Eu aceito, eu aceito!

Miscelânea

04.09.14

E de repen­te sur­giu a deman­da pelo casa­men­to gay. De iní­cio, mui­tos gays pro­gres­sis­tas (eu inclu­si­ve) rejei­ta­ram essa ini­ci­a­ti­va, pois pare­cia ape­nas outro exem­plo de assi­mi­la­ção. Mas come­ça­mos a ver que era uma cau­sa pela qual valia a pena lutar. Se os pre­con­cei­tu­o­sos se opõem ao casa­men­to gay com tan­ta vee­mên­cia, é por­que o casa­men­to é uma ins­ti­tui­ção deci­si­va para eles; os gays nun­ca serão total­men­te acei­tos até pode­rem se casar e ado­tar, como qual­quer outra pes­soa. Também pare­cia ser uma fri­vo­li­da­de ser con­tra o casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo por qual­quer moti­vo; afi­nal, se fos­se per­mi­ti­do, isso teria um impac­to dire­to e posi­ti­vo em inú­me­ras famí­li­as comuns. Como dis­se­ram os advo­ga­dos David Boies e Theodore Olson em Redeeming the Dream [Resgatando o sonho]:

Dissemos des­de o iní­cio que pre­ten­día­mos pro­var três coi­sas: pri­mei­ro, que o casa­men­to era um direi­to fun­da­men­tal; segun­do, que negar o direi­to ao casa­men­to a cida­dãos gays e lés­bi­cas os pre­ju­di­ca­va seri­a­men­te, assim como os filhos que esta­vam cri­an­do; em ter­cei­ro lugar, que o casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo não cau­sa­va danos ao casa­men­to hete­ros­se­xu­al”.

 

Grupo de defensores do casamento igualitário dividem espaço com opositores em São Francisco. Foto do usuário “rockbandit” no Flickr.

Essa lon­ga bata­lha cul­mi­nou em 2013, que pode mui­to bem ser rotu­la­do como o Ano do Gay. Um esta­do após o outro dos EUA lega­li­zou o casa­men­to gay, ape­sar da for­te opo­si­ção da direi­ta reli­gi­o­sa. A Lei de Defesa do Casamento (The Defense of Marriage Act, conhe­ci­do como Doma) foi der­ru­ba­da pela Suprema Corte; depois dis­so, casais de pes­so­as do mes­mo sexo legal­men­te casa­das, moran­do onde fos­se, podi­am fazer decla­ra­ções con­jun­tas de impos­to de ren­da, até mes­mo retro­a­ti­va­men­te. A Don’t Ask Don’t Tell (Não per­gun­te, não decla­re), polí­ti­ca anti­gay das for­ças arma­das, foi revo­ga­da em 2011. Os Escoteiros cede­ram: garo­tos gays ago­ra podi­am se tor­nar esco­tei­ros (embo­ra adul­tos aber­ta­men­te gays não pos­sam se tor­nar líde­res esco­tei­ros). Na França (ape­sar de uma opo­si­ção sur­pre­en­den­te­men­te ati­va), o casa­men­to igua­li­tá­rio foi lega­li­za­do, assim como em vári­os paí­ses da América do Sul. As pro­mes­sas da tera­pia de con­ver­são, que afir­ma­vam ser pos­sí­vel con­ver­ter um gay em héte­ro, foram renun­ci­a­das e até proi­bi­das em alguns locais.

Os gays nun­ca tive­ram tan­ta visi­bi­li­da­de – na polí­ti­ca, na tele­vi­são, no Facebook. Não era mais legal dis­cri­mi­nar lés­bi­cas ou gays. Os come­di­an­tes pedi­ram des­cul­pas em públi­co por usar a pala­vra “vea­do” em um momen­to de rai­va. E os gays eram tão pre­do­mi­nan­tes que se tor­na­ram mais sele­ti­vos quan­to aos polí­ti­cos; Christine Quinn, a can­di­da­ta a pre­fei­ta de Nova York decla­ra­da­men­te lés­bi­ca, per­deu o voto gay para Bill de Blasio (cuja mulher, negra, anun­ci­ou orgu­lho­sa­men­te que havia sido lés­bi­ca antes do casa­men­to).

