Fragmentos de uma história sem fim — Quatro perguntas a Bernardo Kucinski

Quatro perguntas

15.01.13

 

Bernardo Kucinski na UFSC (foto de Wagner Behr)

Bernardo Kucinski avi­sa ao lei­tor na nota intro­du­tó­ria de K.: “Tudo nes­te livro é inven­ção, mas qua­se tudo acon­te­ceu”. O jor­na­lis­ta e escri­tor dá tra­ta­men­to de roman­ce à his­tó­ria de sua irmã, Ana Rosa Kucinski Silva, desa­pa­re­ci­da pelo regi­me mili­tar em 1974. O pro­ta­go­nis­ta é K., na ver­da­de, seu pai, que empre­en­deu em vão até o fim da vida uma bus­ca por infor­ma­ções sobre a filha — ou, ao menos, pelo cor­po dela. O autor evi­ta sen­ti­men­ta­lis­mos e se vale de uma estru­tu­ra frag­men­ta­da, com cada capí­tu­lo sig­ni­fi­can­do uma peça do que­bra-cabe­ça que nun­ca se com­ple­ta. Lançado no final de 2011 pela edi­to­ra Expressão Popular, o livro ganhou aten­ção cres­cen­te — e uma nova edi­ção — em 2012, e ago­ra che­ga a outras lín­guas: em inglês, espa­nhol e cata­lão já em feve­rei­ro; em ale­mão em junho. Kucinski fala nes­ta entre­vis­ta de suas esco­lhas para a obra e do quan­to há ain­da a se dizer sobre a dita­du­ra mili­tar.

1) Sua irmã desa­pa­re­ceu em 1974 e K. foi lan­ça­do em 2011. Que impor­tân­cia teve esse tem­po para você con­se­guir escre­ver o livro e encon­trar a estru­tu­ra ade­qua­da?

O desa­pa­re­ci­men­to é vivi­do pelos fami­li­a­res de diver­sas for­mas e em diver­sas eta­pas. Escrever um livro não faz neces­sa­ri­a­men­te par­te des­se pro­ces­so. A ideia, ain­da mui­to vaga, de um livro des­se tipo só me ocor­reu há cer­ca de qua­tro ou cin­co anos. Ficou, então, só na ideia. Há três anos, pela pri­mei­ra vez, escre­vi fic­ção, uma nove­la poli­ci­al. Escrevi com mui­ta faci­li­da­de e logo em segui­da pas­sei a escre­ver con­tos liga­dos a epi­só­di­os da infân­cia, famí­lia, meu pai, meus pri­mos; esses con­tos foram puxan­do, por assim dizer, outras lem­bran­ças, e logo sur­gi­ram de for­ma espon­tâ­nea os frag­men­tos que dari­am ori­gem a K. Nada foi pla­ne­ja­do.

2) Desde a esco­lha de K. como nome do pro­ta­go­nis­ta e do livro, é cla­ra uma asso­ci­a­ção entre a his­tó­ria nar­ra­da e a lite­ra­tu­ra de Kafka, sobre­tu­do O pro­ces­so. Quais as asso­ci­a­ções que você des­ta­ca entre o que sua famí­lia viveu e o uni­ver­so kaf­ki­a­no?

Há uma asso­ci­a­ção qua­se auto­má­ti­ca do pro­ble­ma vivi­do até hoje pelos fami­li­a­res dos desa­pa­re­ci­dos polí­ti­cos, que não podem enter­rar seus mor­tos, e a ideia geral de uma situ­a­ção “kaf­ki­a­na”, como ficou con­sa­gra­da no domí­nio geral. Mas, como eu expli­co num dos capí­tu­los de K., a rela­ção mais pro­fun­da e menos apa­ren­te é com o sen­ti­men­to de cul­pa que afe­ta os fami­li­a­res em algu­ma medi­da, senão por outro moti­vo, pelo sim­ples fato de terem sobre­vi­vi­do.

3) Muitos per­so­na­gens são iden­ti­fi­cá­veis, mas você não cita seus nomes. De outros cita, caso do dele­ga­do Sérgio Fleury. Quais foram os cri­té­ri­os uti­li­za­dos? Não citar foi para evi­tar pro­ces­sos ou tam­bém um recur­so nar­ra­ti­vo para impe­dir que o livro fos­se vis­to ape­nas como um docu­men­to de denún­cia?

Não foi nada pen­sa­do. Não hou­ve um cri­té­rio. Cada capí­tu­lo nas­ceu nos seus pró­pri­os ter­mos, sem rela­ção com os demais. Certamente não pro­cu­rei evi­tar pro­ces­sos. Talvez até os tenha dese­ja­do, quan­do cito o Fleury ou os pro­fes­so­res da USP que deci­di­ram pela demis­são da pro­fes­so­ra por aban­do­no de fun­ção ape­sar de sabe­rem que ela havia sido seques­tra­da.

4) Seu livro sur­giu qua­se simul­ta­ne­a­men­te a fil­mes que depo­si­tam um olhar pes­so­al sobre a dita­du­ra, casos de Diário de uma bus­ca, Uma lon­ga via­gem e Marighella. Por que você acre­di­ta que essas obras estão apa­re­cen­do ago­ra, mais de 25 anos após o fim do regi­me mili­tar? Que ver­da­des ain­da pre­ci­sam ser ditas ou que per­gun­tas ain­da pre­ci­sam ser fei­tas sobre as pes­so­as mor­tas ou sumi­das na dita­du­ra?

Há mui­tas his­tó­ri­as ain­da para serem con­ta­das; mui­tas ver­da­des a serem ditas. A come­çar pela ver­da­de fun­da­men­tal de onde estão os cor­pos dos desa­pa­re­ci­dos. A dita­du­ra bra­si­lei­ra ficou no regis­tro his­tó­ri­co super­fi­ci­al como uma dita­du­ra rela­ti­va­men­te bran­da, que atin­giu um nume­ro peque­no de pes­so­as, mas a ver­da­de é que os méto­dos usa­dos pela repres­são foram espe­ci­al­men­te per­ver­sos, e milha­res de pes­so­as sofre­ram em algum grau.

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