Eu curto mais Fernando Pessoa do que Shakespeare

Literatura

22.01.13

O tex­to a seguir faz par­te do pro­gra­ma do espe­tá­cu­lo Labirinto: balan­ço da vida (1973), com rotei­ro de: Flávio Império, Walmor Chagas, Paulo Hecker Filho e Maria Thereza Vargas e inte­gra o Acervo Dora Ferreira da Silva / Instituto Moreira Salles.

Eu vol­to mais aos poe­tas do que aos dra­ma­tur­gos. Mas em minhas noi­tes de soli­dão, de angús­tia, não vou ler uma peça de Ibsen. O que me acom­pa­nha é Fernando Pessoa. Então, por que não fazer no pal­co isto que eu gos­to? E que tem mui­ta gen­te que gos­ta?

O ator está sem­pre se reve­lan­do atra­vés dos per­so­na­gens que inter­pre­ta, mas nun­ca eu pude me reve­lar tan­to como em LABIRINTO: BALANÇO DA VIDA. Apesar de ser tam­bém um per­so­na­gem, aqui é onde eu sou mais eu. A poe­sia é mais fácil de fazer, é mais dire­ta. É cer­ta­men­te mais difí­cil de rece­ber, mas ela expres­sa cer­tos pen­sa­men­tos de uma manei­ra mui­to efi­caz.

Eu não gos­ta­ria de fazer outra coi­sa ago­ra. Por isso, estou tão empe­nha­do. Eu me dis­po, eu gri­to, eu me expo­nho no pal­co. Porque eu pre­ci­so de todos. Até me per­gun­to se eu não quis sem­pre fazer isso? Será que não pro­cu­rei sem­pre a poe­sia, mes­mo nos dra­ma­tur­gos?

Difícil é encon­trar a for­ma de fazer o que eu pos­si­vel­men­te sem­pre quis. Estas poe­si­as foram fei­tas para serem lidas, mas eu me dou de tal manei­ra que acho que con­si­go pas­sar a ideia, a emo­ção. Talvez do pon­to de vis­ta cul­tu­ral, seja um sui­cí­dio fazer isso, mas é cer­ta­men­te tam­bém um ato de fé. Na gen­te que faz, nos poe­tas, nas pes­so­as que vão ouvir.

O espe­tá­cu­lo tem um rotei­ro, que é mais do Flávio Império, onde o habi­tan­te das nos­sas cida­des, o homem neu­ro­ti­za­do e can­sa­do, des­co­bre que exis­te mais algu­ma coi­sa no uni­ver­so do que o metro de espa­ço que ele tem a sua fren­te. E ele via­ja.

Viaja para o seu inte­ri­or, per­cor­re o labi­rin­to e suas per­ple­xi­da­des, des­co­bre o amor e uma pos­si­bi­li­da­de de con­vi­vên­cia feliz com o cos­mos, a espi­ri­tu­a­li­da­de tal­vez.

Isso tem mui­to que ver comi­go, em ter­mos bio­grá­fi­cos. Eu esta­va aqui na cida­de, per­cor­ren­do o labi­rin­to cheio de câme­ras de TV e cená­ri­os de tea­tro, quan­do fui para o Rio Grande do Sul.

O paraí­so. Antes, à qua­se letar­gia em Nova Iorque. Mas o que impor­ta é o paraí­so, o cam­po onde eu mora­va, o amor bem cur­ti­do, a des­co­ber­ta da cri­an­ça em minha filha. Tudo isto com gran­de tran­qui­li­da­de. Eu já tinha apren­di­do a con­vi­ver com a mor­te, já tinha des­co­ber­to a mor­te antes de Cacilda mor­rer, já sabia que viver/morrer era a mes­ma coi­sa. Isto eu sen­ti, sim, eu sen­ti em Nova Iorque ain­da numa outra via­gem. E com­pro­vei depois, vin­do para São Paulo fazer Esperando Godot, quan­do o car­ro capo­tou em Rezende e eu pen­sei — vou mor­rer — assim, sim­ples­men­te, sem dra­ma­tis­mo, a músi­ca liga­da no rádio dei­xan­do tudo ain­da mais boni­to.

