Férias com babushkas ou baboulinkas

Literatura

13.11.12

É difí­cil me livrar de cer­ta sen­sa­ção de cul­pa nos pri­mei­ros dias de féri­as: não tenho mes­mo horá­rio? Nada de sair cor­ren­do? Posso mes­mo me espi­char na pol­tro­na e ler um livro sem pen­sar em nada para fazer depois?

Felizmente a estra­nhe­za não cos­tu­ma durar, e, des­sa vez, logo entrei no mun­do do cas­si­no da cida­de fic­tí­cia de Roletenburgo, onde se pas­sa a ação de Um joga­dor, de Dostoiévski. Não me lem­bro de, duran­te uma lei­tu­ra, ter dado risa­das com tan­to gos­to como ao ler a che­ga­da de Antonida Vassílievna, uma avó de 75 anos, pro­pri­e­tá­ria rural mos­co­vi­ta, a um hotel de Roletenburgo onde se hos­pe­da­vam estran­gei­ros, entre os quais rus­sos, para se aven­tu­rar no jogo. Ali esta­va um sobri­nho des­sa senho­ra, que, saben­do da doen­ça da tia, quan­do ela ain­da esta­va em Moscou, tele­gra­fa­va insis­ten­te­men­te a paren­tes, na espe­ran­ça de rece­ber notí­cia de sua mor­te. Pois no capí­tu­lo IX do livro, o lei­tor depa­ra com a sur­pre­en­den­te che­ga­da da avó ao hotel. Longe de ser a mori­bun­da, ela entra, triun­fan­te, na sua cadei­ra de rodas:

- Bem, aqui estou eu, em lugar do tele­gra­ma! — explo­diu, final­men­te, a avó, rom­pen­do o silên­cio. — Então, não me espe­ra­vam?
— Antonida Vassílievna… titia… mas, de que modo… — mur­mu­rou o infe­liz gene­ral.
Se a avó pas­sas­se mais alguns segun­dos sem falar, ele teria, pro­va­vel­men­te, um ata­que.
— O quê? De que modo? Sentei-me no trem e via­jei. Para que exis­tem, então, as estra­das de fer­ro? E vocês já esta­vam pen­san­do que eu tinha esti­ca­do as cane­las e lhes dei­xa­ra a heran­ça? Bem que eu sei como esta­vas man­dan­do tele­gra­mas daqui. Pagaste por eles uma for­tu­na, creio eu. Daqui, não é bara­to. E eu pus os pés nas cos­tas e vim para cá.

Claro que o tre­cho repro­du­zi­do aqui ganha outro sabor no con­tex­to do livro, depois que o lei­tor já conhe­ce o mag­ní­fi­co per­fil des­sa avó que, de tão impo­nen­te, ins­pi­ra o fun­ci­o­ná­rio do hotel a lhe dar títu­lo de nobre­za e ano­tar no livro: Madame La Générale, Princesse de Tarassiévitcheva.

Mas é no capí­tu­lo seguin­te, quan­do a avó vai ao cas­si­no, que ela é con­ta­mi­na­da pelo vício. O buril de Dostoiévski nos trans­por­ta para a mesa de jogo, onde a senho­ra ganha desen­fre­a­da­men­te, apos­tan­do no zéro. Ela não arris­ca além do zéro da sua sor­te ini­ci­al. Acredita que o núme­ro lhe será sem­pre fiel e rea­ge com a indig­na­ção pró­pria da sua per­so­na­li­da­de:

- Será que este zeri­nho amal­di­ço­a­do não sai nun­ca? Não que­ro mais viver, se não apa­re­cer esse zéro.

Todo o tra­ço da per­so­na­li­da­de do joga­dor se desen­vol­ve aqui: pri­mei­ro, as vitó­ri­as suces­si­vas, depois a com­pul­são de ganhar e, em segui­da, o incon­for­mis­mo de per­der que a leva a incon­tro­lá­veis ten­ta­ti­vas e, final­men­te, à ruí­na tem­po­rá­ria…

Essa per­so­na­gem tão fas­ci­nan­te me trou­xe de vol­ta uma outra, do mes­mo gêne­ro e não menos arre­ba­ta­do­ra: Akulina Ivánovna, a avó mater­na de Górki, que ele des­cre­ve em Infância, o pri­mei­ro volu­me da sua tri­lo­gia de memó­ri­as. Não é auto­ri­tá­ria e irô­ni­ca como a de Um joga­dor. É fir­me e doce, e é imen­sa na sua gene­ro­si­da­de, no seu sen­so de jus­ti­ça, na sua gra­ça e ori­gi­na­li­da­de. Como per­so­na­gem, é um monu­men­to. Religiosa, tinha tal inti­mi­da­de com Deus que nem che­ga­va a ser irre­ve­ren­te quan­do o con­tes­ta­va: tra­ta­va-o de igual pra igual. Certa vez con­fes­sou a Aleksiei, o neto, quan­do fala­vam sobre jus­ti­ça divi­na: “- E vai ver que nem mes­mo Deus é capaz de sem­pre enten­der de quem é a cul­pa”.

