Fantasmas no cinema nacional

No cinema

14.06.13

A memória que me contam (Lúcia Murat, 2012)

 

A memória que me contam (Lúcia Murat, 2012)

A memó­ria que me con­tam e Noites de Reis, dois fil­mes bra­si­lei­ros que estrei­am hoje (14 de junho) e são com­ple­ta­men­te dis­tin­tos em tema, esti­lo e ambi­en­ta­ção, têm entre­tan­to algo em comum: em ambos, os even­tos dra­má­ti­cos cru­ci­ais já ocor­re­ram quan­do a nar­ra­ti­va come­ça e os per­so­na­gens se esfor­çam por lidar com um pas­sa­do dolo­ro­so e deses­ta­bi­li­za­dor. Ambos — a exem­plo do que ocor­ria tam­bém em Hoje, de Tata Amaral — são assom­bra­dos por fan­tas­mas, que, como sabe­mos, são pro­je­ções da cul­pa, do medo e do dese­jo.

Dito isso, vamos aos fil­mes. A memó­ria que me con­tam, de Lúcia Murat, põe em cena um gru­po de ami­gos de meia-ida­de, todos ex-guer­ri­lhei­ros que vive­ram o conhe­ci­do cal­vá­rio de pri­são, tor­tu­ra e exí­lio, reu­ni­dos ago­ra em tor­no de uma com­pa­nhei­ra de lutas, Ana (Simone Spoladore), que ago­ni­za na UTI de um hos­pi­tal cari­o­ca. Ela é uma espé­cie de mor­ta-viva, de quem todos falam usan­do o ver­bo no pre­té­ri­to.

http://www.youtube.com/watch?v=kKz3cwUdW-Y

Com a apa­rên­cia que tinha na juven­tu­de, Ana — ins­pi­ra­da na guer­ri­lhei­ra real Vera Silvia Magalhães (1948–2007), a quem o lon­ga é dedi­ca­do — sur­ge a cada um dos seus velhos ami­gos, ora como anjo ima­cu­la­do, ora como cons­ci­ên­cia moral ver­ba­li­za­da, mas sem­pre como uma ide­a­li­za­ção da com­ba­ten­te ide­al: valen­te, gene­ro­sa, bem-humo­ra­da, lin­da.

Ajuste de con­tas pes­so­al

O arti­fí­cio dra­má­ti­co-nar­ra­ti­vo é pro­pí­cio para a dire­to­ra colo­car em ques­tão dile­mas e con­tra­di­ções inter­nas da esquer­da arma­da. Afinal, por que tipo de soci­e­da­de eles luta­vam? Que valo­res e sen­ti­men­tos nutri­am entre si? Como lida­vam com as con­du­tas “des­vi­an­tes” (incluin­do a homos­se­xu­a­li­da­de), a dela­ção, a trai­ção? Tudo isso sobre o pano de fun­do atu­a­lís­si­mo da inves­ti­ga­ção dos cri­mes come­ti­dos pela repres­são poli­ci­al-mili­tar nos anos da dita­du­ra.

Poucas pes­so­as pode­ri­am abor­dar esse espi­nho­so tema com tan­ta auto­ri­da­de e legi­ti­mi­da­de como Lúcia Murat, ela pró­pria ex-guer­ri­lhei­ra pre­sa e tor­tu­ra­da. Ela está falan­do de si pró­pria, de sua tur­ma, e é líci­to ver a per­so­na­gem da cine­as­ta Irene (Irene Ravache) como seu alter ego.

Personagens e tipos

Se essa liga­ção vis­ce­ral com o tema é um dos trun­fos do fil­me, tal­vez seja tam­bém res­pon­sá­vel por suas fra­que­zas. A mais evi­den­te des­tas, a meu ver, é o dese­jo de abar­car pra­ti­ca­men­te todos os aspec­tos da ques­tão, bem como todas as tra­je­tó­ri­as pos­sí­veis de ex-guer­ri­lhei­ros, com cada um dos per­so­na­gens, pre­sen­tes ou cita­dos, repre­sen­tan­do uma delas (há o que se tor­nou minis­tro, há o que virou cíni­co e sar­cás­ti­co, há a obce­ca­da pela cul­pa etc).

A obses­são com a cla­re­za leva a uma exces­si­va ver­ba­li­za­ção dos assun­tos, e todas as con­ver­sas come­çam ou ter­mi­nam com “a nos­sa gera­ção fez isso, ou fez aqui­lo”. Com isso, ape­sar da segu­ran­ça nar­ra­ti­va e da con­sis­tên­cia da ence­na­ção, tudo soa um tan­to esque­má­ti­co. As situ­a­ções não “res­pi­ram”, os per­so­na­gens pare­cem não ter vida pró­pria, cum­prin­do ape­nas a fun­ção de tipos — sina da qual esca­pam, ao menos em par­te, os per­so­na­gens mais jovens, como os filhos homos­se­xu­ais de Irene e de seu ami­go Ricardo (Otávio Augusto).

A ânsia da visão tota­li­zan­te (dis­cus­são polí­ti­ca, esté­ti­ca, moral) e de regis­tro da atu­a­li­da­de oca­si­o­na até a intro­du­ção na tra­ma de um pre­so polí­ti­co ita­li­a­no (Franco Nero, o eter­no Django), refe­rên­cia evi­den­te ao caso Cesare Battisti.

