Fellini na veia

No cinema

19.03.12

A expo­si­ção Tutto Fellini, que o Instituto Moreira Salles do Rio apre­sen­ta até 17 de junho e que no mês seguin­te entra­rá em car­taz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, é uma opor­tu­ni­da­de pri­vi­le­gi­a­da de mer­gu­lhar no uni­ver­so de um dos mai­o­res artis­tas que o cine­ma já pro­du­ziu.

Entre os mais de 400 itens da mos­tra há fotos, car­ta­zes, pági­nas de jor­nais e revis­tas de épo­ca, víde­os e, aci­ma de tudo, dese­nhos e esbo­ços do pró­prio Fellini para per­so­na­gens, figu­ri­nos e cená­ri­os de suas obras.

Mas o melhor mes­mo é a retros­pec­ti­va de mais de vin­te fil­mes que acom­pa­nha a expo­si­ção. Os jovens que não conhe­cem a fil­mo­gra­fia do dire­tor, ou que só a viram par­ci­al­men­te na tela peque­na da TV ou do com­pu­ta­dor, pode­rão des­fru­tar da delí­cia que é ficar à mer­cê da fan­ta­sia trans­bor­dan­te de Fellini. Quem já viu cer­ta­men­te vai que­rer novas doses na veia. Eis aí um vício que só faz bem.

Provinciano e uni­ver­sal

Como todo gran­de artis­ta, Fellini supe­ra dico­to­mi­as que pare­ce­ri­am incon­ci­liá­veis: o pro­vin­ci­a­no e o uni­ver­sal, a tra­di­ção e a van­guar­da, o sagra­do e o pro­fa­no, a razão e a intui­ção, a nos­tal­gia do que já foi e o sonho do que ain­da não é.

A asso­ci­a­ção do adje­ti­vo fel­li­ni­a­no a uma ima­gem de exu­be­rân­cia ceno­grá­fi­ca, exces­sos cômi­cos e mulhe­res pei­tu­das é uma redu­ção alta­men­te empo­bre­ce­do­ra.  Seu cine­ma é, para­do­xal­men­te, mul­ti­fa­ce­ta­do e sem­pre o mes­mo. Nele con­vi­vem o bur­les­co de Abismo de um sonho, o trá­gi­co de A estra­da da vida, o paté­ti­co de Noites de Cabiria, o visi­o­ná­rio de E la nave va e A voz da lua, o nos­tál­gi­co de Amarcord e Os boas-vidas, o ico­no­clas­ta de Roma, o mora­lis­ta (no melhor dos sen­ti­dos) de A tra­pa­ça e A doce vida, o autor­re­fle­xi­vo de Oito e meio, o dio­ni­sía­co de Satyricon.

Por falar em Satyricon, alguns bas­ti­do­res de fil­ma­gem des­sa via­gem à Roma pré-cris­tã podem dar uma ideia da ampli­tu­de dos talen­tos exer­ci­dos por Fellini no set. Num deles, em pre­to e bran­co, infe­liz­men­te (pois o fil­me é de um colo­ri­do volup­tu­o­so), vemos o cine­as­ta como autên­ti­co maes­tro regen­do o caos apa­ren­te de uma gran­de cena, com cen­te­nas de figu­ran­tes.

http://www.youtube.com/watch?v=VzJ5qQ8-ppE

No outro fla­gran­te (este, colo­ri­do), o dire­tor mos­tra toda a sua minú­cia e deli­ca­de­za ao rodar uma cena ínti­ma, diri­gin­do-se em sus­sur­ros com seu inglês macar­rô­ni­co aos três jovens ato­res que con­tra­ce­nam na cama. Em segui­da, no mes­mo cli­pe, vemos a cena tal como ficou no fil­me.

http://www.youtube.com/watch?v=r8oo7A0bO-Q

Como se sabe, Fellini não fil­ma­va com som dire­to. Ou seja, todos os diá­lo­gos de seus fil­mes eram dubla­dos pos­te­ri­or­men­te pelos pró­pri­os ato­res ou por outros. No set de fil­ma­gem, fre­quen­te­men­te ele fazia tocar uma músi­ca que daria o anda­men­to e o cli­ma da cena, não neces­sa­ri­a­men­te (aliás, qua­se nun­ca) a músi­ca que seria apro­vei­ta­da na tri­lha sono­ra defi­ni­ti­va.

Fazia isso por­que seu cine­ma não era jor­na­lís­ti­co, nem lite­rá­rio, nem tam­pou­co tea­tral, embo­ra pudes­se se ser­vir oca­si­o­nal­men­te des­sas fon­tes. Era, aci­ma de tudo, plás­ti­co e musi­cal. Não por aca­so, tra­ba­lhou qua­se sem­pre com o mes­mo com­po­si­tor, Nino Rota (até a mor­te des­te, em 1979), com o mes­mo dire­tor de foto­gra­fia, Giuseppe Rotunno (a par­tir de Satyricon), e com o mes­mo mon­ta­dor (Ruggero Mastroianni, irmão de Marcello, des­de Casanova 70). Eles enten­di­am ple­na­men­te o que o mes­tre que­ria. O resul­ta­do está na tela.

* Na ima­gem da home que ilus­tra esse post: uma cena do fil­me Satyricon.

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