Fotografias faladas

IMS na FLIP

21.06.16

Inconfissões – fotobiografia de Ana Cristina Cesar, que será lançada em 30 de junho na Casa do IMS em Paraty, reúne textos breves de velhos amigos e de jovens que seguiram as pegadas literárias da autora homenageada pela Flip em 2016 (de 29 de junho a 3 de julho). Seja pela intimidade com os flagrantes fotográficos ou pela tentativa de invenção do tempo presente nas imagens, cada um legendou uma determinada foto, “a fim de cruzar narrativas à narrativa que ia compondo com as imagens”, explica Eucanaã Ferraz, organizador do livro editado pelo IMS. Reproduzimos abaixo duas dessas ‘fotos-legendas’ assinadas por Alice Sant’Anna e Laura Liuzzi, representantes na geração de poetas pós-Ana C.

“Parece um sonho”
Alice Sant’Anna

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A foto é de 83. Tinha muita coisa em volta, barcos no meio da rua, um fusca amarelo, casas empilhadas, janelas abertas e fechadas, antenas de tv. Gente sem pressa, roupas de verão, uns conversando, outro sentado esperando o dia passar. Mais do que isso, não sei se ela contaria. Parece um sonho, talvez pelas cores. Telhados de palha, rotisserias, placas, árvores magras lá no alto. O tempo estava bom. O que aconteceu antes da foto, se ela tinha fome, se entrou numa das lanchonetes, se pediu uma empanada, se comeu com gosto. Se minutos antes estava dentro do barco, se ainda ia pegar o barco, se normalmente enjoava em barcos. Se tinha dormido bem, se o passaporte estava dentro da bolsa, se comprou uma lembrancinha. Se não sentia calor debaixo daquela blusa vermelha, um pouco quente para a estação, o que se passava por trás dos óculos escuros. Se o hotel era razoável, quantos dias ainda restavam até o fim da viagem, se mantinha um diário. Se já queria ir embora, se o tempo custava a passar. A boca sem expressão, essas coisas. O prazer de decidir, de partir (num barco?), ou de escolher ficar, mas poder mudar de ideia a qualquer minuto. Nunca ficar por ficar (seria um pecado). Ser lago, montanha. Na foto quase não dá pra ver, melhor então deixar em aberto? Se bem que não sei se ela contaria. Uma das últimas fotos dela, é possível. Por que não sorria pra câmera, se estava contente. Contente ou angustiada, se uma coisa elimina a outra, se tem diferença. Se queria voltar pra casa ou se não queria voltar nunca mais. Parece um sonho, não tinha muito sentido, talvez pelas cores. A foto é de 83, fevereiro. Ir embora o tempo todo, sem parar. Se tinha algum segredo, se sempre teve, e qual era. Se contaria (claro que não). O que escondia por trás dos olhos da menina séria, a mais discreta do mundo.

“Ainda era uma criança”
Laura Liuzzi

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Ana Cristina Cesar teve um de seus primeiros poemas publicado em um boletim escolar. Era agosto de 1958. A pequena autora contava seis anos – idade que tinha nesta foto – e ainda não sabia escrever. “Uma poesia de criança” foi ditada aos pais pela menininha de feições angelicais e trazia versos bem cortados, cujo tom surpreendia para alguém tão jovem: “Na noite escura/ caindo o orvalho sobre/ a grande montanha/ que se avistava/ no alto da estranha pedra…”. Nota-se na imaginação da pequena poeta uma austeridade incomum, que também pode ser percebida neste retrato.

Com o queixo levemente levantado, a boca fechada sem mostrar os dentes num sorriso, o olhar tristonho e os pés calçados em meias e sapatilhas brancas, ainda longe de tocarem o chão, Ana segura com o braço esquerdo uma boneca e um barco de brinquedo. Com o outro, sustenta um livro cuidadosamente. Parece que temos duas faces apontadas: a infância e o desejo implacável de entrar no universo da literatura. O lado da sombra, o esquerdo, é o dos brinquedos. Incide mais luz no lado em que repousa o livro cuja capa não apresenta nenhuma ilustração, ao contrário da maior parte das publicações infantis. É um livro de capa dura. Infelizmente não se lê o título, mas não seria absurdo supor tratar-se de um livro de poemas.

Há um pequeno detalhe, porém, que devolve a infância à criança tão sisuda: na mesma mão que segura o volume, há uma colherinha, o que indica que ela provavelmente brincava de dar de comer a sua boneca. Ufa! Ainda era uma criança.

A relação de Ana com a literatura, como já se nota nos registros de infância, fora sempre fundamental. Tão importante quanto os brinquedos. Mas fazer literatura não era brincadeira. Era coisa séria. Desde menina.

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