Europa

Colunistas

02.09.15

Eastern Boys (2013), do fran­co-mar­ro­qui­no Robin Campillo (rotei­ris­ta de Entre os Muros da Escola), não entrou em cir­cui­to comer­ci­al no Brasil, mas pode ser com­pra­do ou alu­ga­do entre as deze­nas de opções gay-soft que de um tem­po para cá inva­di­ram as lis­tas de lan­ça­men­tos em DVD e os sites de comer­ci­a­li­za­ção de fil­mes na inter­net. Eastern Boys não tem nada de soft e mui­to menos algu­ma coi­sa a ver com dra­mas român­ti­cos de segun­da cate­go­ria diri­gi­dos a espec­ta­do­res gays caren­tes de repre­sen­ta­ção. É um fil­me auto­ral e de um autor dis­pos­to a se embre­nhar em uma zona radi­cal de des­con­for­to, de onde não se sai ile­so.

O fil­me não se pro­põe a fazer uma ale­go­ria da Europa, mas é impos­sí­vel não cair na ten­ta­ção de inter­pre­tá-lo assim, ain­da mais hoje, dian­te do hor­ror de um con­ti­nen­te apa­vo­ra­do, encur­ra­la­do e para­li­sa­do pela tra­gé­dia dos flu­xos migra­tó­ri­os que de cer­to modo ele pró­prio aju­dou a cri­ar com as guer­ras no Iraque e na Líbia.

Um gru­po de imi­gran­tes ile­gais da Europa ori­en­tal, basi­ca­men­te da Ucrânia e do Cáucaso, cir­cu­la pela Gare du Nord, em Paris. A câme­ra come­ça por obser­vá-los à dis­tân­cia e aos pou­cos vai se apro­xi­man­do, até nos ver­mos entre eles. A gan­gue de jovens se encon­tra dian­te da esta­ção, inva­de o saguão, como pre­da­do­res à pro­cu­ra de pre­sas entre os pas­sa­gei­ros, e se dis­per­sa à pri­mei­ra apa­ri­ção de um bata­lhão da polí­cia. Passam os dias ali, em uma core­o­gra­fia sem diá­lo­gos, que dura toda a par­te ini­ci­al do fil­me divi­di­do em qua­tro capí­tu­los.

A cer­ta altu­ra des­se movi­men­to, um homem de meia-ida­de, típi­co fun­ci­o­ná­rio de empre­sa, com pas­ta a tira­co­lo, entra na dan­ça, nota um dos rapa­zes, se encan­ta por ele e o segue. Os dois se encon­tram num can­to da esta­ção. O rapaz não fala fran­cês. Propõe ir à casa do cli­en­te, em inglês. O cli­en­te, já cego pelo dese­jo, cede e entre­ga o ende­re­ço ao rapaz, enquan­to o espec­ta­dor de bom sen­so segue repe­tin­do em silên­cio: não! não!, per­ple­xo com a inge­nui­da­de do per­so­na­gem. Os dois com­bi­nam um pre­ço, mar­cam para o dia seguin­te. É o desas­tre anun­ci­a­do. A arma­di­lha está pron­ta.

Cena de Eastern Boys (2013), de Robin Campillo

No dia seguin­te, não é o rapaz quem bate na por­ta do homem de meia-ida­de, mas um meni­no da gan­gue, menor de ida­de. Quando o cli­en­te ten­ta impe­di-lo de entrar, ele for­ça a pas­sa­gem e ame­a­ça denun­ciá-lo por pedo­fi­lia. Em ins­tan­tes, o meni­no já se tor­nou senhor da casa e está abrin­do a por­ta para o res­to da gan­gue, que toma o apar­ta­men­to de assal­to e faz a fes­ta, lite­ral­men­te, enquan­to o pro­pri­e­tá­rio obser­va tudo, impo­ten­te e imó­vel. É uma cena medo­nha de humi­lha­ção.