A Aids anga­ri­ou mai­or sim­pa­tia para os gays, que dei­xa­ram de pare­cer aque­les mole­ques pri­vi­le­gi­a­dos que nos anos 1970 a mai­o­ria da popu­la­ção olha­va com des­pre­zo. A doen­ça havia tira­do do armá­rio indis­cri­mi­na­da­men­te gays de todas as clas­ses soci­ais e raças; se na déca­da de 1970 de modo geral ape­nas jovens homens bran­cos tinham tido cora­gem de se assu­mir publi­ca­men­te, os gays pobres e os gays ricos e os gays velhos e os gays do gue­to tor­na­vam-se então visí­veis – e eles sofri­am de uma doen­ça fatal ter­rí­vel. Em 1996, tera­pi­as retro­vi­rais tri­plas come­ça­ram a ser uti­li­za­das e a taxa de mor­ta­li­da­de por Aids des­pen­cou. Enquanto nos anos 1980 os hos­pi­tais trans­bor­da­vam de paci­en­tes ter­mi­nais e os nomes de mor­tos por Aids lota­vam as pági­nas dos obi­tuá­ri­os, ago­ra pare­ce que pou­cas pes­so­as estão mor­ren­do da doen­ça – pelo menos no pri­mei­ro mun­do, onde os medi­ca­men­tos que sal­vam a vida são aces­sí­veis. No últi­mo mês de maio, a ala dedi­ca­da a HIV/Aids em Vancouver, no Canadá, fechou devi­do à fal­ta de paci­en­tes. No ter­cei­ro mun­do, porém, a taxa de mor­ta­li­da­de – de homens e mulhe­res, hete­ros­se­xu­ais ou gays – é aca­cha­pan­te. Em 2012, mais de 35 milhões de pes­so­as vivi­am com HIV/Aids, 69% delas na África Subsaariana, e a mai­o­ria delas hete­ros­se­xu­ais.

Se a legis­la­ção nos EUA ten­dia a um favo­re­ci­men­to dos gays, espe­ci­al­men­te dos casais gays, na Rússia, no mun­do muçul­ma­no e na África negra a opo­si­ção aos gays esta­va aumen­tan­do. Em todos os casos, o pre­con­cei­to podia ser atri­buí­do à reli­gião, fos­se ela Russa Ortodoxa, lei islâ­mi­ca ou Cristianismo Africano. Parlamentares ame­ri­ca­nos, reli­gi­o­sos e de direi­ta, ali­men­ta­vam o fre­ne­si reli­gi­o­so na África (Uganda che­gou a cogi­tar uma lei para matar os gays); eles devem ter reco­nhe­ci­do que seu cru­el pro­gra­ma tinha sido der­ru­ba­do nos Estados Unidos e que os con­ser­va­do­res reli­gi­o­sos afri­ca­nos for­ne­ci­am a últi­ma chan­ce para con­cre­ti­zar seus sonhos fas­cis­tas. Eu uso a pala­vra “fas­cis­ta” cons­ci­en­te­men­te, pois os nazis­tas sem­pre fica­vam se gaban­do das vir­tu­des da viri­li­da­de e dos peri­gos da “deca­dên­cia” homos­se­xu­al, e man­da­ram os gays para os cam­pos de con­cen­tra­ção.

Por que o mains­tre­am dos Estados Unidos acei­tou a igual­da­de de direi­tos no casa­men­to? Os líde­res homos­se­xu­ais cri­a­ram uma argu­men­ta­ção con­vin­cen­te de que as famí­li­as gays eram iguais às hete­ros­se­xu­ais e deve­ri­am ter os mes­mos direi­tos. O espí­ri­to ame­ri­ca­no do fair play tinha sido invo­ca­do. Os gays leva­ram mui­tas pes­so­as a acre­di­tar que eles cons­ti­tuíam uma mino­ria – como os judeus ou os afro-ame­ri­ca­nos ou os asiá­ti­cos. Para falar a ver­da­de, tra­ta­va-se de uma estra­nha mino­ria, a qual não se per­ten­cia pela des­cen­dên­cia dos pais e que era for­ma­da prin­ci­pal­men­te por mem­bros que podi­am “evi­tar” se tor­nar par­te dela. Era mais uma iden­ti­da­de do que uma mino­ria, uma iden­ti­da­de que alguém podia assu­mir aos seis anos, aos 60 ou nun­ca.

