Fora das grades

Cinema

18.11.14

Lançado comer­ci­al­men­te em dezem­bro de 1974, Vai tra­ba­lhar, vaga­bun­do! será exi­bi­do no cine­ma do Instituto Moreira Salles em cópia res­tau­ra­da no sába­do, 22 de novem­bro, em ses­são em home­na­gem a Hugo Carvana. A nota crí­ti­ca repro­du­zi­da abai­xo foi publi­ca­da na estreia do fil­me, e vai aqui não tan­to pelo que reve­la do fil­me e sim pelo que espe­lha do sen­ti­men­to com que ele foi rece­bi­do há qua­ren­ta anos. Depois de dez anos de dita­du­ra, o pri­mei­ro lon­ga-metra­gem de Carvana sur­giu como uma recon­quis­ta, no espa­ço da fan­ta­sia e por um tem­po fugaz como o do car­na­val, da liber­da­de per­di­da.

Vai tra­ba­lhar, vaga­bun­do! ter­mi­na com o reen­con­tro de todos os per­so­na­gens para for­mar algo seme­lhan­te a um blo­co de car­na­val. Os per­so­na­gens então pare­cem liga­dos pela cum­pli­ci­da­de comum aos gru­pos que saem à rua para brin­car o car­na­val. Não vivem mais os peque­nos desen­ten­di­men­tos da his­tó­ria recém-ter­mi­na­da. É como se os pro­ble­mas que enfren­ta­ram até há pou­co tives­sem sido solu­ci­o­na­dos, ou como se eles tives­sem deci­di­do esque­cer tudo o mais para se dedi­car ao car­na­val.

A solu­ção não é nova. Com frequên­cia, ter­mi­na­da a his­tó­ria, alguns fil­mes apre­sen­tam os intér­pre­tes mais ou menos assim como no tea­tro, ao final de uma peça, os ato­res vol­tam à cena para agra­de­cer os aplau­sos. A inten­ção aqui é diver­sa. Um agra­de­ci­men­to, sim, mas prin­ci­pal­men­te um des­lo­ca­men­to da his­tó­ria para uma outra dimen­são. A his­tó­ria aca­bou, mas o fil­me não. O final depois do final é par­te inte­gran­te do espe­tá­cu­lo. As ima­gens des­te qua­se pos­fá­cio, diga­mos assim, expli­cam o que veio antes, ana­li­sam o que aca­ba­mos de ver, car­na­va­li­zam o que aca­ba­mos se ver. Nelas, numa espé­cie de des­fi­le de esco­la de sam­ba. Os per­so­na­gens, inse­ri­dos num espa­ço e tem­po dife­ren­tes daque­les em que a his­tó­ria foi con­ta­da, con­ver­sam então dire­ta­men­te com o espec­ta­dor por meio de um ges­tu­al à flor da pele, por uma expres­são cor­po­ral ime­di­a­ta, abso­lu­ta. Improvisação livre. Com o ator sol­to, sem per­so­na­gem ou cena para inter­pre­tar, o qua­se pos­fá­cio resu­me o fil­me que aca­bou de pas­sar na tela. Vai tra­ba­lhar, vaga­bun­do! rea­fir­ma então que todo o tem­po se mos­trou ao espec­ta­dor como uma fan­ta­sia, um brin­que­do, um jogo de faz de con­ta. Por trás de cada per­so­na­gem, do vilão ou do herói (e a rigor nem seria líci­to falar em vilão e herói), encon­tra-se prin­ci­pal­men­te a satis­fa­ção de brin­car de uma coi­sa ou outra.

