pró­prio rit­mo do fil­me, com seus momen­tos de exci­ta­ção cres­cen­te segui­dos por um ralen­tar das ações, por um alon­ga­men­to dos pla­nos, qua­se como se essa alter­nân­cia cor­res­pon­des­se a ciclos de dese­jo e cul­pa, impul­so vital e mor­te. (Desconfio que Luiz Rosemberg gos­te mui­to des­se fil­me.)

Como sem­pre ocor­re nes­sas ses­sões men­sais, have­rá um deba­te com os crí­ti­cos da revis­ta Cinética depois da exi­bi­ção do fil­me. O pró­xi­mo títu­lo, pro­gra­ma­do para julho, é Tocaia no asfal­to (1962), mar­can­te poli­ci­al soci­al do bai­a­no Roberto Pires, um dos pre­cur­so­res do Cinema Novo, em que Agildo Ribeiro, mais conhe­ci­do como come­di­an­te, encar­na um mata­dor pro­fis­si­o­nal.

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