Evitar se atropelar

Correspondência

17.04.13

Leia a car­ta ante­ri­or.                                                                                      Leia a pró­xi­ma car­ta.

"A gaivota", de Anton Tchekhov (montagem de Arthur Nauzyciel)

São Paulo, 18 de abril de 2013.

Querido Albatroz,

Ao bater o pri­mei­ro “a” des­te pará­gra­fo caí em deso­la­ção, esta é a minha últi­ma car­ta pra você. É bom se cor­res­pon­der com as aves por­que elas são, em sua mai­o­ria, erran­tes, e jamais con­se­gui­re­mos saber se as men­sa­gens as alcan­ça­rão no meio do tra­je­to para o céu ou para o chão. Essa espé­cie de des­co­nhe­ci­men­to, que me faz con­tar ape­nas com o sen­ti­do do ven­to e a boa von­ta­de das marés, me dei­xa mais leve — uma pena esca­pu­lin­do de um tra­ves­sei­ro de super­mer­ca­do — e tam­bém me traz uma cer­te­za: sei que você vai ler o meu reca­do do alto, cer­ca­do de ver­de, ama­re­lo, azul e bran­co. Sei tam­bém como é difí­cil ler ao sol, então peço que quan­do esse papel cru­zar seu hori­zon­te num rasan­te, você pro­cu­re a som­bra para des­can­sar a asa que­bra­da. Chacal, que his­tó­ria é essa que meu livro te der­ru­bou da pra­te­lei­ra? Quase liguei pro SAMU. Ave não cai da pra­te­lei­ra, só se esti­ver empa­lha­da. Não é o caso. E não é mes­mo o caso por­que não era uma pra­te­lei­ra nem era uma livra­ria, era uma pis­ta de dan­ça e uma bar­ra. Conte a ver­são conhe­ci­da, a que sua mãe con­fir­ma.

Desde que come­ça­mos a nos cor­res­pon­der e enquan­to você dava voz ao meu can­to numa seres­ta para os outros alba­tro­zes em fuga do Miguel Couto (que momen­to pra guar­dar!), cenas pecu­li­a­res tam­bém come­ça­ram a acon­te­cer na minha vida. Semana pas­sa­da eu tinha um com­pro­mis­so na av. Angélica às 20h30, e, como toda pes­soa que cres­ceu moran­do lon­ge, às 19h45 eu já esta­va espe­ran­do o sinal da Consolação fechar pra eu atra­ves­sar e pegar aque­le peda­ci­nho de rua que me leva­ria à Angélica pela direi­ta. Sabe qual é? Um onde o ven­to cor­re em gol­pes, e onde mais pra fren­te vemos uma pra­ça colo­ri­da e uma ven­da que pre­pa­ra o melhor (tal­vez úni­co) açaí de São Paulo. Se eu fos­se dese­nhar esse peque­no peda­ço de via tão deli­ca­do pra te expli­car eu vira­ria a letra H para a direi­ta: a late­ral esquer­da vira­ria a par­te supe­ri­or (Angélica), a late­ral direi­ta vira­ria a par­te infe­ri­or (Consolação), logo, a vare­ta do meio seria essa rua que não sei o nome. Te loca­li­zei?

Às 19h44 (um minu­to antes do sinal abrir), fui abor­da­da por um cama­ra­da que pare­cia ser chi­le­no ou peru­a­no. Mas, assim que ele dis­se as pri­mei­ras pala­vras, eu reco­nhe­ci o sota­que do Pará. Os cabe­los bem pen­te­a­dos pra trás, as rou­pas um pou­co sujas e um sor­ri­so memo­rá­vel. Devia ter uns cin­quen­ta, 1,65 m e não esta­va bêba­do, mas pare­cia ser tam­bém um erran­te. Tinha nos olhos a deter­mi­na­ção das aves e um tipo de alu­ci­na­ção natu­ral, isso que cos­tu­mam cha­mar de bri­lho. Ele dis­se: “Moça, eu já esca­pei de ser atro­pe­la­do sete vezes.” Fiquei um pou­co assus­ta­da, mas me ilu­mi­nei e dis­se “Deve ser bom ter sete vidas”. Ele sor­riu ali­vi­a­do e con­ti­nu­ou “Mas das outras três eu não con­se­gui, fui atro­pe­la­do três vezes des­de que nas­ci”. Eu não sou­be o que dizer, e a essa hora (19h45 e alguns segun­dos) já tínha­mos dado cin­co pas­sos e está­va­mos no meio da Consolação, ele com­ple­tou meu silên­cio: “Mas é impor­tan­te eu dizer pra moça que eu nun­ca fui atro­pe­la­do por mim mes­mo, só pelo seme­lhan­te!”.

Até che­gar às 20h30 do meu com­pro­mis­so, pas­sei por mui­tos luga­res: peguei, como você já foi infor­ma­do, a Rua H Virado, entrei na Angélica, parei pra com­prar cigar­ro, amar­rei o sapa­to, fumei um cigar­ro, doei três cigar­ros, um para cada erran­te (é impos­sí­vel fumar ao ar livre sem comu­nhão), tomei um suco de laran­ja, comi um pão de quei­jo, fui ao meu com­pro­mis­so, meu com­pro­mis­so aca­bou, peguei um ôni­bus, dor­mi e acor­dei todo o res­to da sema­na, a Margaret Thatcher mor­reu, o fds che­gou, essa sema­na come­çou, é segun­da-fei­ra e eu estou escre­ven­do sua car­ta comen­do pão de quei­jo nova­men­te. O que alguns cha­mam de coin­ci­dên­cia, eu cha­mo de fal­ta de opção. Dessa vez é uma por­ção casei­ra de 300 g divi­di­dos em boli­nhas que aca­bei de assar em fogo bai­xo pra cozi­nhar por den­tro e dou­rar por fora sem quei­mar. Estou mas­ti­gan­do essa fra­se des­de lá até aqui, mas ago­ra invo­can­do Minas Gerais, pedin­do refor­ço à memó­ria incon­fi­den­te, ouvin­do Clube da Esquina e relem­bran­do aque­le car­na­val em Tiradentes para achar a saí­da mais segu­ra des­sa péro­la que a mim foi ofer­ta­da. Encontrei: Libertas quae sera tamen.

Libertas que serás tam­bém. Liberdade, ain­da que tar­de. Eu vou levar a fra­se do meu oca­si­o­nal conhe­ci­do para sem­pre — gos­ta­ria de encon­trá-lo even­tu­al­men­te, em um dia tris­te ou em um dia ale­gre — numa bol­sa jun­to com as suas car­tas. Debaixo do céu que todo dia se abre, inde­pen­den­te do que vive e do que mor­re, e aci­ma dos pre­ci­pí­ci­os e matas, vejo aqui do chão que a vida é uma pra­ze­ro­sa e cur­ta tra­ves­sia de rua. Isso eu apren­di com você.

     Um beijo grande
     e um abraço antes do pulo,
     sua amiga,
     Gaivota

 

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