Filmar o êxtase

Colunistas

05.11.14

Só tinha vis­to dois fil­mes do incen­sa­do dire­tor cana­den­se Xavier Dolan (26 anos) quan­do resol­vi dar uma chan­ce à una­ni­mi­da­de da crí­ti­ca e ir assis­tir a Mommy (prê­mio do júri no Festival de Cannes des­te ano), em car­taz em Paris e Bruxelas. Sei que é absur­do falar de fil­mes que as pes­so­as em geral ain­da não viram e que não pode­rão ver nos pró­xi­mos meses (o fil­me foi exi­bi­do no Festival do Rio; a estreia no Brasil está pro­gra­ma­da para 2015), mas este é um caso espe­ci­al.

Cena do filme Mommy

A afe­ta­ção do pri­mei­ro fil­me de Dolan que eu vi, Os amo­res ima­gi­ná­ri­os, me irri­tou como fazia tem­po eu não me irri­ta­va no cine­ma. Depois, assis­ti a Laurence Anyways, em São Paulo, e o fil­me me dei­xou de tal modo indi­fe­ren­te, que já nem me lem­bro do que vi. Eu tinha tudo para igno­rar Mommy. Mas já na pri­mei­ra cena, com a con­fu­são de pon­tos de vis­ta, quan­do a mãe do títu­lo assis­te ao pró­prio aci­den­te de car­ro, como se fos­se uma espec­ta­do­ra fora da cena, para só vol­tar a si depois do fato con­su­ma­do, enten­di que esta­va dian­te de uma obra-pri­ma.

Assisti a Os amo­res ima­gi­ná­ri­os em Berlim, com legen­das em ale­mão, que eu não falo, mas sem as quais seria impos­sí­vel enten­der a lín­gua fala­da pelos ato­res. Entretanto, mais difí­cil do que o calão que­be­quen­se (o mes­mo fala­do pelos per­so­na­gens de Mommy) era enten­der o que as pes­so­as viam naque­le pedan­tis­mo ama­nei­ra­do. A sor­te é que não sou crí­ti­co de cine­ma, por­que ali já devia estar anun­ci­a­do, sem que eu pudes­se ver, o que aca­bei reco­nhe­cen­do boqui­a­ber­to em Mommy.

É ver­da­de que Xavier Dolan não aju­da. O que ele tem a dizer em entre­vis­tas é em geral afe­ta­do, pre­ten­si­o­so e fútil. Se antes de ir ver o fil­me, eu tives­se come­ti­do a asnei­ra de assis­tir à par­ti­ci­pa­ção dele num pro­gra­ma de audi­tó­rio mui­to popu­lar da tele­vi­são fran­ce­sa, por oca­sião do lan­ça­men­to de Mommy na França (o vídeo está dis­po­ní­vel no YouTube), nada teria sido capaz de me con­ven­cer a lhe dar uma nova chan­ce. Entrei no cine­ma por­que tinha que fazer hora e esta­va pas­san­do na por­ta. Entrei pron­to para sair no meio do fil­me, mas em menos de dez minu­tos já que­ria ficar para a ses­são seguin­te.