A acei­ta­ção dos gays depen­dia em lar­ga medi­da da ideia de que eles não esco­lhi­am a sua iden­ti­da­de sexu­al, mas que ela era de cer­ta for­ma gene­ti­ca­men­te deter­mi­na­da. A mai­o­ria dos que se decla­ra­vam gays nos anos 1970 rejei­ta­vam o argu­men­to gené­ti­co; não que­ría­mos enten­der nos­sa ori­en­ta­ção como glan­du­lar, mas (o quê? Escolhida? Também não gos­tá­va­mos des­sa opção) não podía­mos deter­mi­nar em qual momen­to fize­mos a “esco­lha” de ser gay. Decidimos então que todas as teo­ri­as sobre a ori­gem da homos­se­xu­a­li­da­de eram pre­con­cei­tu­o­sas. Ninguém teo­ri­za­va sobre como as cri­an­ças se tor­na­vam hete­ros­se­xu­ais, argu­men­tá­va­mos, o que pare­cia igual­men­te mis­te­ri­o­so. Dissemos que se alguém entras­se numa dis­cus­são sobre o que cau­sa­va a homos­se­xu­a­li­da­de, a natu­re­za ou a cul­tu­ra, os gays sem­pre per­de­ri­am.

Por mais defen­sá­vel que nos pare­ces­se tal posi­ção na épo­ca, o argu­men­to gené­ti­co de fato con­ven­ceu os Estados Unidos médio a nos acei­tar. Se os pobres coi­ta­dos não podi­am evi­tar o fato de serem fru­ti­nhas, por que deve­ría­mos per­se­gui-los? Da mes­ma for­ma, seria pos­sí­vel per­se­guir alguém pela cor de sua pele.

Ao mes­mo tem­po, os limi­tes de gêne­ro se tor­na­ram mais e mais poro­sos. Travestis e tran­se­xu­ais se tor­na­ram mais comuns; na Alemanha, uma nova lei reco­nhe­ce que os bebês, ao nas­ce­rem, podem ser decla­ra­dos em um ter­cei­ro gêne­ro, inter­me­diá­rio. Se por um lado a nos­sa ori­en­ta­ção sexu­al pare­cia ser deter­mi­na­da, o nos­so gêne­ro dava a impres­são de ser total­men­te flui­do, arbi­trá­rio e poro­so.

Lembro bem que nos anos 1960 tive um namo­ra­do que gos­ta­va de andar de mãos dadas em públi­co, o que me dei­xa­va mui­to des­con­for­tá­vel até mes­mo no Greenwich Village. Hoje nin­guém mais dá bola.

É cla­ro que hou­ve uma lon­ga his­tó­ria de bata­lhas jurí­di­cas gays e lés­bi­cas, bem resu­mi­das na Law and the Gay Rights Story [A his­tó­ria da lei e dos direi­tos homos­se­xu­ais], livro que lida com mui­tos pro­ble­mas além do direi­to ao casa­men­to: o ambi­en­te de tra­ba­lho, a liber­da­de para ser­vir nas for­ças arma­das, não sofrer vio­lên­cia, a garan­tia de que gays decla­ra­dos pos­sam dar aulas em esco­las públi­cas. Entre 2004 e 2013, o núme­ro de ame­ri­ca­nos que fica­ri­am irri­ta­dos se tives­sem um filho gay caiu de 60 para 40 por cen­to — uma trans­for­ma­ção notá­vel em menos de uma déca­da. A mai­or visi­bi­li­da­de de cele­bri­da­des gays (como Ellen Degeneres) e a alta qua­li­da­de de fil­mes (como o ven­ce­dor do Oscar Brokeback Mountain), pro­gra­mas de TV (como Will and Grace, Modern Family e Glee) e peças (como Angels in America e The Normal Heart) com esta temá­ti­ca com cer­te­za con­tri­buí­ram para a mudan­ça de opi­nião.

