Eu me sinto em casa aí

Correspondência

22.03.11

Galera,

Que fim de sema­na épi­co, puta que pariu. Tive o pri­mei­ro bom sinal já no avião, quan­do o coman­dan­te Vargas anun­ci­ou que a saí­da de São Paulo esta­va um pou­co tur­bu­len­ta, mas que o res­tan­te do per­cur­so seria tranqüi­lo, como de fato foi. E não é nem isso: gos­to demais dos coman­dan­tes que pas­sam as infor­ma­ções da cabi­ne, e não são todos que têm esse hábi­to. Quando não falam, logo ima­gi­no um pilo­to arro­gan­te, pos­si­vel­men­te um des­ses jovens auda­ci­o­sos que não res­pei­tam as regras, pre­ci­sam pro­var algo etc. Prefiro saber de uma vez que está cho­ven­do no des­ti­no, que vamos sobre­vo­ar o aero­por­to até dimi­nuir a água, o ter­ror de sem­pre. Assim já me apa­vo­ro de uma vez. O que mata é a ante­ci­pa­ção.

Mais que isso, o Vargas dis­pu­nha de ple­no man­do de pis­ta, e eu não fiquei vin­te minu­tos pre­so no avião como da outra vez, enquan­to o coman­dan­te ten­ta­va esta­ci­o­nar. A per­so­na­li­da­de do pilo­to é deci­si­va duran­te o vôo, cla­ro, e é uma das minhas pri­mei­ras pre­o­cu­pa­ções numa via­gem. Acho que já te con­tei isso, mas enfim. Na déca­da de 90, notou-se que os aviões core­a­nos esta­vam cain­do demais. Ao ana­li­sar as cai­xas-pre­tas (inven­ção mai­or que a cura da pólio), per­ce­be­ram que os pilo­tos não con­se­gui­am comu­ni­car à tor­re quan­do esta­vam com algum pro­ble­ma e pre­ci­sa­vam furar a fila de pou­so. Isso acon­te­cia prin­ci­pal­men­te nos Estados Unidos, onde os con­tro­la­do­res de vôo são sub­me­ti­dos a um estres­se tre­men­do — vi em algum lugar que é a segun­da pro­fis­são mais insa­lu­bre depois de mine­ra­dor -, e por isso cos­tu­mam tra­tar os pilo­tos com ris­pi­dez.

Ocorria que os core­a­nos mal fala­vam inglês, e não tinham o cos­tu­me, em outros paí­ses, de dis­cu­tir com os con­tro­la­do­res. O pilo­to che­ga com pou­co com­bus­tí­vel e fica rodan­do até che­gar a vez de pou­sar. Vidas em jogo, um tro­ço hor­rí­vel. Até que hou­ve algum movi­men­to da comu­ni­da­de aero­viá­ria inter­na­ci­o­nal e o caso se resol­veu. Mas há inclu­si­ve toda uma hie­rar­quia nes­sa ordem de pou­sos e deco­la­gens. Companhias meno­res ou novas podem pade­cer lon­gas espe­ras num dia mais movi­men­ta­do, enquan­to os vôos de aére­as locais são libe­ra­dos com mais pres­te­za. Isso acon­te­ce em qua­se todos os gran­des aero­por­tos ame­ri­ca­nos.

As cha­gas da avi­a­ção bra­si­lei­ra são outras, cla­ro, mas para mim o pior de ir ao sul é o ris­co de tur­bu­lên­cia de ar cla­ro, mui­to comum do Rio Grande pra bai­xo. É aque­la tur­bu­lên­cia que o pilo­to não con­se­gue ante­ci­par, e que pro­mo­ve uma per­da rápi­da de alti­tu­de, o que por sua vez gera des­con­for­to, pavor e mor­te (se a pes­soa está sem cin­to e bate a cabe­ça no teto). Procura uns víde­os de cle­ar air tur­bu­len­ce no Youtube se tiver cora­gem. Mas enfim, há tem­pos não pega­va dois vôos tão bons, dois pilo­tos que sou­bes­sem tão cla­ra­men­te o que esta­vam fazen­do.

E foi mas­sa logo ver Nesky e Mariana no saguão, e depois uma gar­ra­fa de uís­que e você. Só ago­ra em retros­pec­to per­ce­bi como a noi­te foi lon­ga. Ainda pas­sa­mos um tem­pão no Parangolé, um exce­len­te bar, por sinal. Esqueci de tomar a aguar­den­te de car­da­mo­mo que fez minha ale­gria no ano pas­sa­do, mas aque­la últi­ma cana­su­tra anun­ci­ou de for­ma cla­ra que eu deve­ria fazer uma pau­sa até o pró­xi­mo des­ti­no. Também me arre­pen­di de ter rea­gi­do com menos vigor quan­do as duas mulhe­res recla­ma­ram que eu esta­va falan­do alto. Tudo bem que eu esta­va falan­do alto, era uma mesa gran­de e tal. Calhou que minha his­tó­ria exi­gia uma série de vozes, baru­lhos e alte­ra­ções brus­cas de volu­me e ento­na­ção para fun­ci­o­nar, e eu não ia com­pro­me­ter a nar­ra­ti­va. Há jei­tos e jei­tos de pedir as coi­sas. Pelo menos o epi­só­dio ter­mi­nou bem, quan­do Mojo e Ana Maria empre­en­de­ram cam­pa­nha inten­sa de olhar de car­ran­ca para cima delas, que se man­da­ram (eu faria o mes­mo).

