Estrangeiro — quatro perguntas para Bernardo Carvalho

Quatro perguntas

11.04.11

Autor de nove roman­ces, entre eles os pre­mi­a­dos e tra­du­zi­dos em diver­sos paí­ses Nove noi­tes e O filho da mãe, publi­ca­dos no Brasil pela Companhia das Letras, Bernardo Carvalho estre­ou recen­te­men­te no Blog do IMS a colu­na Diário de Berlim. Da Alemanha, onde pas­sa­rá o pró­xi­mo ano como con­vi­da­do de um pro­gra­ma de resi­dên­cia cri­a­ti­va, Bernardo falou sobre a con­di­ção do estran­gei­ro nos seus roman­ces, a vida na capi­tal ale­mã e como clas­si­fi­ca a lite­ra­tu­ra que pro­duz.

Você já pas­sou algu­mas tem­po­ra­das no exte­ri­or e fez via­gens que foram fun­da­men­tais para a cri­a­ção dos seus roman­ces. Ser estran­gei­ro se tor­nou uma con­di­ção para escre­ver?

Acho que já era uma con­di­ção antes mes­mo de eu come­çar a via­jar para escre­ver, como foi o caso do Mongólia e de O filho da mãe, duas enco­men­das. No meu pri­mei­ro livro, Aberração, já havia his­tó­ri­as pelo mun­do intei­ro. A con­di­ção de via­jan­te, para mim, equi­va­le à afir­ma­ção de uma indi­vi­du­a­li­da­de que não pode ser sub­me­ti­da a nenhu­ma cor­po­ra­ção, asso­ci­a­ção ou con­fra­ria, seja ela naci­o­nal, étni­ca, pro­fis­si­o­nal ou fami­li­ar. É estar fora do lugar sem­pre. É essa, para mim, a con­di­ção para escre­ver.

Quais são as suas obri­ga­ções enquan­to par­ti­ci­pa da resi­dên­cia cri­a­ti­va?

Nenhuma. Vou par­ti­ci­par de alguns encon­tros etc., mas não sou obri­ga­do a nada. Por outro lado, vim por­que que­ro escre­ver um roman­ce. E essa é a minha pri­o­ri­da­de abso­lu­ta.

Apesar de pou­co tem­po em Berlim, ima­gi­na-se que você já tenha inte­res­ses cla­ros sobre o que ver, ler e assis­tir. Como é a vida cul­tu­ral na cida­de e como tem sido a sua roti­na nes­se aspec­to?

Berlim é uma cida­de incrí­vel. É um lugar-comum dizer isso hoje. Na ver­da­de são mui­tas cida­des numa só. Não é uma cida­de boni­ta, mas ao mes­mo tem­po é um dos luga­res mais vivos que eu conhe­ço. Parece que aqui tudo depen­de de mui­to pou­co. Você não está em Nova York, não está em Los Angeles. Aqui não é o lugar do dinhei­ro, da pro­fis­si­o­na­li­za­ção e do mer­ca­do. E isso te ali­men­ta tam­bém. Quanto mais coi­sas acon­te­cem à sua vol­ta, quan­to mais as coi­sas pare­cem pos­sí­veis, mais você tem von­ta­de de fazer coi­sas tam­bém. Você tem tudo em Berlim, o melhor da alta cul­tu­ra e o melhor da cul­tu­ra alter­na­ti­va. E tudo acon­te­ce ao mes­mo tem­po. O inte­res­san­te é que, ain­da assim, não é um lugar dis­per­si­vo. Ao con­trá­rio, essa vida toda só te faz ficar mais con­cen­tra­do no seu pró­prio tra­ba­lho, como se você esti­ves­se sen­do ali­men­ta­do por uma dis­po­si­ção geral para a cri­a­ção. Você con­se­gue con­ver­ter toda essa ener­gia para o seu pró­prio tra­ba­lho e eu acho que não é à toa que todo mun­do quer vir pra cá. O pro­ble­ma, para mim, é jus­ta­men­te o que ler. Porque é mui­to frus­tran­te para uma pes­soa como eu, que mal fala uma pala­vra de ale­mão, entrar nas livra­ri­as mais incrí­veis e não poder ler nada.

No mais recen­te deba­te da série Desentendimento, do IMS, Beatriz Rezende e Alcir Pécora tra­ta­ram de lite­ra­tu­ra con­tem­po­râ­nea bra­si­lei­ra e cita­ram você como um exem­plo de autor que não se encai­xa no per­fil de ‘lite­ra­tu­ra naci­o­nal’, inclu­si­ve se nega a par­ti­ci­par dis­so ou, como dis­se Beatriz, se res­sen­te por ser ana­li­sa­do des­sa for­ma. Como você clas­si­fi­ca, então, a sua lite­ra­tu­ra?

Aos pou­cos, fui enten­den­do que só con­si­go exis­tir como escri­tor se eu não fizer par­te do que me cer­ca, de onde eu estou, e sobre­tu­do se não fizer par­te daqui­lo com o que ten­tam me iden­ti­fi­car a pri­o­ri, bra­si­lei­ro, gay etc. Essa é uma for­te ten­dên­cia da crí­ti­ca e da lite­ra­tu­ra hoje. Ela vai redu­zin­do tudo à expres­são da expe­ri­ên­cia e da iden­ti­da­de (étni­ca, naci­o­nal, sexu­al etc.) do autor. É a base do mul­ti­cul­tu­ra­lis­mo, que aca­bou se impon­do como pers­pec­ti­va domi­nan­te. Pra mui­ta gen­te, isso pode ser liber­tá­rio. Para mim, é uma pri­são. Preciso não me iden­ti­fi­car para poder escre­ver. É por isso que as via­gens aca­bam sen­do tão fun­da­men­tais. O “estran­gei­ro” é, em prin­cí­pio, o lugar da incom­pa­ti­bi­li­da­de, da con­tra­ri­e­da­de, da imos­si­bi­li­da­de de iden­ti­fi­ca­ção e, de cer­ta manei­ra, tam­bém do mal-estar. Mas é só aí que eu con­si­go escre­ver, onde não falo a lín­gua. Ou melhor, onde a lín­gua não é minha. É engra­ça­do um escri­tor dizer isso. Mas isso me inte­res­sa. Encontro o meu con­for­to de escri­tor na incom­pa­ti­bi­li­da­de com a pró­pria lín­gua. E isso está refle­ti­do na minha pró­pria manei­ra de escre­ver e de lidar com a minha lín­gua. É como se eu fizes­se do por­tu­guês uma lín­gua estran­gei­ra.

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