Faces de Oppenheimer

Literatura

11.01.16

Quem bio­gra­fa o bió­gra­fo? Ao com­prar uma bio­gra­fia na livra­ria, pen­sa­mos no alvo, qua­se nun­ca no autor. Lemos a bio­gra­fia de James Joyce por­que que­re­mos saber a sobre Joyce, não sobre Richard Ellmann. Há um con­sen­so qua­se incons­ci­en­te de que o bió­gra­fo deve pra­ti­ca­men­te desa­pa­re­cer. Sua fun­ção é a de pes­qui­sar todos os arqui­vos dis­po­ní­veis, entre­vis­tar cen­te­nas de pes­so­as, esco­lher o rele­van­te na vida do bio­gra­fa­do e nar­rá-lo de for­ma cla­ra. Estes são, a prin­cí­pio, os ele­men­tos de uma boa bio­gra­fia, e estão pre­sen­tes em livros como Derrida, no qual Benoît Peeters ras­treia a vida do filó­so­fo fran­cês. Mas o que tor­na uma bio­gra­fia excep­ci­o­nal?

Dois moti­vos me leva­ram a devo­rar, nes­te fim de ano, Robert Oppenheimer: A Life Inside the Center, de Ray Monk, a mais recen­te bio­gra­fia sobre o cien­tis­ta nor­te-ame­ri­ca­no (que já rece­beu outras qua­tro bio­gra­fi­as). O pri­mei­ro é que sou obce­ca­do por físi­ca nucle­ar e pela figu­ra faus­ti­a­na de Oppenheimer. O segun­do é por­que Ray Monk não me pare­ce ape­nas um bió­gra­fo incrí­vel, mas um pro­sa­dor fora de série. Seu pre­mi­a­do Ludwig Wittgenstein: o dever de um gênio não é ape­nas uma das melho­res bio­gra­fi­as já escri­tas. Se Wittgenstein nun­ca tives­se exis­ti­do e o livro fos­se uma obra de fic­ção, esta­ría­mos dian­te de um dos melho­res roman­ces de todos os tem­pos.

Oppenheimer em con­ver­sa com Albert Einstein (LIFE Magazine)

Ray Monk abor­da seus temas com a com­ple­xi­da­de que mece­rem. Ele não pen­sa que Wittgenstein era ape­nas um doi­di­nho ner­vo­so que se reve­lou um pés­si­mo pro­fes­sor pri­má­rio, ou que Oppenheimer era um poe­ta frus­tra­do com sim­pa­ti­as pelo regi­me comu­nis­ta. A obra dos bio­gra­fa­dos con­ta tan­to quan­to o fra­cas­so pes­so­al ou sexu­al de suas vidas, e Monk não bus­ca sim­pli­fi­cá-las ou tor­ná-las exces­si­va­men­te mas­ti­ga­das. Tenta, a todo cus­to, expli­car o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein, e ao entrar nos mean­dros da fis­são e fusão nucle­ar, gas­ta pági­nas e pági­nas falan­do do mode­lo atô­mi­co de Rutherford, e das des­co­ber­tas acer­ca da ele­tro­di­nâ­mi­ca quân­ti­ca por Richard Feynman, que foi tra­ba­lhar em Los Alamos quan­do era um rapa­zo­te de vin­te e qua­tro anos. Na intro­du­ção de Robert Oppenheimer: A Life Inside the Center, Ray Monk enfa­ti­za: é pre­ci­so conhe­cer a obra para enten­der o artis­ta, é pre­ci­so com­pre­en­der as ques­tões de físi­ca e quí­mi­ca que ator­men­ta­vam Oppenheimer para poder enten­der Oppenheimer. Afinal, o ame­ri­ca­no fez da ciên­cia a sua gran­de pai­xão, e igno­rar as ques­tões cien­tí­fi­cas pen­san­do que isso afas­ta­ria o lei­tor seria fra­cas­sar na sua tare­fa enquan­to bió­gra­fo.

As 800 pági­nas que com­põem o livro, por­tan­to, devem ser ári­das e tra­ba­lho­sas, pode pen­sar o lei­tor. E é aí que Ray Monk real­men­te bri­lha. Monk tra­ta Oppenheimer como um mul­ti­fa­ce­ta­do per­so­na­gem de fic­ção. Impossível não lem­brar de Lorde Jim, no qual o nar­ra­dor, em sua bus­ca para com­pre­en­der a figu­ra do mari­nhei­ro Jim, afir­ma, que a bus­ca por enten­dê-lo era como bater num cai­xão de metal para ten­tar des­co­brir o que está lá den­tro. Oppenheimer é noto­ri­a­men­te uma figu­ra impe­ne­trá­vel, por mais entre­vis­tas e pales­tras que ele tenha dado pós-Hiroshima-Nagasaki. Monk reco­nhe­ce essa difi­cul­da­de, esse dis­tan­ci­a­men­to, e tor­na isso um dos temas laten­tes da bio­gra­fia. As 800 pági­nas, então, flu­em como um best-sel­ler de fan­ta­sia, o livro se tor­na, usan­do uma expres­são dig­na dos livros mais comer­ci­ais, um page-tur­ner. Oppenheimer é o enig­ma, Ray Monk é o dete­ti­ve, o lei­tor é seu cúm­pli­ce.

O timing da minha lei­tu­ra não dei­xa de ser irô­ni­co. O tema das armas nucle­a­res pare­cia estar numa fase dor­men­te, mas nos últi­mos dias, a Coreia do Norte cho­cou o mun­do com o anún­cio de que tes­ta­ram sua bom­ba de hidro­gê­nio. No momen­to em que escre­vo este tex­to, espe­ci­a­lis­tas ain­da deba­tem se é ble­fe ou ver­da­de, e jor­nais cor­rem para pre­pa­rar info­grá­fi­cos expli­can­do o que é a bom­ba H. A tec­no­lo­gia por trás das armas nucle­a­res já é ter­ri­vel­men­te anti­ga, e a físi­ca por trás da fis­são e da fusão está aces­sí­vel a qual­quer um. A difi­cul­da­de, como se sabe, é a de enri­que­cer uma quan­ti­da­de de urâ­nio sufi­ci­en­te para as armas. Robert Oppenheimer, que sem­pre fica­rá na his­tó­ria como o pai da bom­ba atô­mi­ca, tam­bém é conhe­ci­do por ser um vio­len­to opo­si­tor ao desen­vol­vi­men­to da bom­ba H e defen­deu com tan­to vigor o con­tro­le de armas nucle­a­res que foi con­si­de­ra­do um sim­pa­ti­zan­te comu­nis­ta. Ao ler as notí­ci­as sobre a Coreia do Norte, o fan­tas­ma de Oppenheimer se faz pre­sen­te. Uma das his­tó­ri­as mais conhe­ci­das do cien­tis­ta é sua decla­ra­ção de que, ao ver o pri­mei­ro tes­te nucle­ar, lem­brou-se de um tre­cho do Bhagavad Gita – tre­cho este que, Monk me ensi­nou, tra­ta-se de uma tra­du­ção pecu­li­ar e pes­so­al de Oppenheimer, que estu­dou sâns­cri­to no meio de suas inves­ti­ga­ções cien­tí­fi­cas. No tre­cho do livro sagra­do, Vishnu assu­me a for­ma de uma cri­a­tu­ra com mui­tos bra­ços e afir­ma, nes­ta manei­ra oppe­nhei­me­ri­a­na de ver o mun­do: “Agora eu me tor­nei a Morte, o des­trui­dor de mun­dos”.

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