Está dada a “partidA” para um referente vazio

Colunistas

03.06.15

E se a for­ma par­ti­da ele­vas­se a ‘par­ti­da’ à con­cei­to, ten­do em vis­ta que a ‘for­ma par­ti­da’ não se reduz ao par­ti­do polí­ti­co?” Por cau­sa des­sa per­gun­ta, e por con­si­de­rar, como o filó­so­fo Peter Sloterdijk, que livros, arti­gos e ensai­os são car­tas envi­a­das a ami­gos, hoje me ende­re­ço dire­ta­men­te a uma ami­ga – a filó­so­fa Marcia Tiburi – e a sua pro­pos­ta de cri­a­ção de um Partido Feminista, cujo deba­te vem sen­do fei­to em diver­sas cida­des do país. Ontem em São Paulo, sema­na pas­sa­da no Rio de Janeiro, tive a opor­tu­ni­da­de de estar no audi­tó­rio da OAB com tan­tas mulhe­res (e alguns homens) dis­pos­tos a dis­cu­tir a cri­a­ção de um par­ti­do femi­nis­ta. Quando acei­tei ouvi-la, esta­va par­ti­cu­lar­men­te curi­o­sa sobre como, dian­te de uma cri­se de repre­sen­ta­ção que é, do meu pon­to de vis­ta, mar­ca da polí­ti­ca con­tem­po­râ­nea, e dian­te de uma falên­cia com­ple­ta das for­mas tra­di­ci­o­nais de fazer polí­ti­ca, uma filó­so­fa tinha a ousa­dia de jun­tar duas pala­vras tão com­pli­ca­das – par­ti­do e femi­nis­ta – numa pro­pos­ta par­ti­dá­ria.

Sobre par­ti­dos polí­ti­cos, escre­vi um arti­go crí­ti­co, e Marcia Tiburi, numa lei­tu­ra aten­ta e gene­ro­sa que ten­to retri­buir, repli­cou meus argu­men­tos, avan­çan­do em ques­tões que me inte­res­sam deba­ter. Estamos, ambas, movi­das por uma mes­ma ques­tão: como trans­for­mar a demo­cra­cia for­mal em demo­cra­cia de fato? Resumo o deba­te a este pon­to para reto­mar um argu­men­to femi­nis­ta clás­si­co. Nunca hou­ve um regi­me que pudes­se se auto-deno­mi­nar demo­cra­cia antes que as mulhe­res tives­sem direi­to ao voto. É uma rei­vin­di­ca­ção lógi­ca: se as mulhe­res são meta­de da huma­ni­da­de, nenhum regi­me repre­sen­ta­ti­vo con­se­gue fazer jus­ti­ça a essa deno­mi­na­ção se as mulhe­res não tive­rem par­ti­ci­pa­do da esco­lha. Historicamente, mulhe­res foram subre­pre­sen­ta­das na estru­tu­ra demo­crá­ti­ca, uma espé­cie de defi­ci­ên­cia ori­gi­ná­ria na his­tó­ria da demo­cra­cia des­de a Grécia anti­ga (até por­que a Grécia hoje é outra con­ver­sa). Ter um par­ti­do femi­nis­ta, por­tan­to, pode­ria ser uma estra­té­gia polí­ti­ca deci­si­va para suprir esse défi­cit (os ter­mos econô­mi­cos são pro­po­si­tais, é pre­ci­so cál­cu­lo mate­má­ti­co para ven­cer bata­lhas par­la­men­ta­res que temos per­di­do de lava­da).

A con­quis­ta pelas mulhe­res do direi­to ao voto é resul­ta­do de inú­me­ras lutas. De bata­lha em bata­lha, desem­pe­nha­mos impor­tan­te papel no pro­ces­so de apri­mo­ra­men­to do sis­te­ma repre­sen­ta­ti­vo, ain­da que, como argu­men­ta o filó­so­fo Jacques Rancière, a repre­sen­ta­ção tenha se pos­to a ser­vi­ço da manu­ten­ção  do poder na mão de pou­cos. Era sobre esse e outros pro­ble­mas que eu pen­sa­va enquan­to ouvia o deba­te sobre a for­ma­ção de um par­ti­do femi­nis­ta. A par­tir do que ouviu, Marcia Tiburi saiu da con­ver­sa com um cader­ni­nho ver­me­lho cheio de ano­ta­ções e propôs uma trans­for­ma­ção impor­tan­te. De Partido Feminista para par­ti­dA, numa refe­rên­cia explí­ci­ta ao gêne­ro femi­ni­no – A – e num des­lo­ca­men­to da letra maiús­cu­la para o final, por­que se A indi­ca for­ça, que esta for­ça este­ja no gêne­ro femi­ni­no que a pala­vra assim gra­fa­da apre­sen­ta. Essa é uma pro­pos­ta que me seduz, quan­do diz: “Claro que o cam­po do par­ti­do tra­di­ci­o­nal tem algo de obs­cu­ro. Mas é cla­ro tam­bém que a for­ma par­ti­da tem algo de pro­ces­su­al em ter­mos de ação. E é isso que pode­mos per­ce­ber na inten­ção de novas for­mas de fazer polí­ti­ca”.