Depois de desa­fi­a­rem o dono da casa, de bebe­rem suas bebi­das, dan­ça­rem e se esmur­ra­rem, os rapa­zes pas­sam ao des­mon­te do apar­ta­men­to. Levam tudo, como empre­ga­dos efi­ci­en­tes de uma trans­por­ta­do­ra, dei­xan­do o homem sozi­nho em sua casa depe­na­da, com gar­ra­fas vazi­as e copos que­bra­dos entre as fotos de sua his­tó­ria afe­ti­va e fami­li­ar espa­lha­das pelo chão. A pas­si­vi­da­de e a resig­na­ção com que ele acom­pa­nhou a pilha­gem não têm em prin­cí­pio outra expli­ca­ção além de um tra­ço maso­quis­ta de per­so­na­li­da­de, com o qual nenhum espec­ta­dor quer se iden­ti­fi­car. Tudo muda de figu­ra quan­do o rapaz que ele havia vis­to na esta­ção de trens e por quem havia se inte­res­sa­do ori­gi­nal­men­te, o rapaz que o traí­ra, rea­pa­re­ce sozi­nho, nos dias seguin­tes, que­ren­do tran­sar. E aí a per­so­na­li­da­de do fran­cês de meia-ida­de ganha uma pers­pec­ti­va bem mais com­ple­xa e ines­pe­ra­da, esta­be­le­cen­do com o outro, com o estran­gei­ro que o traiu, uma rela­ção que não dei­xa de ser uma lição de huma­ni­da­de. É o dese­jo que per­mi­te trans­for­mar a rela­ção a prin­cí­pio mer­can­til em uma rela­ção entre duas pes­so­as. E, num segun­do momen­to, quan­do o dese­jo aca­bar, em uma rela­ção de soli­da­ri­e­da­de. É essa a mai­or gene­ro­si­da­de do fil­me.

É cla­ro que essa trans­for­ma­ção pres­su­põe um alto ris­co. Mas é um ris­co que está embu­ti­do na pró­pria con­di­ção des­se homem, bur­guês e gay de meia-ida­de, que vive sozi­nho nos limi­tes de Paris, mas não está dis­pos­to a abrir mão do dese­jo. É aí que muda a com­pre­en­são do que pare­cia sim­ples pas­si­vi­da­de e resig­na­ção e o espec­ta­dor per­ce­be o para­do­xo do que está em jogo: a vul­ne­ra­bi­li­da­de é a con­sequên­cia de estar vivo (e de que­rer viver).

É aí tam­bém que o per­so­na­gem do gay de meia-ida­de pas­sa a repre­sen­tar um antí­po­da da Europa, esse mun­do para­li­sa­do entre defen­der até a mor­te uma supos­ta inte­gri­da­de ou optar pela vida, sob o ris­co da vul­ne­ra­bi­li­da­de e da trans­for­ma­ção que toda vida pres­su­põe. Pode pare­cer uma asso­ci­a­ção dema­si­a­do fácil ou for­ça­da – e tal­vez seja mes­mo –, mas é sig­ni­fi­ca­ti­vo que, no fil­me, a expe­ri­ên­cia do dese­jo (a pos­si­bi­li­da­de do encon­tro e do reco­nhe­ci­men­to, como iguais, entre duas pes­so­as de mun­dos com­ple­ta­men­te dife­ren­tes e em prin­cí­pio incom­pa­tí­veis) aca­be recon­fi­gu­ran­do os papéis e a pró­pria ideia de famí­lia e de inte­gri­da­de, pos­si­bi­li­tan­do a inte­gra­ção e a con­vi­vên­cia com o outro. Seria român­ti­co se não hou­ves­se aí um per­cur­so de vio­lên­cia e de dor que ambos têm de atra­ves­sar e ultra­pas­sar para con­ti­nu­a­rem vivos. E, mais que isso, para con­ti­nu­a­rem viven­do com tudo o que isso tem de para­do­xal.

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