Ficção inteligente versus mercado

Literatura

23.03.15

Muito pró­xi­mo de se tor­nar uma pato­lo­gia reco­nhe­ci­da pelo ins­ti­tu­to de psi­qui­a­tria, o fenô­me­no de “abrir uma edi­to­ra” segue for­te no Brasil. Apesar de todos os anún­ci­os de cri­se, de ajus­te fis­cal, de cor­tes de ver­ba (e todos sabem que a cul­tu­ra é a pri­mei­ra víti­ma de qual­quer paco­te de aus­te­ri­da­de), nas­cem edi­to­ras peque­nas e inde­pen­den­tes o tem­po todo no país. A mais recen­te no hori­zon­te é a Rádio Londres. Uma bus­ca no Google é infru­tí­fe­ra – no momen­to em que escre­vo esse tex­to, não há sequer um site dizen­do “Em cons­tru­ção”. É pre­ci­so inves­ti­gar para des­co­brir que a sede fica no Rio de Janeiro e que o publisher é um ita­li­a­no cha­ma­do Gianluca Giurlando.

A Rádio Londres sur­giu qua­se como um boa­to nas redes soci­ais – uma edi­to­ra de nome inco­mum que publi­ca­ria, nos pri­mei­ros meses de vida, meia dúzia de livros que o pes­so­al que não aguar­da a tra­du­ção em por­tu­guês já tinha lido e apro­va­do. Romances conhe­ci­dos, impor­tan­tes, ampla­men­te cita­dos, mas que, por algum moti­vo, nun­ca che­ga­ram a ser edi­ta­dos no país.

O autor norte-americano John Williams

Stoner, de John Williams, é um des­ses casos. Trata-se de uma “cam­pus novel” dos anos 1960 que foi redes­co­ber­ta em 2003, mui­to depois da mor­te do autor. Amparada pela divul­ga­ção de nomes como Ian McEwan, o roman­ce ganhou cer­to sta­tus cult, sen­do publi­ca­da nos EUA pela pres­ti­gi­o­sa New York Review of Books. O livro, assim como sua tra­je­tó­ria ori­gi­nal, é silen­ci­o­so. Narra a his­tó­ria de um pro­fes­sor (o Stoner do títu­lo) de ori­gem rural, a des­co­ber­ta da lite­ra­tu­ra em sua vida, os pro­ble­mas de amor e casa­men­to no iní­cio do sécu­lo XX e as peque­nas guer­ras de depar­ta­men­to que exis­tem na vida real de qual­quer pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio.

Ao con­trá­rio de outros roman­ces situ­a­dos em um cam­pus de Letras, como A tra­ma do casa­men­to, de Jeffrey Eugenides, o roman­ce de Williams não gira tan­to ao redor do ensi­no de lite­ra­tu­ra nem cria for­tes para­le­los entre o que está sen­do dis­cu­ti­do nas aulas e a tra­ma cen­tral do livro. Não há meta­li­te­ra­tu­ra for­ça­da. A nar­ra­ção é de gran­de cla­re­za, sem fra­ses de efei­tos, sem exa­ge­ros, recor­dan­do bas­tan­te o tra­ba­lho de J.M. Coetzee (que tam­bém fler­ta com o gêne­ro “cam­pus novel” em Desonra). É fácil per­ce­ber o que atraiu Ian McEwan ao roman­ce: há uma cena de per­da de vir­gin­da­de que pare­ce dia­lo­gar dire­ta­men­te com a que o autor inglês apre­sen­ta em Na praia (uma cena ter­ri­vel­men­te cons­tran­ge­do­ra pela sua cla­re­za des­cri­ti­va, alheia à poe­sia).

A tra­du­ção apre­sen­ta­da na edi­ção bra­si­lei­ra é sóli­da; a revi­são, no entan­to, é dolo­ro­sa – ano­tei mais de dez erros de digi­ta­ção e vír­gu­las. Felizmente, fui infor­ma­do, uma segun­da edi­ção já está sain­do da grá­fi­ca com esses equí­vo­cos con­ser­ta­dos.

Outro livro que a Rádio Londres publi­cou ao mes­mo tem­po não pode­ria ser mais dife­ren­te de Stoner. Estou falan­do de Viva a músi­ca, do colom­bi­a­no Andrés Caicedo. Enquanto Stoner é foca­do num pro­ta­go­nis­ta qua­se pas­si­vo dian­te de tudo que a vida lhe joga na cara, Viva a músi­ca está cen­tra­do em uma pro­ta­go­nis­ta incen­diá­ria em bus­ca de uma fes­ta sem fim, que sonha com noi­tes inter­mi­ná­veis. O esti­lo de Viva a músi­ca é apres­sa­do e às vezes his­tri­ô­ni­co. “Vitalidade” tal­vez seja a pala­vra-cha­ve.