Antes dis­so, antes do mer­gu­lho em mim lá no Rio Grande do Sul, eu não teria cora­gem de estar aqui, em 1973, dizen­do poe­sia. Eu pro­cu­ra­ria uma peça, tal­vez um fil­me. Eu arma­ria defe­sas. Eu não sou um ator de 20 anos, sain­do da Escola de Arte Dramática, sem res­pon­sa­bi­li­da­de nenhu­ma além dele. Eu sou res­pon­sá­vel, sou abso­lu­ta­men­te res­pon­sá­vel, sou care­ta. É como um ban­cá­rio que tem famí­lia, neces­si­da­de de con­for­to, um car­ro e mui­ta res­pon­sa­bi­li­da­de, mas gos­ta de pin­tar. Ele che­ga a geren­te do ban­co, mas um dia dei­xa o empre­go e vai pin­tar. Ou pre­gar Allan Kardec nas pra­ças.

Ele esta­ria ganhan­do a vida, embo­ra, é cla­ro, já a vies­se ganhan­do antes como eu tam­bém me gra­ti­fi­ca­va com o que fazia. Eu sem­pre pode­ria fazer uma via­gem inte­res­san­te com o dinhei­ro ganho numa nove­la cha­ta. E isto é gra­ti­fi­can­te. O pró­prio jei­to de sobre­vi­ver tam­bém pode ser gra­ti­fi­can­te, embo­ra às vezes seja duro. Mas deve ser até para o índio. Não sei por que a gen­te deve ima­gi­nar a caça­da sem­pre como algo exci­tan­te. O índio não pode estar sem­pre que­ren­do caçar, mas ele tem fome, então vai.

O outro tra­ba­lha oito horas por dia. Eu não recu­so, então, a vida dura da cida­de e do labi­rin­to. O que eu acho é que a vida da gen­te não pode ser só a caça­da, a sobre­vi­vên­cia. Mas ela exis­te. Agora, eu estou fazen­do o que gos­to: dizer poe­sia. Tem o que gos­ta de escre­ver, de cozi­nhar ou de cons­truir casas. Mas todos gos­tam de fazer tam­bém outras coi­sas.

Este espe­tá­cu­lo é pra essa gen­te, para os que gos­tam das coi­sas que fazem. Se alguém gos­ta do que faz, é por­que apren­deu a fazer. E para apren­der, pre­ci­sou cur­tir lon­ga­men­te o que faz. Porque cur­tiu, ele gos­ta. Então, ele vai enten­der que este meu tra­ba­lho e um tra­ba­lho cur­ti­do, um tra­ba­lho de que eu gos­to.

Aí pode­ri­am me per­gun­tar: e por que não só a poe­sia, por que o espe­tá­cu­lo, as músi­cas, as foto­gra­fi­as? Eu res­pon­do: a gra­fia e a lei­tu­ra evo­luí­ram. O cara que lia um tijo­lo na pré-his­tó­ria, só lia aqui­lo. Hoje, você lê, ouve e vê o tem­po todo, nos out­do­ors, na TV, no cine­ma. Às vezes, bas­ta uma ima­gem pra te con­tar, ou ape­nas um som. Isto faz par­te do nos­so coti­di­a­no, este exces­so de gra­fi­as. E por que não tra­zer estas poe­si­as para o nos­so coti­di­a­no, por que não enri­que­cer a sua gra­fia e, con­se­quen­te­men­te, a sua lei­tu­ra? É o que fize­mos. Inclusive, a poe­sia nem pre­ci­sa­ria ser dita, ela pode­ria ser lida. Quando eu falo um poe­ma, ele pas­sa para outra esfe­ra. Por que não ir para esfe­ras ain­da mais dis­tan­tes?

De tudo isto, eu pen­so uma coi­sa: tal­vez eu este­ja que­ren­do exer­ci­tar meu cora­ção. Eu que­ro viver dele, não do raci­o­cí­nio, que esta­va me pon­do num beco sem saí­da, que não dei­xa­va por pra fora o que tenho de melhor. Ou o que eu gos­to de fazer: dizer poe­sia.

* Walmor Chagas foi um ator, dire­tor e pro­du­tor bra­si­lei­ro, mor­to no dia 18 de janei­ro de 2013, aos 82 anos.

, , ,