Confesso que a che­ga­da no Cabaret foi meio desas­tro­sa. O Cardoso fez cara de mor­te ao ver o con­cen­tra­do de geléia huma­na, aque­le esmeg­ma move­di­ço ocu­pan­do todos os espa­ços do salão, a pis­ta, os banhei­ros. Acho que não ficou meia-hora no recin­to. Fiquei dan­çan­do um pou­co com a Bruna, mas aca­bei no bal­cão tra­van­do um lon­go e fru­tí­fe­ro diá­lo­go com nos­so ami­go Renato Nóbile. Toda a ten­são ini­ci­al se dis­si­pou, e pude fruir com mui­to gos­to a noi­te.

Bicho, mas que recep­ção de vocês aí, viu? Não é á toa que o cen­tro do cos­mos se des­lo­cou até Porto Alegre. Já fui visi­tá-los algu­mas vezes, mas essa foi sem dúvi­da a melhor de todas. Acho que é con­sen­so entre os ami­gos. Nunca tinha vis­to o pes­so­al tão bem humo­ra­do e tão dis­pos­to a embar­car no trem-bala para a ruí­na. Até a ida a uma chur­ras­ca­ria do esti­lo “rodí­zio”, que em geral sus­ci­ta lon­gos e enfa­do­nhos deba­tes teó­ri­cos entre vocês, foi um almo­ço lha­no e urba­no, cuja tema ? é pos­sí­vel amar após Auschwitz? ? pavi­men­tou cami­nho para uma noi­te mui­to sen­sa­ci­o­nal.

E que bela fes­ta, aque­la des­pe­di­da do Elvis. Consegui con­ver­sar bas­tan­te com Alex Rod, que é uma espé­cie de nor­te moral de todos nós, e de que­bra ain­da conhe­ci um pes­so­al que eu só tinha ouvi­do falar por tabe­la. Lendas como o Egs, que embo­ra não tenha toca­do Bon Jovi, rea­li­zou per­for­man­ce exce­len­te na pis­ta duran­te a dis­co­te­ca­gem. Também rolou um Momento Dança Contemporânea ao lado de Nesky (em cha­mas) e Cardoso (can­tan­do de olhos fecha­dos), epi­só­dio que infe­liz­men­te uma câme­ra regis­trou e que ago­ra está lá no livro das faces, para arrui­nar minha car­rei­ra e meus afe­tos.

Pena que eu tenha saí­do cor­ren­do no domin­go, meio esba­fo­ri­do. Não per­di o vôo por coi­sa de cin­co minu­tos, já tinha um daque­les abu­tres de lis­ta de espe­ra ron­dan­do meu assen­to. Isso, aliás, é moti­vo de gran­de trans­tor­no: se per­co um vôo, fico achan­do que o pró­xi­mo vai cair, que vão falar que eu per­di o vôo que teria sal­va­do a minha vida etc. Se con­si­go che­gar nos final­men­tes, vem a ima­gem do últi­mo cre­ti­no que embar­cou rumo à mor­te. Se desis­to e pego um ôni­bus, que iro­nia: fugiu de um vôo segu­ro e caiu numa ravi­na. Nunca é fácil, pra nin­guém.

Meu úni­co arre­pen­di­men­to do fim de sema­na foi não ter joga­do mais Mario Galaxy 2. Todavia, depois daque­le almo­ço de domin­go — aliás, agra­de­ça ao teu pai por um dos melho­res chur­ras­cos que já comi, no sen­ti­do afe­ti­vo da coi­sa, e à sua mãe pelo pudim, que bai­ta pudim -, não havia meio. E gos­to da semi-tra­di­ção de pas­sar uma tar­de de domin­go bovi­na con­ti­go e com o Mojo, assis­tin­do cli­pes gaú­chos de metal no pro­gra­ma Bigorna ou ven­do uma par­ti­da do Grêmio, vul­go “time de azul”, ou pas­se­an­do pela Redenção, com visi­ta obri­ga­tó­ria ao Arco em home­na­gem aos três gaú­chos que mor­re­ram na Segunda Guerra. Eu me sin­to em casa aí.

De modo que me res­ta ago­ra reco­lher os esti­lha­ços do meu ser vital e tocar o tra­ba­lho e a vida. Vou pas­sar a sema­na ouvin­do Lobão.

Abraço,

André

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