A luta pelo casa­men­to gay ficou mais inten­sa após a apro­va­ção na Califórnia, em ple­bis­ci­to, da Proposition 8, uma emen­da con­fu­sa que decla­ra­va váli­dos no esta­do ape­nas os casa­men­tos entre homens e mulhe­res. O caso cha­mou a aten­ção de Theodore Olson, o advo­ga­do con­ser­va­dor que tinha ganha­do na Suprema Corte a cau­sa Bush vs. Gore. Ele con­si­de­ra­va a ques­tão do casa­men­to gay um assun­to que dizia res­pei­to à pro­te­ção igua­li­tá­ria dian­te da lei e reco­nhe­cia que essa era a luta por direi­tos civis de nos­sa épo­ca. Como Jo Becker con­ta em Forcing the Spring, ele se decla­rou hon­ra­do em repre­sen­tar lés­bi­cas e gays e se dispôs a assu­mir o caso cobran­do hono­rá­ri­os de US$ 2,9 milhões, pre­ço com des­con­to e sem incluir as cus­tas, embo­ra geran­do uma con­si­de­rá­vel reper­cus­são nega­ti­va entre seus ami­gos con­ser­va­do­res com argu­men­tos de fun­do reli­gi­o­so ou cons­ti­tu­ci­o­nal.

Quem esta­va por trás da dis­pu­ta judi­ci­al era Chad Griffin, um con­sul­tor polí­ti­co gay que tinha se tor­na­do o dire­tor da orga­ni­za­ção de direi­tos civis homos­se­xu­ais Human Rights Campaign, e sua ami­ga e sócia, Kristina Schake. Eles se uni­ram a dois de seus cli­en­tes, o cine­as­ta Rob Reiner (de Harry e Sally Feitos um para o outro) e sua mulher, Michele, tra­di­ci­o­nais mili­tan­tes em defe­sa dos direi­tos civis. O time ficou com­ple­to com a entra­da de David Boies, que defen­deu Gore na Suprema Corte. O “estra­nho casal” for­ma­do por Boies e Olson cha­mou mui­to a aten­ção da impren­sa.

A deci­são de entrar na jus­ti­ça con­tra a Prop 8 não foi bem vis­ta pela lide­ran­ça gay mais tra­di­ci­o­nal, que acre­di­ta­vam que uma deci­são adver­sa pode­ria atra­sar a luta pelos direi­tos homos­se­xu­ais em déca­das. O slo­gan deles era “Faça mudan­ças, não pro­ces­sos”, e a sua agen­da polí­ti­ca era a de lutar pela apro­va­ção de leis do casa­men­to igua­li­tá­rio de esta­do a esta­do. Sobre a ação judi­ci­al con­tra a Prop 8, Jennifer Pizer, repre­sen­tan­te do gru­po de defe­sa dos direi­tos gays Lambda Legal, dis­se ao New York Times: “Achamos que é arris­ca­do e pre­ma­tu­ro”. Quando se deram con­ta de que a dupla Boies-Olson iria adi­an­te de qual­quer for­ma, mui­tos gru­pos de direi­tos homos­se­xu­ais qui­se­ram se jun­tar, mas os advo­ga­dos sem­pre recu­sa­ram, dizen­do que não que­ri­am que a cau­sa fos­se “bal­ca­ni­za­da”. Eles conhe­ci­am mui­to bem as fero­zes bri­gas inter­nas entre gru­pos homos­se­xu­ais. Ao final, o juiz só per­mi­tiu que a cida­de de São Francisco regis­tras­se uma audi­ên­cia públi­ca.

O rela­tor do caso no Distrito do Norte da Califórnia foi Vaughn R. Walker, um juiz de 65 anos indi­ca­do por Reagan e cuja nome­a­ção havia sido vio­len­ta­men­te cri­ti­ca­da pela comu­ni­da­de homos­se­xu­al. Não sem sur­pre­sa, Walker aca­bou se reve­lan­do gay, o que levou os adver­sá­ri­os do casa­men­to igua­li­tá­rio a defen­der sua impug­na­ção, embo­ra a mai­o­ria dos espe­ci­a­lis­tas defen­des­sem que a ori­en­ta­ção sexu­al do juiz era irre­le­van­te. (Um juiz afro-ame­ri­ca­no esta­ria impe­di­do de jul­gar um caso envol­ven­do pre­con­cei­to raci­al? Um juiz que foi estu­pra­do não deve­ria poder jul­gar um caso de vio­lên­cia sexu­al?)