O colombiano Andrés Caicedo, que cometeu suicídio aos 25 anos de idade

O livro de Caicedo, publi­ca­do ori­gi­nal­men­te em 1977, cos­tu­ma ser apon­ta­do como um dos pre­cur­so­res de Roberto Bolaño. A prin­cí­pio, a infor­ma­ção pro­ce­de: Caicedo rom­peu o estig­ma de rea­lis­mo mági­co ou fan­tás­ti­co dis­se­mi­na­do pelos auto­res do boom (espe­ci­al­men­te o seu con­ter­râ­neo García Márquez) e fez uma obra urba­na, urgen­te, atu­al. Os per­so­na­gens pare­cem estar cien­tes de que vivem em uma gera­ção per­di­da e fazem das dro­gas e da músi­ca (pri­mei­ro o rock, depois a sal­sa) o seu coti­di­a­no. No entan­to, o tom ofe­re­ci­do por Caicedo é radi­cal­men­te dis­tin­to do empre­ga­do por Bolaño. Caicedo nos con­ta­gia com a sua cele­bra­ção insa­na do pre­sen­te; Bolaño vê com cari­nho e oca­si­o­nal nos­tal­gia esses agi­ta­do­res dos anos 1970 (espe­ci­al­men­te em Os dete­ti­ves sel­va­gens), mas seus roman­ces e con­tos estão mar­ca­dos por uma dor do fra­cas­so des­sa gera­ção. Da vio­lên­cia, da ver­da­dei­ra vio­lên­cia, nenhum lati­no-ame­ri­ca­no des­sa épo­ca pode esca­par, afir­ma Bolaño em um de seus con­tos mais conhe­ci­dos. A vio­lên­cia, quan­do apa­re­ce na obra de Caicedo, é mui­to mais esti­li­za­da, osci­lan­do entre o rea­lis­mo docu­men­tal e o absur­do.

É neces­sá­rio se levar em con­ta, além da dis­tân­cia tem­po­ral que sepa­ra a obra dos dois, o fato de que Caicedo é colom­bi­a­no, e a Colômbia é um país de his­tó­ria úni­ca na América Latina: sua dita­du­ra veio antes e foi mui­to mais bre­ve. A cone­xão com os Estados Unidos e a cul­tu­ra angló­fo­na é mui­to mais for­te (algo que é, inclu­si­ve, tema do livro: a migra­ção do rock dos Rolling Stones para a sal­sa lati­na), e a ins­tau­ra­ção dos car­téis de nar­co­trá­fi­co nos anos 1970 ren­deu a Colômbia uma infâ­mia mun­di­al.

Em uma das cenas ini­ci­ais de Viva a músi­ca, a pro­ta­go­nis­ta, María, tro­ca uma reu­nião com um gru­po de lei­tu­ra de Marx por uma agi­ta­da fes­ta da clas­se média colom­bi­a­na. A cena é impor­tan­tís­si­ma para o livro (e retor­na em diver­sos momen­tos), pois nos ofe­re­ce uma cha­ve de com­pre­en­são da per­so­na­gem: María é movi­da, aci­ma de tudo, pelo dese­jo de fugir da his­tó­ria. Marx e a polí­ti­ca é um pesa­de­lo do qual ela quer acor­dar. Seu obje­ti­vo é subs­ti­tuir a noi­te pelo dia, tor­nar a fes­ta mais real do que o quo­ti­di­a­no. Viver uma vida que valha a pena ser vivi­da. Nesse sen­ti­do, a pro­ta­go­nis­ta está, tal­vez, mais pró­xi­ma dos per­so­na­gens da lite­ra­tu­ra beat nor­te-ame­ri­ca­na do que dos poe­tas per­di­dos de Bolaño.

Por fim, a Rádio Londres publi­ca­rá mui­to em bre­ve Estação Atocha, de Ben Lerner. Trata-se de um dos roman­ces mais inte­res­san­tes que li des­te novo sécu­lo que vive­mos. No meio do cami­nho entre a pas­si­vi­da­de de Stoner e a vita­li­da­de de María, o nar­ra­dor de Atocha é um poe­ta que via­ja à Espanha em bus­ca de algo – entre este “algo”, uma expe­ri­ên­cia autên­ti­ca de arte ou uma sen­sa­ção de viver a his­tó­ria, o que de cer­to modo ocor­re com o aten­ta­do à esta­ção Atocha – mas aca­ba se per­den­do em fes­tas e rela­ci­o­na­men­tos fuga­zes. Dos novos nar­ra­do­res nor­te-ame­ri­ca­nos, Lerner tal­vez seja o que mais se inte­res­se por artes plás­ti­cas (“The Clock”, a obra de 24 horas de Christian Marclay, é ele­men­to essen­ci­al de seu segun­do roman­ce, 10:04) e pela rela­ção entre obra e leitor/espectador. Estação Atocha é, no fun­do, um roman­ce de for­ma­ção tra­di­ci­o­nal, mas com uma refle­xão tão for­te sobre o con­tem­po­râ­neo (e a iro­nia que o cir­cun­da) que faz do roman­ce uma das mai­o­res sur­pre­sas no cená­rio lite­rá­rio.

Ben Lerner, autor de Estação Atocha

Ouvi dizer que mui­tas edi­to­ras se inte­res­sa­ram por publi­car a estreia de Ben Lerner, mas nenhum pla­no se con­cre­ti­zou. De um edi­tor, escu­tei que o roman­ce “era pou­co comer­ci­al”. Essa defi­ni­ção pro­va­vel­men­te se esten­de aos outros livros que a Rádio Londres está lan­çan­do, sem nenhum poten­ci­al de se tor­na­rem um mega­sel­ler (e casas edi­to­ri­ais aca­bam pre­ci­san­do de um suces­so imen­so para pagar as con­tas dos livros mais arris­ca­dos). Não é à toa que o nome Rádio Londres reme­te a uma rádio clan­des­ti­na mon­ta­da duran­te a 2ª Guerra Mundial, íco­ne da resis­tên­cia anti­na­zis­ta. Abrir uma edi­to­ra peque­na é uma lou­cu­ra e não dei­xa nin­guém rico — quem inves­te em livros sabe que qual­quer outro pro­du­to é mais ren­tá­vel. A con­jun­tu­ra do país não indi­ca que a situ­a­ção irá mudar ou melho­rar. Mas fico feliz que alguém é malu­co o bas­tan­te para publi­car estas obras e que final­men­te pode­rei dar de pre­sen­te Estação Atocha no ami­go secre­to do fim de ano.

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