Em suma, A memó­ria é um acer­to de con­tas legí­ti­mo, neces­sá­rio e opor­tu­no, que traz em sua pró­pria tex­tu­ra as mar­cas (eu qua­se dizia as cha­gas) de sua exces­si­va apro­xi­ma­ção com um obje­to ain­da arden­te, espi­nho­so, radi­a­ti­vo.

Tragédia con­cen­tra­da

Se o fil­me de Lúcia Murat é uma obra polifô­ni­ca, pano­râ­mi­ca, com mui­tos per­so­na­gens e o foco nar­ra­ti­vo se des­lo­can­do ao lon­go do tem­po (da déca­da de 1960 a 2012) e do espa­ço (Rio, Brasília, Paris), em Noites de Reis tudo se con­cen­tra em três ou qua­tro per­so­na­gens, pou­cos dias e uma úni­ca peque­na cida­de (Paraty, não nome­a­da).

http://www.youtube.com/watch?v=rXUQPYpbBU8

Ali, na épo­ca dos tra­di­ci­o­nais fes­te­jos de Reis (iní­cio de janei­ro), uma mulher (Bianca Byington) se con­fron­ta com a neces­si­da­de de supe­rar o insu­pe­rá­vel: a lem­bran­ça da mor­te de seu filho peque­no num incên­dio, alguns anos antes.

De cer­to modo, são dois os fan­tas­mas que a ator­men­tam. Um deles, o mari­do (Enrique Diaz) sumi­do des­de a tra­gé­dia (como o pro­ta­go­nis­ta de Paris, Texas), mate­ri­a­li­za-se em car­ne e osso de repen­te, jus­to quan­do ela redes­co­bria o amor em outro homem (Flavio Bauraqui). O outro segue ocul­to, ape­nas evo­ca­do nas con­ver­sas à meia-voz, em mei­as-pala­vras: é o pró­prio filho mor­to.

Documentário e fic­ção

Assim como em seu lon­ga ante­ri­or, Praça Saens Peña, Vinícius Reis tran­si­ta aqui entre o docu­men­tá­rio e a fic­ção, só que ago­ra de uma manei­ra mui­to mais sutil, arti­cu­la­da, madu­ra.

O iní­cio do fil­me é exem­plar des­sa pas­sa­gem qua­se imper­cep­tí­vel entre um regis­tro e outro: um ter­no de Reis, com seu ala­ri­do, suas fan­ta­si­as extra­va­gan­tes e seu batu­que, entra numa casa e o líder do gru­po, de acor­do com a tra­di­ção, decla­ma em ver­sos impro­vi­sa­dos a his­tó­ria da famí­lia local. Ainda que em lin­gua­gem indi­re­ta, alu­si­va, os ver­sos do folião expõem a tra­gé­dia do meni­no, e a câme­ra, mui­to sutil­men­te, mos­tra a mudan­ça nas expres­sões dos ouvin­tes, em par­ti­cu­lar da dona da casa, mãe do meni­no mor­to. É um momen­to belís­si­mo de cine­ma, de uma for­ça tre­men­da. Quase sem per­ce­ber, pas­sa­mos da fes­ta à tra­gé­dia.

Água e fogo

No mais, o fil­me todo é de uma deli­ca­de­za extre­ma na abor­da­gem do trau­ma, esqui­van­do-se das arma­di­lhas do melo­dra­ma fácil. Algumas coi­sas dig­nas de nota (e de lou­vor): a pre­sen­ça rege­ne­ra­do­ra da água — da pis­ci­na, do mar, do pano que esfre­ga as pare­des do quar­to fatí­di­co — num con­tex­to em que o fogo é o mal ocul­to; a recor­rên­cia de situ­a­ções em que um per­so­na­gem obser­va outro dor­min­do (em espe­ci­al, pai e filha alter­na­da­men­te); o apro­vei­ta­men­to dra­má­ti­co pre­ci­so da pai­sa­gem natu­ral e arqui­tetô­ni­ca de Paraty, com uma rever­be­ra­ção meta­fó­ri­ca das idei­as de facha­da, patrimô­nio e memó­ria.

Noites de reis (Vinícius Reis, 2012)

 

Noites de Reis (Vinícius Reis, 2012)

Por fim, é pre­ci­so des­ta­car o esplên­di­do desem­pe­nho dos ato­res, sobre­tu­do os que encar­nam a famí­lia nucle­ar: Enrique Diaz, Bianca Byington e a meni­na Raquel Bonfante, no papel da filha que res­tou. É admi­rá­vel, pela sen­sa­ção de angús­tia e desam­pa­ro que trans­mi­te, a cena em que a meni­na está num bote com o pai e este mer­gu­lha no mar e não rea­pa­re­ce até o final da cena.

O fil­me come­ça e ter­mi­na com uma folia de Reis. Retorna da tra­gé­dia à fes­ta, ten­do cum­pri­do um ciclo ritu­al de catar­se e reden­ção pos­sí­veis. Enfim, uma gran­de obra dis­far­ça­da de fil­me peque­no.

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