Walker que­ria que os tra­ba­lhos fos­sem tele­vi­si­o­na­dos, uma vez que pode­ri­am ser elu­ci­da­ti­vos para o públi­co, mas a Suprema Corte proi­biu a entra­da de câme­ras no tri­bu­nal, não que­ren­do sujei­tar as suas deci­sões ao bri­lho da publi­ci­da­de. Esse não era um tri­bu­nal do júri; a deci­são par­ti­ria ape­nas do juiz. Embora a tele­vi­são tives­se sido veta­da, todos os envol­vi­dos cui­da­ram para que cada pas­so do jul­ga­men­to fos­se bas­tan­te divul­ga­do, uma vez que um dos seus prin­ci­pais obje­ti­vos era a edu­ca­ção do públi­co.

Boies e Olson esco­lhe­ram como que­re­lan­tes dois casais-mode­lo, um de homens gays e outro de lés­bi­cas, cali­for­ni­a­nos que, como eles acer­ta­da­men­te pre­su­mi­ram, esta­ri­am dis­pos­tos a supor­tar jun­tos o estres­se de inter­ro­ga­tó­ri­os que aca­ba­ram se esten­den­do por qua­tro anos e que sin­ce­ra­men­te gos­ta­ri­am de se casar, pela dig­ni­da­de da ins­ti­tui­ção e não ape­nas pelos bene­fí­ci­os fis­cais. As duas mulhe­res tam­bém cri­a­vam filhos.

Os advo­ga­dos reu­ni­ram como tes­te­mu­nhas espe­ci­a­lis­tas que os aju­da­ri­am a defi­nir diver­sos argu­men­tos: que os homos­se­xu­ais foram mui­to mal­tra­ta­dos no decor­rer da his­tó­ria e ain­da hoje eram uma mino­ria per­se­gui­da; que as pes­so­as que vota­ram na Prop 8 eram moti­va­das em par­te pela mal­da­de; que as cri­an­ças cri­a­das por um casal do mes­mo sexo que se ama­va pode­ria ter uma vida nor­mal e sau­dá­vel; que a homos­se­xu­a­li­da­de não era uma esco­lha de esti­lo de vida, mas uma ori­en­ta­ção impos­sí­vel de mudar; que o casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo não deses­ti­mu­la­ria casais hete­ros­se­xu­ais de se casar; que o casa­men­to tinha uma dig­ni­da­de e um pres­tí­gio soci­al que não era obti­do atra­vés da união civil.

Alguns des­ses argu­men­tos podem pare­cer óbvi­os, ou absur­dos, ou de impor­tân­cia menor, mas a lei, com­pro­me­ti­da como é com os pre­ce­den­tes, às vezes pre­ci­sa tra­tar de ques­tões bizar­ras. E os sus­ten­ta­do­res da Prop 8 fize­ram algu­mas decla­ra­ções estra­nhas. O advo­ga­do que a defen­dia, Chuck Cooper, só con­se­guiu levar dois espe­ci­a­lis­tas (e os que­re­lan­tes con­vo­ca­ram 17), e isso se reve­lou insa­tis­fa­tó­rio. Um, que dizia ter lido uma gran­de quan­ti­da­de de estu­dos pro­van­do que o casa­men­to gay era dano­so, admi­tiu, após inter­ro­ga­tó­rio cru­za­do, que a mai­or par­te da sua bibli­o­gra­fia tinha sido reu­ni­da pelos advo­ga­dos e que ele não con­sul­tou os docu­men­tos.

Opositores ao casamento gay erguem placas afirmando que o sexo homossexual é pecado. São Francisco, Estados Unidos. Foto do usuário “rockbandit” no Flickr.

A segun­da tes­te­mu­nha era David Blankenhorn, que per­deu cre­di­bi­li­da­de quan­do teve de admi­tir que o seu diplo­ma da Warwick University tinha sido con­fe­ri­do não pelo seu estu­do acer­ca de casa­men­tos ou famí­li­as, mas por um outro, sobre mar­ce­nei­ros do sécu­lo XIX. E ele aca­bou expres­san­do idei­as que favo­re­ce­ram o lado pró-casa­men­to igua­li­tá­rio:

Acredito hoje que o prin­cí­pio da dig­ni­da­de huma­na igua­li­tá­ria deve ser apli­ca­do a pes­so­as gays e lés­bi­cas. Como somos uma nação fun­da­da com base nes­se prin­cí­pio, sería­mos mais ame­ri­ca­nos a par­tir do dia em que per­mi­tís­se­mos o casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo”.

