Ficção e memória

No cinema

17.06.16

Dois fil­mes bra­si­lei­ros mui­to for­tes estão entran­do em car­taz: Big Jato, de Cláudio Assis, e Trago comi­go, de Tata Amaral. O que eles têm em comum, a des­pei­to de suas dife­ren­ças radi­cais, é o fato de lida­rem com a memó­ria como tema e como ele­men­to de cons­tru­ção nar­ra­ti­va.

Sobre Big Jato escre­vi aqui quan­do foi pre­mi­a­do no fes­ti­val de Brasília do ano pas­sa­do, e acres­cen­to pou­ca coi­sa no final des­te tex­to. Vamos então a Trago comi­go.

O assun­to, gros­so modo, é a dita­du­ra mili­tar que vigo­rou no Brasil entre 1964 e 1985. Mais espe­ci­fi­ca­men­te, a bru­ta­li­da­de da repres­são aos que se opu­nham a ela nos cha­ma­dos “anos de chum­bo” (final da déca­da de 60, iní­cio da de 70). Dito assim, soa um tan­to déjà-vu. Mas é aí que o fil­me dá mais uma vol­ta no para­fu­so, ganhan­do em con­tun­dên­cia polí­ti­ca e rele­vân­cia esté­ti­ca.

Olhar indi­re­to

O crí­ti­co (e hoje ator) Jean-Claude Bernardet dis­se uma vez que a úni­ca manei­ra acei­tá­vel de tra­tar fic­ci­o­nal­men­te o perío­do da dita­du­ra é lan­çan­do mão de um olhar indi­re­to ou paró­di­co. Pelo menos foi assim que eu enten­di.

Foi isso, de cer­to modo, o que Tata Amaral (ami­ga e par­cei­ra cri­a­ti­va de Bernardet de lon­ga data) esbo­çou em seu lon­ga ante­ri­or, Hoje (2011), e que rea­li­za ple­na­men­te em Trago comi­go.

Aqui, o pro­ta­go­nis­ta é Telmo (Carlos Alberto Riccelli), dire­tor de tea­tro e ex-guer­ri­lhei­ro, que resol­ve mon­tar uma peça recons­ti­tuin­do o dra­ma de um gru­po revo­lu­ci­o­ná­rio esfa­ce­la­do pela repres­são. Esse dis­po­si­ti­vo nar­ra­ti­vo apa­ren­te­men­te sim­ples aca­ba por cri­ar um fas­ci­nan­te jogo de espe­lhos, refra­ções e inter­me­di­a­ções.

A pre­pa­ra­ção da peça com um punha­do de jovens ato­res fun­ci­o­na, por um lado, como um pro­ces­so tera­pêu­ti­co para o pró­prio Telmo, que revol­ve recor­da­ções dolo­ro­sas, revi­ve um amor dila­ce­ra­do, escla­re­ce dúvi­das, exor­ci­za cul­pas. A cer­ta altu­ra, intro­duz-se um segun­do sen­ti­do: usar a ence­na­ção como meca­nis­mo de “des­nu­da­men­to do tira­no”, à manei­ra da peça den­tro da peça em Hamlet, de Shakespeare, pois Telmo acre­di­ta que seu ex-cama­ra­da de mili­tân­cia Lopes (Emilio Di Biasi), hoje um secre­tá­rio de cul­tu­ra ou algo assim, tenha con­tas a pres­tar sobre sua atu­a­ção na luta.

Mas tal­vez o que haja de mais inte­res­san­te e vivo no fil­me seja o emba­te entre as prá­ti­cas e idei­as da gera­ção de Telmo com o uni­ver­so dos jovens urba­nos de hoje. Essa fric­ção pro­duz faís­cas belas e ilu­mi­na­do­ras, que tra­zem à tona, ain­da que bre­ve­men­te, ques­tões espi­nho­sas para os velhos mili­tan­tes, como um cer­to eli­tis­mo de seu movi­men­to (ou antes, sua dis­tân­cia em rela­ção à mas­sa da popu­la­ção), além de um ethos um tan­to ascé­ti­co, pró­xi­mo do mar­tí­rio.

Camadas de memó­ria

Os fil­mes de fic­ção que abor­dam de modo dire­to a luta arma­da con­tra a dita­du­ra, com seu séqui­to de tra­gé­di­as (tor­tu­ra, clan­des­ti­ni­da­de, mor­te, exí­lio) cos­tu­mam soar, pelo menos para mim, como adul­tos brin­can­do de moci­nho e ban­di­do. Todos eles, de Cabra cega a Batismo de san­gue, de O que é isso, com­pa­nhei­ro? a Lamarca, pas­san­do pelos flash­backs de Ação entre ami­gos, pare­cem tra­zer o ran­ço da fal­si­da­de, do “faz de con­ta”. É um pou­co o que acon­te­ce tam­bém com as recons­ti­tui­ções fic­ci­o­nais pre­ten­sa­men­te rea­lis­tas do Holocausto. São rea­li­da­des impos­sí­veis de recons­ti­tuir, de tor­nar pre­sen­tes, sem cair no sen­ti­men­ta­lis­mo ou na mis­ti­fi­ca­ção.

