Estou metafísica, pois ainda não jantei

Correspondência

29.10.12

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Querido Ronaldo,

Sua car­ta foi uma tor­ren­te arras­tan­do uma por­ção de suges­tões de peças: as eta­pas  ora­li­za­das da pai­xão (cre­do!), ou o con­to dos aman­tes no res­tau­ran­te, fis­ga­dos pelo celu­lar — todos cabe­ri­am mui­to bem numa comé­dia.  A crô­ni­ca do son­so-coxis­mo tam­bém,  por­que ela cobre os espa­ços mais dife­ren­tes com dife­ren­tes ato­res, além dos que você citou. Por exem­plo, alguns pro­fes­so­res das uni­ver­si­da­des públi­cas tam­bém dizem que só mere­cem um “vale-coxi­nha” com a aju­da que rece­bem para o super­mer­ca­do — acho isso estra­nhís­si­mo, embo­ra não tenha nada con­tra. Mas tam­bém acho estra­nho que os apo­sen­ta­dos não rece­bam a tal coxi­nha. Será que os pode­res acham que eles não pre­ci­sam mais comer? Ou que comem pou­co? Ou que pre­ci­sam se espi­ri­tu­a­li­zar, já que supos­ta­men­te estão com o pé na cova?

É bom lem­brar a  res­pos­ta de Rocinante, o pan­ga­ré do Quixote, a outro cava­lo (acho que o de Carlos Magno), que  tinha fei­to o seguin­te comen­tá­rio ao que ele dizia:

- Es que estás meta­fí­si­co!

- Es que no como — res­pon­deu Rocinante.

Lição para se medi­tar com algum cui­da­do dian­te dos famin­tos ver­da­dei­ros. Se o argu­men­to pega…

Fico com his­tó­ria da Juju — tam­bém dá sam­ba — que ape­sar de apo­sen­ta­da em São Paulo, esta­va dan­do um cur­so em Santa Catarina. Talvez hou­ves­se san­to demais na his­tó­ria, a pro­te­ção não fun­ci­o­nou. Ou tal­vez os dois san­tos fos­sem paren­tes daque­le anjo-da-guar­da dos nos­sos índi­os. Segundo Murilo Mendes, esse tal anjo só vivia em Paris, “are­jan­do”, não pro­te­gia nada nem nin­guém.

Mas tam­bém estou meta­fí­si­ca, é que ain­da não jan­tei.

O fato é que Juju esque­ceu de com­pa­re­cer à facul­da­de no mês de seu ani­ver­sá­rio, que era  jus­to aque­le, para fazer o tal reca­das­tra­men­to, isto é, para assi­nar o ates­ta­do-vida, quer dizer, tinha que com­pa­re­cer para pro­var que não esta­va mor­ta.  Tudo bem, sem isso tal­vez haja a mai­or cor­rup­ção, gen­te viva rece­ben­do dinhei­ro de  gen­te mor­ta etc e tal.

Mas um belo dia, se dan­do con­ta de que não assi­na­ra o tal ates­ta­do, Juju tele­fo­nou para a secre­ta­ria encar­re­ga­da do assun­to,  dizen­do: estou tra­ba­lhan­do  aqui, no mês que vem che­go e assi­no. Aliás nes­sa épo­ca estou numa ban­ca de dou­to­ra­do aí na facul­da­de.

- Ah, não pode, seu mês de ani­ver­sá­rio é este, não pode assi­nar no mês que vem.

- Mas você não me conhe­ce? Não está falan­do comi­go? Não iden­ti­fi­ca minha voz? Não vou estar numa ban­ca aí no mês que vem? Não sabe que estou viva?

(Juju des­con­si­de­rou o fato de que para mor­rer, bas­ta­va estar viva)

- Claro, conhe­ço a sua voz, mas não se tra­ta dis­so, é a lei, será que a senho­ra não enten­de? Tenho que envi­ar todos os ates­ta­dos no últi­mo dia do mês. Im-pre-te-ri-vel-men-te.

Juju insis­tiu, acho que ain­da tinha espe­ran­ças no famo­so jei­ti­nho.

-Mas não pode expli­car, dizer que estou tra­ba­lhan­do lon­ge? Não pos­so aban­do­nar o cur­so, sair assim de repen­te…

- Olhe, dona Juraci, lei é lei, depois vai sobrar pra mim. É por isso que este país não vai pra fren­te…

Juju bateu o tele­fo­ne numa ver­ti­gem e me ligou em segui­da pelo Skype, deses­pe­ra­da, tam­bém por ter bati­do o tele­fo­ne. Era con­tra seus prin­cí­pi­os. Explicou aos gri­tos que ia gas­tar no avião o que rece­be­ria no tra­ba­lho extra, além daque­le estres­se  todo. Podia mes­mo ter um tre­co no cora­ção.

- Calma, Juju.

Bom, nada dis­so, Ronaldo, se com­pa­ra a suas épi­cas des­cri­ções da pra­ça que cus­tou 55 milhões dos cofres (nos­sos?) e se apre­sen­ta  com­ple­ta­men­te des­pi­da (isso não é um ver­da­dei­ro aten­ta­do ao pudor?) ain­da por cima toma­da pela falan­ge cor-de-rosa e pelos ska­tis­tas, num paraí­so com hora mar­ca­da. Passei do espan­to ao pas­mo, como diz a Margarida.

É isso aí,  a gen­te não enxer­ga os pró­pri­os códi­gos. E então vol­ta­mos pra Berkeley. Talvez eu tives­se faci­li­ta­do uma inter­pre­ta­ção um pou­co engo­ma­da, sobre o que con­tei sobre a per­mis­são para rir em sala de aula. São ape­nas códi­gos. O fato é que minha rela­ção com eles cada vez  é melhor. Fazem todos os tra­ba­lhos, às vezes os refa­zem a meu pedi­do e com mui­to boa von­ta­de. Acho que estão melho­ran­do mui­to no por­tu­guês, que é o que eles que­rem. Além dis­so, têm humor, ao lado da crí­ti­ca.

Eu esta­va sen­ta­da com uma alu­na num ban­co do par­que ao redor do cam­pus,  dan­do uma aju­da na lei­tu­ra de um poe­ma. Era offi­ce hour, mas deci­di­mos ir lá para fora, por­que esta­va um dia lin­do. Os esqui­los pas­sa­vam de um lado para outro, subi­am e des­ci­am de árvo­res, com aque­les pon­tos de inter­ro­ga­ção dos rabos apa­re­cen­do e desa­pa­re­cen­do.

De repen­te um deles parou dian­te de nós e ficou nos olhan­do fixa­men­te, sem se mexer, duran­te mui­to tem­po.

Interrompemos a lei­tu­ra do poe­ma.

Então ela me per­gun­tou.

- Você não acha que deve­mos denun­ci­ar esse bichi­nho aí por bullying?

Caimos na gar­ga­lha­da. O esqui­lo, por sua vez, desa­pa­re­ceu na pri­mei­ra árvo­re a seu alcan­ce.

Ele devia saber que era bom não faci­li­tar. Brincadeira tem hora.

Até a pró­xi­ma, Ronaldo. Amanhã tomo um avião e vou a Brown,  à uni­ver­si­da­de. Recebi um con­vi­te, não sabia que era tão lon­ge daqui. Mas domin­go esta­rei de vol­ta.

Abraço,

Vilma

P.S.: a Rita Chaves me man­dou a maté­ria da Veja sobre Hobsbawm. É de pas­mar que o Brasil ain­da tenha essa chol­dra, pala­vra que pre­ci­sa ser desen­ca­va­da em oca­siões como esta.