Blankenhorn tam­bém con­cor­dou que não havia pro­vas cien­tí­fi­cas de que cri­an­ças sofri­am por serem cri­a­das por pes­so­as do mes­mo sexo.

Até mes­mo Cooper fez uma decla­ra­ção com­pro­me­te­do­ra. Quando o juiz Walker per­gun­tou acer­ca do casa­men­to gay para que ele “dis­ses­se como isso pre­ju­di­ca­ria casa­men­to entre pes­so­as de sexo opos­to”, Cooper dis­se as pala­vras fatais: “Meritíssimo, a minha res­pos­ta é: Eu não sei. Eu não sei. O que ele quis dizer é que não temos pro­vas sufi­ci­en­tes acer­ca dos efei­tos a lon­go pra­zo de casa­men­tos gays, mas a sua res­pos­ta foi vis­ta como uma decla­ra­ção de der­ro­ta.

Os que­re­lan­tes pre­ci­sa­vam pro­var que havia pre­con­cei­to con­tra gays por trás da cam­pa­nha da Proposição 8, o que foi facil­men­te con­fi­gu­ra­do pelo tom inti­mi­da­dor da pro­pa­gan­da para TV e pela lei­tu­ra de emails inter­nos. Os docu­men­tos mos­tra­vam que a Igreja Católica e os Mórmons, velhos opo­si­to­res da homos­se­xu­a­li­da­de, tinham arre­ca­da­do US$ 37 milhões para apoi­ar a Proposição 8. Um dos patro­ci­na­do­res mais pro­e­mi­nen­tes, Bill Tam, um pas­tor evan­gé­li­co Chinês-ame­ri­ca­no, foi mui­to eva­si­vo, mas enfim admi­tiu que tinha fei­to decla­ra­ções públi­cas de que o casa­men­to gay leva­ria à pedo­fi­lia, inces­to e poli­ga­mia. Ele até dis­se em um pan­fle­to que, se a Proposição 8 não fos­se apro­va­da, “um por um, os esta­dos cai­ri­am nas mãos de Satã. O que viria a seguir? Na agen­da deles, o pon­to era: a lega­li­za­ção do sexo com cri­an­ças”.

Finalmente, Tam pra­ti­ca­men­te admi­tiu que não havia pro­vas cien­tí­fi­cas cor­ro­bo­ran­do seus argu­men­tos.

Boies e Olson invo­ca­ram impor­tan­tes deci­sões da Suprema Corte para ampa­rar sua cau­sa, den­tre os quais Loving v. Virginia (1967) era o mais rele­van­te. Acabou resul­tan­do no fim da proi­bi­ção de mis­ci­ge­na­ção, con­cluin­do que “a liber­da­de para se casar foi reco­nhe­ci­da, há mui­to tem­po, como um dos direi­tos pes­so­ais essen­ci­ais para a bus­ca pela feli­ci­da­de dos homens livres”. Esta deci­são aju­dou em mui­to os que­re­lan­tes. Em Romer v. Evans (1996), a Suprema Corte der­ru­bou uma emen­da do Colorado à cons­ti­tui­ção esta­du­al, apro­va­da por elei­to­res em um refe­ren­do, que tinha pri­va­do lés­bi­cas e gays de deter­mi­na­dos direi­tos civis. Em Lawren­ce v. Texas (2003), a Corte der­ru­bou uma lei do Texas que cri­mi­na­li­za­va a sodo­mia, pois vio­la­va a cláu­su­la pro­ces­su­al da Constituição que afir­ma que o gover­no não pode “pri­var uma pes­soa de vida, liber­da­de ou pro­pri­e­da­de sem o devi­do pro­ces­so legal”.

Uma das decla­ra­ções mais pesa­das con­tra o casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo veio da juí­za da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg, que afir­mou que o caso Roe v. Wade tinha sido deci­di­do de for­ma pre­ma­tu­ra, antes de o país estar pron­to para isso. Talvez, pode­ria se argu­men­tar, o país tam­bém não esti­ves­se pron­to para o casa­men­to gay.