Pois bem. Em Trago comi­go esse “faz de con­ta” é enge­nho­sa­men­te trans­fe­ri­do para a tru­pe que mon­ta a peça. A mon­ta­gem tea­tral, por sua vez, esca­pa da arma­di­lha da fal­si­da­de jus­ta­men­te refor­çan­do o “fal­so”, a esti­li­za­ção (dos figu­ri­nos, da ceno­gra­fia, da ilu­mi­na­ção). Em con­tra­po­si­ção a essa recri­a­ção esté­ti­ca liber­ta do natu­ra­lis­mo, o fil­me inse­re depoi­men­tos con­tun­den­tes (mas des­pro­vi­dos de sen­ti­men­ta­lis­mo) de ex-mili­tan­tes que sofre­ram tor­tu­ra e viram paren­tes e com­pa­nhei­ros mor­re­rem.

A arti­cu­la­ção des­sas vári­as cama­das de memó­ria e de recons­tru­ção do pas­sa­do, reve­lan­do modos diver­sos de trân­si­to entre docu­men­to e fic­ção, é o trun­fo mai­or des­se fil­me madu­ro e ínte­gro como pou­cos. Do pon­to de vis­ta da dra­ma­tur­gia e do equi­lí­brio do elen­co, vale des­ta­car o con­tra­pon­to entre o gra­ve e com­pe­ne­tra­do Riccelli, sem­pre com os olhos a um triz das lágri­mas, e o deli­ci­o­so desa­fo­go cômi­co tra­zi­do por Paula Pretta, exce­len­te no papel de dire­to­ra-assis­ten­te.

Em tem­po: antes de se trans­for­mar em lon­ga-metra­gem de cine­ma, Trago comi­go foi rea­li­za­do como minis­sé­rie para a TV Cultura, em 2009. A com­pe­ten­te mon­ta­gem de Willem Dias faz pra­ti­ca­men­te desa­pa­re­cer as mar­cas e sutu­ras des­sa ori­gem.

Big Jato

Rever Big Jato qua­se um ano depois de sua con­sa­gra­ção em Brasília, assen­ta­da a poei­ra das dis­cus­sões sobre o con­tro­ver­ti­do com­por­ta­men­to do dire­tor Cláudio Assis, é des­co­brir novas bele­zas e aten­tar para deta­lhes não sufi­ci­en­te­men­te real­ça­dos.

Muitos fala­ram (eu inclu­si­ve) sobre o notá­vel tour de for­ce de Matheus Nachtergaele nos papeis do pai e do tio do jovem pro­ta­go­nis­ta (o óti­mo Rafael Nicácio), homens mui­to dife­ren­tes entre si.

Mas fal­tou dizer que cada um dos irmãos tam­bém tem con­tra­di­ções inter­nas fecun­das, no cará­ter e no tem­pe­ra­men­to. O vio­len­to Chico, que ganha a vida com um cami­nhão lim­pa-fos­sas, é um ser­ta­ne­jo bêba­do, rea­ci­o­ná­rio e machis­ta, mas tem lam­pe­jos geni­ais de com­pre­en­são do mun­do, é apai­xo­na­do pelos Beatles, des­ti­la um humor ico­no­clas­ta. Seu irmão Nelson, o por­ra-lou­ca maco­nhei­ro que tem um pro­gra­ma de rock na rádio local, voci­fe­ra con­tra seus aco­mo­da­dos e sub­mis­sos con­ter­râ­ne­os, mas se res­sen­te da pas­si­vi­da­de e da covar­dia que o impe­di­ram de par­tir para o mun­do.

No cômi­co emba­te entre eles deli­neia-se um afe­to sub­ter­râ­neo, não dito, como se um não pudes­se exis­tir sem o outro, ou mais, como se eles for­mas­sem um úni­co ser divi­di­do em dois. Matheus Nachtergaele é um ator tão pro­di­gi­o­so que con­se­gue dar vida e cre­di­bi­li­da­de a todo esse jogo de ambi­gui­da­des e des­li­za­men­tos, a pon­to de esque­cer­mos que ali não há Chico, nem Nelson, mas ape­nas Matheus.

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