A par­ti­dA car­re­ga a ideia de ini­ci­ar, mover, movi­men­tar, daí a gíria que Marcia Tiburi recu­pe­ra: #par­tiu. Por isso, par­ti­dA, me pare­ce indi­car duas trans­for­ma­ções neces­sá­ri­as na for­ma de fazer polí­ti­ca repre­sen­ta­ti­va, capa­zes de res­pon­der a duas crí­ti­cas. A pri­mei­ra crí­ti­ca: um dos pro­ble­mas dos par­ti­dos repre­sen­ta­ti­vos tem a ver com a exi­gên­cia de uma uni­vo­ci­da­de inter­na, de uma coe­rên­cia que esta­bi­li­ze dife­ren­ças, e por­tan­to aca­be, con­tra­di­to­ri­a­men­te, impon­do uma for­ma úni­ca para aqui­lo que só tem potên­cia polí­ti­ca se for dis­for­me, plu­ral, equi­vo­ca­do. A segun­da crí­ti­ca: um par­ti­do polí­ti­co cor­re o ris­co de man­ter-se no poder não em fun­ção daque­les que o ele­ge­ram, mas ape­nas em fun­ção de seus pró­pri­os inte­res­ses de se man­ter no poder.

A par­ti­dA pode dar con­ta des­tas duas crí­ti­cas se con­si­de­ra­mos a fun­ção da letra A. Primeiro, por acen­tu­ar, mar­car, exa­ge­rar o cará­ter femi­nis­ta des­ta orga­ni­za­ção de pes­so­as. Retoma-se, assim, uma das impor­tan­tes carac­te­rís­ti­cas do movi­men­to femi­nis­ta ao lon­go da his­tó­ria, a plu­ra­li­da­de. Há tam­bém na pala­vra par­ti­dA a inten­ção de bus­car outra for­ma – femi­ni­na, não mas­cu­li­na ou não tra­di­ci­o­nal – de exer­cí­cio do poder. Partir pode ser tam­bém com­par­tir, com­par­ti­lhar. Neste pon­to, escre­vo com Marcia Tiburi: “poder par­ti­lha­do não é mais poder sim­ples­men­te…”.

A segun­da onda do femi­nis­mo tem alguns mar­cos. A entre­vis­ta da escri­to­ra femi­nis­ta Betty Friedan ao Pasquim, em 1972, de quem a edi­to­ra Rose Marie Muraro publi­cou A mís­ti­ca femi­ni­na, o livro que ousa­va dar nome à insa­tis­fa­ção das mulhe­res. A segun­da onda tam­bém come­çou numa reu­nião na ABI, em 1975. A par­tir dali, o movi­men­to de mulhe­res come­çou a mudar a cara da soci­e­da­de bra­si­lei­ra. Foram inú­me­ras as con­quis­tas, mui­tas escri­tas na Constituinte de 1988 a par­tir do já famo­so Lobby do Batom, outras trans­for­ma­das em vitó­ri­as jurí­di­cas, como a Lei Maria da Penha e o femi­ni­cí­dio como agra­van­te para pena, resul­ta­dos de uma lon­ga luta pelo reco­nhe­ci­men­to da vio­lên­cia con­tra a mulher como pro­ble­ma polí­ti­co e soci­al. Conselhos naci­o­nais, esta­du­ais, a for­ma­li­za­ção de uma secre­ta­ria espe­ci­al de polí­ti­ca para mulhe­res, a cri­a­ção de dife­ren­tes orga­ni­za­ções não-gover­na­men­tais com atu­a­ções e pau­tas das mais diver­sas foram cri­a­das. No entan­to, argu­men­ta Marcia Tiburi, é como se mui­to do tan­to que foi fei­to tives­se se man­ti­do à som­bra. A fim de recu­sar a entra­da nas for­mas tra­di­ci­o­nais de polí­ti­ca, uma gera­ção intei­ra de mulhe­res rejei­tou tam­bém o pro­ta­go­nis­mo no cam­po polí­ti­co, por­que, como reco­nhe­ce a filó­so­fa, “ao man­ter-se fora algu­mas pen­sam nos ter­mos do man­ter-se lim­pas, com o estô­ma­go a sal­vo das náu­se­as polí­ti­cas de hoje. Outras, que fazem polí­ti­ca alter­na­ti­va de um jei­to ele­gan­te e sin­ce­ro, pen­sam que a vida fora da polí­ti­ca ins­ti­tu­ci­o­nal, fora dos par­ti­dos e do Estado, ou, sobre­tu­do, fora da gover­na­bi­li­da­de onde se pen­sa com o cli­chê de que o poder cor­rom­pe, é mui­to mais rica do que a for­ma par­ti­da.”  Mas – aqui não abro aspas por que faço minhas as pala­vras dela – não pode­mos per­der de vis­ta que o lugar alter­na­ti­vo pode ficar sem­pre em esta­do de subal­ter­ni­da­de. Queremos dizer com isso, que há momen­tos na his­tó­ria em que é pre­ci­so atu­ar com for­ça.