Mas o país esta­va mudan­do de ideia em uma velo­ci­da­de espan­to­sa. Ken Mehlman, uma pro­e­mi­nen­te figu­ra gay do Partido Republicano, jun­tou-se à cau­sa e rea­li­zou um even­to de arre­ca­da­ção de fun­dos impres­si­o­nan­te. As opi­niões de Obama esta­vam “evo­luin­do”. Pesquisas mos­tra­vam a mudan­ça rápi­da e gene­ra­li­za­da da opi­nião públi­ca. “Essa é a mudan­ça de opi­nião públi­ca mais rápi­da e sig­ni­fi­ca­ti­va que já vimos na polí­ti­ca ame­ri­ca­na moder­na”, dis­se um espe­ci­a­lis­ta repu­bli­ca­no de reno­me. Ao mes­mo tem­po, hou­ve uma nova onda de sui­cí­di­os entre gays ado­les­cen­tes que pro­va­vam que algo pre­ci­sa­va ser fei­to.

A audi­ên­cia final no pro­ces­so da Proposição 8 foi rea­li­za­da em 16 de junho de 2010. Dois meses depois, o juiz Walker entre­gou a deci­são que repre­sen­tou uma gran­de vitó­ria para os defen­so­res do casa­men­to gay. Segundo ele,“a Proposição 8 tinha como pre­mis­sa a ideia de que casais do mes­mo sexo não são tão bons quan­to um casal de pes­so­as de sexo opos­to… Essa cren­ça não é uma base ade­qua­da para a legis­la­ção”.

Quando o caso che­gou à Suprema Corte, jun­tou-se a outro sobre a Lei de Defesa do Casamento. Uma ame­ri­ca­na ido­sa, Edie Windsor, tinha se casa­do legal­men­te no Canadá com outra mulher, Thea Spyer, em 2007. Thea havia mor­ri­do, Edie foi inter­na­da, em luto, e quan­do saiu do hos­pi­tal des­co­briu que devia ao gover­no fede­ral US$ 363 mil em impos­tos esta­du­ais (se ela tives­se se casa­do com um homem, não deve­ria nada). Edie ques­ti­o­nou a Lei de Defesa do Casamento com base no fato de que tra­ta­va o casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo de for­ma dife­ren­te do casa­men­to hete­ros­se­xu­al.

Ela ganhou cau­sa e der­ru­bou a lei. No pro­ces­so, hou­ve alguns momen­tos memo­rá­veis; quan­do, por exem­plo, Cooper insis­tiu que a fun­ção do casa­men­to era a pro­cri­a­ção, o juiz Kagan per­gun­tou se, caso esse fos­se mes­mo ver­da­de, seria cons­ti­tu­ci­o­nal negar o casa­men­to a casais hete­ros­se­xu­ais com mais de 55 anos. Quando Cooper afir­mou que tal casal pode­ria ser fér­til, Kagan garan­tiu: “não vão nas­cer mui­tas cri­an­ças des­se casa­men­to”.

Dizendo outra fra­se memo­rá­vel, o juiz Ginsburg cons­ta­tou que nos EUA havia “o casa­men­to com­ple­to e o des­se outro tipo, de nata do lei­te”. Em outra dis­cus­são, o juiz Scalia pediu para que lhe con­tas­sem qual foi o momen­to exa­to em que havia se tor­na­do incons­ti­tu­ci­o­nal negar o casa­men­to aos homos­se­xu­ais. Como argu­men­tam Boies e Olson no seu livro extre­ma­men­te lúci­do,

A Corte nun­ca ques­ti­o­nou nem foi capaz de defi­nir o momen­to exa­to em que se tor­nou incons­ti­tu­ci­o­nal exi­gir que os estu­dan­tes reci­tas­sem a Lealdade à Bandeira, ou rezar na esco­la, ou usar bebe­dou­ros dife­ren­tes.”

No dia 26 de junho de 2013, o juiz Kennedy, com a opi­nião da mai­o­ria, con­cluiu que a Lei de Defesa do Casamento não era váli­da e ser­via para “pre­ju­di­car e inju­ri­ar aque­les que o Estado, gra­ças às suas leis de casa­men­to, deve­ria pro­te­ger a inte­gri­da­de e a dig­ni­da­de”. Edith Windsor recu­pe­rou os US$ 363 mil de impos­tos que havia pago, com juros. Todos os casais do mes­mo sexo casa­dos por lei seri­am total­men­te reco­nhe­ci­dos pelo gover­no fede­ral e des­fru­ta­ri­am ago­ra de cer­ca de 1.100 bene­fí­ci­os fede­rais que antes lhes eram nega­dos.