O fil­me come­ça com a saí­da de Dino da pri­são. Convém acen­tu­ar: na sequên­cia de aber­tu­ra a ima­gem é em pre­to e bran­co e o som é dis­tor­ci­do, difí­cil enten­der os con­se­lhos do guar­da que acom­pa­nha o pre­so até o por­tão do saí­da. Sair de pri­são sig­ni­fi­ca, aqui, dei­xar um coti­di­a­no des­co­lo­ri­do e de falas inin­te­li­gí­veis para cair no car­na­val, no mun­do de cores da foto­gra­fia de José Medeiros. Convém acen­tu­ar ain­da: não há nenhu­ma infor­ma­ção sobre o pos­sí­vel deli­to que levou Dino a ser pre­so e nenhu­ma infor­ma­ção sobre o pre­sí­dio — pode ser um cár­ce­re de ver­da­de con­cre­ta ou um muro ima­gi­ná­rio, um esta­do de coi­sas, uma ordem res­tri­ti­va que pren­de o indi­ví­duo entre qua­tro pare­des. O que temos na tela é a liber­ta­ção de alguém pre­so por uma razão qual­quer, ou sem razão qual­quer, pre­so sim­ples­men­te por­que foi encon­tra­do sol­to, andan­do impu­ne­men­te pelas ruas da cida­de (coi­sa nem tão difí­cil de acon­te­cer). O que temos na tela é uma his­tó­ria con­ta­da a par­tir da vol­ta à rua, à liber­da­de, ao car­na­val (coi­sa nem tão facil de acon­te­cer).

Esta sen­sa­ção de se encon­trar sol­to para brin­car como cri­an­ça é subli­nha­da pelo apa­re­ci­men­to da cor e pela ale­gria que o per­so­na­gem demons­tra com seu modo de cami­nhar como quem dan­ça. No reen­con­tro do pre­so com o espa­ço aber­to, no tra­je­to entre a pri­são e a rua, Dino des­fi­la como um pas­sis­ta de esco­la de sam­ba. A pri­são ficou para trás. Só a liber­da­de con­ta. Uma vez fora das gra­des, come­ça o car­na­val.

O car­na­va­les­co em Vai tra­ba­lhar, vaga­bun­do! não está ape­nas na super­fí­cie, no ime­di­a­ta­men­te visí­vel. Está na estru­tu­ra. Da cena à estru­tu­ra que orga­ni­za a cena, tudo no fil­me se com­põe como uma fan­ta­sia. Como más­ca­ras, como cari­ca­tu­ras, tal­vez nem tan­to de per­so­na­gens reais do coti­di­a­no do Rio de Janeiro, mas de um per­so­na­gem cri­a­do pelo dia a dia da cida­de. Babalu, Russo, e espe­ci­al­men­te Dino, são, na ver­da­de, cari­ca­tu­ras de uma cari­ca­tu­ra: o malan­dro ima­gi­na­do pela fic­ção cari­o­ca como um herói para se opor ao tra­ba­lhis­mo do tem­po de Getúlio Vargas, ao ape­lo para o tra­ba­lha­dor tra­ba­lhar ain­da um pou­co mais. E os intér­pre­tes, eles tam­bém, ou prin­ci­pal­men­te, atu­am como quem não tra­ba­lha, como quem inter­pre­ta seu per­so­na­gem com um ges­to lar­ga­do, qual­quer. Não é bem assim, mas é o que pare­ce. De um cer­to modo, o espec­ta­dor per­ce­be mais o ator que o per­so­na­gem, se diver­te mais com o fato de ver alguém que se diver­te em fazer de con­ta que é outro. Assim, Carvana em lugar de Secundino, Paulo Cesar Pereio em lugar de Russo, Nelson Xavier em lugar de Babalu, Nelson Dantas em lugar de Mamede. E Odete Lara, Wilson Grey, Lutero Luis, Fregolente e Rodolfo Arena, entre tan­tos outros. A ale­gria do ator, mais que a ale­gria ou sofri­men­to do per­so­na­gem.