Em outras pala­vras, o que Marcia Tiburi pro­põe é – para usar uma expres­são da moda – sair do armá­rio e entrar na polí­ti­ca par­la­men­tar. Fazer isso de outro jei­to é o desa­fio de par­ti­da, o desa­fio da par­ti­dA. Para ven­cer essa par­ti­da – aqui como sinô­ni­mo de jogo –, é pre­ci­so con­si­de­rar um dos deba­tes que tem mobi­li­za­do o movi­men­to femi­nis­ta há 25 anos, des­de a publi­ca­ção de Problemas de gêne­ro – femi­nis­mo e sub­ver­são da iden­ti­da­de, da filó­so­fa Judith Butler. Trata-se de pen­sar um femi­nis­mo que não seja fei­to em nome do “sujei­to mulher”, o que exi­ge uma iden­ti­da­de pré­via do refe­ren­te mulher a ser repre­sen­ta­do e, con­tra­di­to­ri­a­men­te, obri­ga a um fecha­men­to no lugar onde se quer rei­vin­di­car aber­tu­ra. Um bom exem­plo está cir­cu­lan­do pelas redes soci­ais sob o títu­lo “Por um femi­nis­mo que ouça a Mallu antes”, deman­da de que o femi­nis­mo não repro­du­za aqui­lo con­tra o qual as sem­pre luta­mos: tute­lem as mulhe­res. Ou, como há mais de um sécu­lo rei­vin­di­ca­va a femi­nis­ta anar­quis­ta Emma Goldman: “De nada me ser­ve a sua revo­lu­ção se eu não puder dan­çar”.

Talvez Marcia Tiburi não con­cor­de comi­go, mas se a par­ti­dA for dada em dire­ção a um refe­ren­te vazio de con­teú­do, capaz de repre­sen­tar não um gru­po pre­vi­a­men­te res­tri­to a cer­tas carac­te­rís­ti­cas iden­ti­tá­ri­as, mas a todas as sin­gu­la­ri­da­des (o que, a rigor, redun­da numa outra for­ma de uni­ver­sa­li­da­de, como dis­cu­to em tex­to que ende­re­ço ao ami­go Vladimir Safatle), a for­ma par­ti­dA pas­sa­rá a fun­ci­o­nar para além das res­tri­ções da atu­al estru­tu­ra par­ti­dá­ria e ain­da tra­rá um novo ins­tru­men­to para ques­ti­o­ná-las. 

Por tudo isso, o mais ins­ti­gan­te da par­ti­dA pro­pos­ta por Marcia Tiburi está em pen­sá-la como expres­são de uma épo­ca “em que mas­sas dão lugar a mul­ti­dões. Multidões que se liber­tam e que se per­dem e que se refa­zem, mas que estão acor­da­das, mes­mo que não este­jam lúci­das, mes­mo que este­jam con­fu­sas, mes­mo que pos­sam, mui­tas vezes, ser cap­tu­ra­das e recon­du­zi­das a posi­ção das mas­sas humi­lha­das (tor­nar-se um fas­cis­ta é ser humi­lha­do poli­ti­ca­men­te sem per­ce­ber que o é) sem que se deem con­ta do que fazem. Vivemos uma épo­ca em que nin­guém mais quer ser repre­sen­ta­do sim­ples­men­te. Em que cada um e todo mun­do quer estar jun­to, fazer e mudar sen­do sujei­to e ator da pró­pria his­tó­ria. Uma épo­ca em que todos com+partilham. E #par­tem.”

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