Ao mes­mo tem­po, a Corte, embo­ra abris­se cami­nho para o casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo na Califórnia, dei­xou para outro dia a dis­cus­são se o casa­men­to homos­se­xu­al deve­ria ser lega­li­za­do em todos os esta­dos onde era proi­bi­do. No mes­mo dia, a Corte havia decla­ra­do que a Lei de Defesa do Casamento era incons­ti­tu­ci­o­nal, mas se esqui­vou da ques­tão mai­or da acei­ta­ção naci­o­nal do casa­men­to homos­se­xu­al. Um triun­fo para Boies-Olson, mes­mo que redu­zi­do.

A reper­cus­são nega­ti­va do livro de Jo Becker foi con­si­de­rá­vel e veio espe­ci­al­men­te de blo­guei­ros gays como Dan Savage e Andrew Sullivan. No dis­tan­te ano de 1989, Sullivan tinha publi­ca­do um arti­go no The New Republic ofe­re­cen­do uma defe­sa con­ser­va­do­ra ao casa­men­to homos­se­xu­al, for­mu­lan­do argu­men­tos sobre o valor da vida em famí­lia que depois foram usa­dos por teó­ri­cos pró-gays. Becker foi acu­sa­da por Sullivan de pra­ti­car o cha­ma­do “jor­na­lis­mo de aces­so” (pois cre­di­ta todas as vitó­ri­as em prol do casa­men­to homos­se­xu­al a Chad Griffin e à equi­pe Boies-Olson, que per­mi­ti­ram livre aces­so a todas as deli­be­ra­ções). Ela cla­ra­men­te menos­pre­zou as impor­tan­tes con­tri­bui­ções de pio­nei­ros como Evan Wolfson, que, em 2004, publi­cou o divi­sor de águas Why Marriage Matters: America, Equality, and Gay Peoples Right to Marry [Por que o casa­men­to impor­ta: Estados Unidos, igual­da­de e o direi­to de os homos­se­xu­ais se casa­rem], e Mary Bonauto, uma advo­ga­da que ganhou o direi­to de união civil para casais do mes­mo sexo em Vermont, no ano 2000. Essa foi uma pri­mei­ra vitó­ria con­si­de­rá­vel em uma cam­pa­nha que levou (até ago­ra) ao casa­men­to entre pes­so­as do mes­mo sexo em 17 esta­dos e no Distrito de Columbia. Um núme­ro que só aumen­ta.

Na últi­ma pági­na de Redeeming the Dream, somos infor­ma­dos que os ame­ri­ca­nos estão acei­tan­do “gays e lés­bi­cas… como mem­bros nor­mais, amo­ro­sos e decen­tes de nos­sas vidas e comu­ni­da­des”. Eu não deve­ria impli­car, mas como um homem gay na fai­xa dos 70 anos, não reco­nhe­ço nes­sa des­cri­ção a mai­or par­te dos gays ele­gan­tes, cri­a­ti­vos, pro­vo­ca­do­res, pro­mís­cu­os e pro­fun­da­men­te urba­nos que conhe­ci. Kenji Yoshino, um pro­fes­sor de Direito, escre­veu um livro cha­ma­do Covering: The Hidden Assault on Our Civil Rights [Encobrindo: o ata­que ocul­to aos nos­sos direi­tos civis], no qual “enco­brir” é vis­to como uma manei­ra de ate­nu­ar um tra­ço diver­gen­te para poder se ade­quar ao gran­de públi­co. Tenho a impres­são de que os gays cor­rem o ris­co de se “enco­brir” para ganhar a per­mis­são para se casar. Talvez seja um pre­ço peque­no a se pagar. Não con­si­go me deci­dir quan­to a isso.

 

Este tex­to foi ori­gi­nal­men­te publi­ca­do pela The New York Review of Books no dia 14 de agos­to como rese­nha aos livros Forcing the Spring: Inside the Fight for Marriage EqualityRedeeming the Dream: The Case for Marriage Equality e Law and the Gay Rights Story: The Long Search for Equal Justice in a Divided Democracy. A tra­du­ção aqui publi­ca­da é de Antônio Xerxenesky.

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