Maksim Górki

Dizia isso com abso­lu­ta natu­ra­li­da­de. Górki a retra­ta como uma mulher “pesa­da fei­to um mor­ro gran­de”. Mas ao mes­mo tem­po des­cre­ve uma dan­ça que ela pro­ta­go­ni­za, em que “toda ela ficou mais ele­gan­te, mais alta, e já era impos­sí­vel des­vi­ar os olhos da sua figu­ra — tão irre­sis­tí­vel era a sua bele­za e a sua gra­ça naque­les minu­tos de mila­gro­so retor­no à juven­tu­de”.

A essa altu­ra o lei­tor já per­ce­beu que, fazen­do cita­ções, eu tive de espe­rar o fim das féri­as para che­gar em casa, pegar o meu Infância para trans­cre­ver os tre­chos, entre os quais incluo esta mara­vi­lha de refle­xão que faz a avó de Górki dian­te de bara­tas:

É que não enten­do uma coi­sa: para que elas exis­tem? Ficam ras­te­jan­do para lá e para cá, pre­tas. O Senhor deu a cada cor­po uma mis­são: um tatu­zi­nho mos­tra que tem umi­da­de na casa; um per­ce­ve­jo sig­ni­fi­ca que as pare­des estão sujas; um pio­lho ata­ca, quer dizer que alguém vai ficar doen­te, tudo dá para enten­der! Mas essas daí, quem sabe que for­ça mora den­tro delas, e por que são envi­a­das?

Infância foi escri­to entre 1913 e 1914, e, em par­te, a res­pos­ta ao ques­ti­o­na­men­to da avó gor­ki­a­na seria dada 50 anos depois, quan­do uma moça, nas­ci­da na aldeia de Tchechelnik, Ucrânia, por­tan­to não mui­to lon­ge da famí­lia de Górki, que era de Níjni-Nóvgorod, viria para o Brasil e escre­ve­ria A pai­xão segun­do GH, con­fe­rin­do ao inse­to o poder de lhe desen­ca­de­ar séria cri­se de iden­ti­da­de e cri­an­do uma das obras de mai­or pres­tí­gio da lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra.

Quando li Infância, há pou­cos anos, não des­co­bri que avó em rus­so é bábush­ka ou babú­lin­ka, e que em fran­cês é babush­ka e babou­lin­ka. Eu sin­to a avó de Górki como babou­lin­ka, que soa mais afe­tu­o­so do que babush­ka, para mim, a avó de Um joga­dor.

Só ago­ra com­pre­en­di por que — a igno­rân­cia bem reser­va sur­pre­sas boas — as bone­cas de tama­nhos diver­sos, sou­ve­nirs conhe­ci­dos — meus e de mui­ta gen­te -, são cha­ma­das de babush­kas. Percebo que as avós rus­sas são espe­ci­a­lís­si­mas e escre­vo aqui sem pes­qui­sar o tema, mas des­con­fio seri­a­men­te que falar de avó rus­sa é cho­ver no molha­do. Paciência, pra mim é novi­da­de e estou encan­ta­da.

Devo con­fes­sar que sem­pre fiquei impres­si­o­na­dís­si­ma quan­do ouvia escri­to­res bra­si­lei­ros ou estran­gei­ros dize­rem, em entre­vis­tas, que aos 20 anos de ida­de já tinham lido todos “os rus­sos”. Pois eu só come­cei as minhas lei­tu­ras aos 50, o que, reco­nhe­ço, é uma per­da. Perda que venho sanan­do com delí­cia e com o pri­vi­lé­gio de ter lido Dostoiévski na mag­ní­fi­ca tra­du­ção de Crime e cas­ti­go fei­ta por Paulo Bezerra, além de outras obras tra­du­zi­das por Rubens Figueiredo, como Infância, e Um joga­dor, do mara­vi­lho­so Boris Schnaiderman.  Daí pra cá a pai­xão só vem aumen­tan­do. E ponho mais fogo nela esco­ra­da na afir­ma­ção de Autran Dourado no pre­fá­cio de Vida oci­o­sa, de Godofredo Rangel. Diz ele que “os clás­si­cos devem ser lidos no arras­ta­do da velhi­ce”.

Ainda não me reco­nhe­ço nes­se está­gio da vida, mas a Prefeitura do Rio de Janeiro não quer saber des­sas suti­le­zas. Já me for­ne­ceu aque­le car­tão­zi­nho com o qual a gen­te entra no ôni­bus de gra­ça. É óti­mo, não se tem de pegar em dinhei­ro.

* Elvia Bezerra é coor­de­na­do­ra de Literatura do Instituto Moreira Salles.

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