Escritores no set

Correspondência

11.08.11

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Caro Sérgio,

 

Sua car­ta foi mui­to elu­ci­da­ti­va das rela­ções da sua lite­ra­tu­ra com o cine­ma. Vai ficar como docu­men­to para pes­qui­sa­do­res, lei­to­res, ciné­fi­los e curi­o­sos em geral. Essa ques­tão — o trân­si­to dos livros às telas — é uma das mais anti­gas e con­tro­ver­sas da his­tó­ria do cine­ma, como você sabe.

Scott Fitzgerald escre­veu um roman­ce “defi­ni­ti­vo”, ain­da que ina­ca­ba­do, em tor­no des­se tema (e de mui­tos outros), O últi­mo mag­na­ta, que aliás virou um belo e subes­ti­ma­do fil­me, o últi­mo de Elia Kazan.

No livro A cida­de das redes, Otto Friedrich nar­ra sabo­ro­sa­men­te, entre outras coi­sas, as rela­ções nem sem­pre harmô­ni­cas de gran­des escri­to­res com a Hollywood da era dos estú­di­os. Brecht, Faulkner, Chandler, Thomas Mann, Hemingway, além do pró­prio Fitzgerald, todo mun­do pas­sou por lá. Desse emba­te, mar­ca­do pelo fas­cí­nio e pela repul­sa mútu­os, saí­ram faís­cas geni­ais, mas tam­bém mui­tas tra­pa­lha­das e algu­mas tra­gé­di­as.

Alguns escri­to­res nun­ca enten­de­ram a natu­re­za do novo meio de expres­são e se agas­ta­ram com o que jul­ga­vam ser uma adul­te­ra­ção de sua arte e um bara­te­a­men­to de suas idei­as.

Eu me lem­bro par­ti­cu­lar­men­te do caso de Raymond Chandler, que escre­veu a qua­tro mãos com Billy Wilder o rotei­ro de Double indem­nity (no Brasil, Pacto de san­gue), base­a­do em roman­ce de James L. Cain. Os dois se digla­di­a­ram o tem­po todo duran­te os vári­os meses em que tra­ba­lha­ram jun­tos. Para come­çar, Chandler se sen­tia humi­lha­do em adap­tar o tex­to de um autor que ele con­si­de­ra­va menor. Wilder, por sua vez, dis­se que enve­lhe­ceu uns cin­co anos no tra­ba­lho com o escri­tor. O resul­ta­do des­se infer­no com­par­ti­lha­do, no entan­to, é um dra­ma noir dos mais bri­lhan­tes que o cine­ma pro­du­ziu.

Até hoje há quem diga que só livros ruins ren­dem fil­mes bons — e um exem­plo mui­to cita­do é o dos óti­mos fil­mes de Hitchcock ins­pi­ra­dos em obras medío­cres de Daphne Du Maurier (Estalagem mal­di­ta, Rebecca, Os pás­sa­ros). Mas há os con­tra­e­xem­plos incon­tes­tá­veis: de Morte em Veneza (Mann/Visconti) a Vidas secas (Graciliano/Nelson Pereira), são inú­me­ros os casos de fil­mes que dia­lo­ga­ram de igual para igual com as obras-pri­mas que os ins­pi­ra­ram. (Isso para não falar dos livros ruins que gera­ram fil­mes igual­men­te ruins.)

O fato é que não se pode pen­sar em fide­li­da­de à letra do tex­to quan­do se pas­sa da lite­ra­tu­ra ao cine­ma. Não há nada mais enfa­do­nho do que fil­mes que se limi­tam a “ilus­trar com ima­gens” uma nar­ra­ti­va lite­rá­ria. O cine­ma aca­dê­mi­co bri­tâ­ni­co está cheio de exem­plos des­se tipo.

Para quem se inte­res­sa pelo assun­to, reco­men­do um livro mui­to bom do crí­ti­co José Carlos Avellar, O chão da pala­vra (Rocco), que ape­sar do sub­tí­tu­lo res­tri­ti­vo — Cinema e lite­ra­tu­ra no Brasil — fala tam­bém, entre outras coi­sas, das inú­me­ras ten­ta­ti­vas mais ou menos frus­tra­das de levar Proust às telas.

Outra ques­tão que daria pano para man­ga é a da mão inver­sa, ou seja, a da influên­cia do cine­ma sobre a lite­ra­tu­ra con­tem­po­râ­nea.

Penso que a sua lite­ra­tu­ra, Sérgio, está na con­fluên­cia entre essas tro­cas, no sen­ti­do de que ela já tem em si uma voca­ção, diga­mos, mul­ti­mei­os, por for­çar os limi­tes entre a lite­ra­tu­ra e o cine­ma, o tea­tro, as artes visu­ais, a músi­ca (sem falar de for­mas nar­ra­ti­vas não-fic­ci­o­nais, como a repor­ta­gem, o ensaio, o diá­rio, as memó­ri­as). Talvez eu este­ja me expres­san­do mal: tra­ta-se antes, no seu caso, de impreg­nar com essas outras lin­gua­gens o tex­to lite­rá­rio, dei­xá-lo se ali­men­tar delas.

Por tudo isso, lem­bro que fiquei ani­ma­do quan­do o Jabor (na épo­ca meu ami­go) me dis­se que que­ria fil­mar Senhorita Simpson. E lamen­tei mui­to quan­do o pro­je­to se desen­ca­mi­nhou.

Mas esta car­ta está fican­do lon­ga e ain­da fal­ta te fazer uma per­gun­ta que me foi sopra­da pelo escri­tor e jor­na­lis­ta Ronaldo Bressane: e “O gori­la”, con­to do livro O voo da madru­ga­da? Pelo que enten­di da per­gun­ta enig­má­ti­ca do Ronaldo, o con­to foi ou será leva­do ao cine­ma. É isso mes­mo?

Fiquei tam­bém com água na boca pen­san­do na pos­sí­vel adap­ta­ção do Livro de Praga, que você men­ci­o­nou na últi­ma car­ta. Só res­ta tor­cer para que não caia, como a pobre Miss Simpson, em mãos erra­das.

 

Grande abra­ço,

 

Zé Geraldo

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: Jack Nicholson e Robert De Niro em O últi­mo mag­na­ta (1976), de Elia Kazan

 

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