Poucos fil­mes resol­vem tão bem a sín­te­se entre for­ma e con­teú­do, sem que o espec­ta­dor dei­xe de per­ce­ber a auto­no­mia dos dois. Mommy é pro­je­ta­do num qua­dra­do, um qua­dro pra­ti­ca­men­te ver­ti­cal, como a tela de um celu­lar, no cen­tro da tela hori­zon­tal e retan­gu­lar da sala de cine­ma, o que reme­te à bana­li­da­de e à pro­li­fe­ra­ção his­té­ri­ca e nar­ci­sis­ta das ima­gens no mun­do con­tem­po­râ­neo, com seus ins­ta­grams e sel­fi­es. A cer­ta altu­ra, porém, quan­do o espec­ta­dor já enten­deu o que está em jogo ali, que os per­so­na­gens, mas­sa­cra­dos pela vida, ten­tam sobre­vi­ver do jei­to que dá, lutan­do con­tra con­di­ções adver­sas, com os ins­tru­men­tos que encon­tram pela fren­te, eles vivem final­men­te um inter­va­lo de pura eufo­ria, de bici­cle­ta pelas ruas de Montreal. E nes­se momen­to, quan­do o espec­ta­dor tam­bém já se acos­tu­mou com aque­le enqua­dra­men­to pecu­li­ar como uma coi­sa natu­ral, Dolan faz coin­ci­dir a for­ma do fil­me ao êxta­se dos per­so­na­gens em cena, dan­do um sen­ti­do mara­vi­lho­so à poten­ci­a­li­da­de do cine­ma e ao limi­te que ele tinha se impos­to até então com o qua­dro ver­ti­cal, que é o que afi­nal per­mi­te a pas­sa­gem ao êxta­se, tam­bém na for­ma. E, de repen­te, ape­nas por um ins­tan­te, o que podia pare­cer gra­tui­to e arbi­trá­rio, e que por hábi­to já esta­va se tor­nan­do natu­ral, ganha outro sen­ti­do, mai­or do que a sim­ples refe­rên­cia à bana­li­da­de das ima­gens no mun­do con­tem­po­râ­neo. Um sen­ti­do ao mes­mo tem­po gran­di­o­so e sim­ples. Tudo em Mommy diz res­pei­to ao êxta­se liber­tá­rio des­se ins­tan­te, que não pode durar, mas que vale a vida ou um fil­me.

É difí­cil falar de um obje­to assim, em ter­mos gené­ri­cos e abs­tra­tos, sem des­cre­ver aqui­lo de que se fala, mas des­cre­ver, nes­se caso, estra­ga­ria tudo. O fil­me con­ta a his­tó­ria de uma mãe e de um filho dis­fun­ci­o­nais. Quando o fil­me come­ça, o meni­no está inter­na­do num refor­ma­tó­rio e a mãe é cha­ma­da para levá-lo de vol­ta para casa, por­que já não podem ficar com ele, o meni­no aca­ba de ate­ar fogo às ins­ta­la­ções do inter­na­to, dei­xan­do um dos cole­gas gra­ve­men­te quei­ma­do. O fil­me é a his­tó­ria trá­gi­ca de um esfor­ço e de um tes­te aos limi­tes do amor. É a ten­ta­ti­va des­sa mãe de sal­var o filho da lei e da puni­ção. A esse esfor­ço vem se jun­tar uma vizi­nha afá­si­ca, ex-pro­fes­so­ra que per­deu a voz depois de um pos­sí­vel dra­ma fami­li­ar e que está de pas­sa­gem pela cida­de, com o mari­do e a filha, em fuga de um pas­sa­do que o fil­me não expli­ci­ta. Durante as mais de duas horas de fil­me, os três vão se aju­dar mutu­a­men­te, sem pre­con­cei­tos, por­que che­ga­ram cada um por uma via a esse lugar da dor e da expe­ri­ên­cia onde os pre­con­cei­tos já não são pos­sí­veis. E, por um ins­tan­te, tudo vai pare­cer pos­sí­vel. Mas só por um ins­tan­te, que é o que pode durar o êxta­se e a liber­da­de.

A essa altu­ra, come­cei a me per­gun­tar onde é que aqui­lo podia dar (por­que só podia aca­bar mal) e come­cei a temer pelo fim do fil­me. Acho que foi Godard (de quem Dolan é um admi­ra­dor con­fes­so) quem dis­se que não se ter­mi­na um fil­me con­ge­lan­do o qua­dro, por­que seria um final gros­sei­ro e pre­gui­ço­so. O fim de Mommy con­tra­diz Godard com um con­ge­la­men­to de outra ordem, que con­fir­ma mais uma vez a sín­te­se entre a for­ma e o con­teú­do des­se fil­me que insis­te em dizer o tem­po intei­ro que o êxta­se só pode durar um ins­tan­te. Dolan con­ge­la a liber­da­de antes que ela seja inter­rom­pi­da, no ar, antes de vol­tar a tocar o chão, antes de ouvir­mos a voz de Lana del Rey, can­tan­do “Born to Die”, um títu­lo tão elo­quen­te para a oca­sião. E não dei­xa de ser um final feliz, como só é pos­sí­vel no cine­ma.

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