A cum­pli­ci­da­de que se for­ma entre os espec­ta­do­res e os per­so­na­gens resul­ta do que os ato­res trans­mi­tem com sua pre­sen­ça e per­so­na­li­da­de e da memó­ria do malan­dro cari­o­ca, ima­gem de um ide­al de liber­da­de, de um total des­com­pro­mis­so com o que na soci­e­da­de impõe uma qual­quer ordem do dia pró­xi­ma do mun­do em pre­to e bran­co de que Dino se liber­ta na ima­gem ini­ci­al. Atores e per­so­na­gens de fato pro­cu­ram inver­ter a pro­po­si­ção do títu­lo do fil­me e, sub­ver­si­vos, suge­rir para o espec­ta­dor: vai vaga­bun­de­ar, tra­ba­lha­dor!

A ima­gem do malan­dro tem tido, sem qual­quer dúvi­da, a sua melhor expres­são no car­na­val, onde as por­tas da pri­são são tem­po­ra­ri­a­men­te aber­tas. Aí então, leva­dos pelo car­ce­rei­ro até a saí­da, todos dei­xam de ouvir os con­se­lhos — tal como Dino — e espe­ram ape­nas o momen­to de rever as cores do mun­do, beber meia hora de cer­ve­ja no pri­mei­ro bar. Aí então, o Secundino Meireles da pri­são se trans­for­ma no Dino. Não exis­tem mais dife­ren­ças, como as que até então sepa­ra­vam car­ce­rei­ros e encar­ce­ra­dos. O rela­ci­o­na­men­to entre as pes­so­as é ingê­nuo e igual. Cada um ado­ta o papel que qui­ser, esco­lhe sua fan­ta­sia que qui­ser.

Os per­so­na­gens de Vai tra­ba­lhar, vaga­bun­do! sonham com a pos­si­bi­li­da­de de esti­car a atmos­fe­ra de car­na­val a todos os dias do ano. Babalu, Russo ou Dino, heróis ima­gi­na­dos à ima­gem e seme­lhan­ça da fic­ção popu­lar do malan­dro, vivem com um pé no mun­do real e outro no mun­do da fan­ta­sia, onde os limi­tes do coti­di­a­no não exis­tem. E isto per­mi­te uma supe­ra­ção, atra­vés de uma for­ma mági­ca, de nos­sos con­fli­tos. Uma rela­ção mági­ca com a cacha­ça, com o dinhei­ro, com as mulhe­res, com o tra­ba­lho. Então, mes­mo as coi­sas mais ten­sas tor­nam-se ple­na har­mo­nia.

Exatamente por isto, um dos melho­res momen­tos de Vai tra­ba­lhar, vaga­bun­do! é aque­le em que Dino e Mamede relem­bram o gran­de jogo de sinu­ca entre Babalu e Russo. A fic­ção popu­lar ganha uma dimen­são, diga­mos assim, épi­ca. Os per­so­na­gens se trans­for­mam em heróis. E, como heróis, eles rea­pa­re­cem em outro bom momen­to do fil­me, a reu­nião depois da his­tó­ria ter­mi­na­da. Vale notar o cui­da­do da dire­ção, ao colo­car então as pes­so­as numa esca­da­ria, num bon­de e na praia. Os heróis ima­gi­na­dos des­fi­lam numa pai­sa­gem real sem sair da atmos­fe­ra mági­ca em que vivem a doce vida.

Carvana apro­vei­ta as lições dos fan­ta­si­a­dos do car­na­val de rua. É cer­to que o espe­tá­cu­lo se apoia prin­ci­pal­men­te nos intér­pre­tes, mais ou menos sol­tos para impro­vi­sar em cena, solu­ção cer­ta­men­te ins­pi­ra­da pelo car­na­val. Na trans­cri­ção das regras do espe­tá­cu­lo car­na­va­les­co para o uni­ver­so do cine­ma, o fil­me con­se­gue fla­grar a ale­gria ingê­nua do car­na­val. Simples assim, mas tal con­ta­to com o mun­do de sonhos do homem comum esta­va per­di­do num can­to qual­quer. Retomá-lo é um bom pon­to de par­ti­da.

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